Idéias que não entendo porque foram recusadas pelas redes de TV, mas agora publico pra vocês.
Vila do Amparo
Tema: Série de TV dramática que explora as relação de arquétipos genéricos da ficção em versões humanizadas e contemporâneas.
Argumento: Um grupo de ex-colegas de escola se reúne depois de anos através de uma rede social na internet (pegada moderna) e descobrem que cada um está passando uma fase difícil na vida. Todos resolvem unir suas forças e se mudam para uma vila na Mooca, São Paulo, onde precisam lidar com suas diferenças, seus problemas e seus sonhos pessoais. Os episódios se focarão na procura de emprego, amor e companheirismo dentro e fora da vila.
Personagens: Um detetive estilo noir e com impedimento na fala, um pirata boa praça e homossexual, um piloto de caças interestelares que é viciado em crack, um cowboy com Mal de Parkinson em estado avançado e o Fábio Júnior.
Notas extras: Só uma idéia, mas acho que o papel do Fábio Júnior poderia ser interpretado pelo Wagner Moura que tá super bombando. A direção tem de ser do Jayme Monjardim pra deixar a coisa com um tom mais épico. Sonhei com isso tudo ontem e até vi os comerciais. Só anunciante forte!
A Redoma
Tema: Novela de época passada no século XXIII. Uma revolução de conceito para atingir um público novo e jovem.
Argumento: Em um futuro pós-apocalíptico, três corporações controlam todo o planeta. Em uma cidadezinha praiana no interior da Bahia, personagens convivem com os malefícios da radiação, a opção única por alimentos da marca Qualitá enquanto lutam para que suas casas não sejam demolidas por uma das coorporações que pretende construir ali um bairro distopiano coberto por uma redoma de pau-a-pique retrô.
Núcleos: pobre radioativo, miseráveis mutantes (vilões ocasionais), homens de preto (corporações), pescadores (também muito pobres, mas humildes, bons e felizes na miséria) e o clone de Inri Cristo que deverá entrar na trama apenas nos capítulos finais como messias de uma nova era de muito amor e luz.
Notas extras: A novela deverá abordar com alusões discretas e subjetivas os temas: MST, especulação imobiliária, ecologia, prática excessiva de merchandising na tv, a fusão das Casas Bahia com o Grupo Pão de Açúcar e de como os Maias estavam errados.
A redoma nunca deverá ser mostrada, só sugerida em níveis emocionais. Minha sugestão de diretor é o Wolf, que manda benzaço com pobreza na TV. Eu tenho o telefone dele e posso ligar se vocês quiserem.

FADE IN
|INSERT vidro fosco de uma porta com os dizeres pintados “DETETIVE CARUSO – INVESTIGADOR PARTICULAR”.
FADE para
INT. Escritório da agência de detetives – DIA
MÚSICA de jazz estilo noir.
O DETETIVE Caruso está em pé atrás de sua mesa olhando a rua através das persianas. O ASSISTENTE está sentado em sua mesa distraído com uma revista de palavras cruzadas. Um ventilador de teto gira lentamente e há um copo de whiskey pela metade na mesa do DETETIVE.
ASSISTENTE
Catinga, odor ruim... cinco letras.
DETETIVE
(sem tirar os olhos da janela)
Fedor.
ASSISTENTE conta com a caneta os espaços para preencher a palavra e a anota na revista.
DETETIVE
Essa cidade fede! Fede a desespero, insanidade e luxúria. Todos os dias milhões de almas desamparadas aguardam no limbo e observam mudas e desesperançosas as suas carcaças se arrastarem pelas ruas, escritórios e apartamentos emprestados por terceiros para atividades das mais sórdidas.
ASSISTENTE
Ô! Sei de uma garçoniere no Lido onde as paredes só não falam por vergonha. Amparo, arrimo, oito letras.
DETETIVE
Sustento.
ASSISTENTE
Isso. Você jogo no bicho ontem?
DETETIVE
(cont’d)
Animais se arrastando, se roçando e finalmente apodrecendo no esquecimento coletivo. O arrependimento e o desalento de cada uma dessas almas são o nosso maldito sustento.
ASSISTENTE
Sei. Eu disse para você jogar no macaco e cercar! Depois fica aí, todo borocochô. Já falei! Quando eu sonho com o Charlton Heston é batata!
DETETIVE
São suas vozes que me despertam e que me amaldiçoam. O azedo, o negrume e a carniça é o que me faz querer dormir e não acordar. As almas pelo menos não tem o menor odor, mas os corpos estão aí trapaceando, mentindo, traindo e pecando. Todos os dias alguém acorda nessa cidade e decide destruir a vida de outra pessoa. Muitas vezes, se possível, antes da hora do almoço. Dá para sentir até com a janela fechada.
Uma batida na porta é ouvida. O ASSISTENTE oculta a revista de palavras cruzadas, o DETETIVE se senta e se apruma na cadeira.
DETETIVE
Lá vamos nós de novo. Entre!
MULHER bem vestida com um chapéu com véu entra no escritório. O ASSISTENTE faz sinal para que ela se sente em uma cadeira. O DETETIVE a observa de sua mesa.
ASSISTENTE
Em que podemos ajudar?
MULHER
(se sentando)
Estou atrás de uma pessoa.
ASSISTENTE
Homem? Mulher?
MULHER
Um homem. O homem que me deu isso!
MULHER tira o chapéu e revela seu rosto. ASSISTENTE observa sua face por um instante.
ASSISTENTE
Herpes?
MULHER
(coloca a mão sobre a boca)
Não! O chapéu!
ASSISTENTE
É. Eu ia dizer que não parece herpes. Parecia mais uma espinha. A senhora andou espremen...
DETETIVE
Perdão! Ele é meu assistente. Chegou semana passada. Normalmente só limpa apontadores por aqui. Posso examinar o chapéu?
MULHER
(entrega o chapéu para o DETETIVE)
Por favor.
ASSISTENTE
(consigo mesmo)
Amanhã é pavão na certa.
DETETIVE inspeciona o chapéu por vários ângulos, pega uma lupa e observa um detalhe, observa a MULHER por um momento e volta a observar o interior do chapéu.
DETETIVE
Posso perguntara qual é o seu número de chapéu?
MULHER
36.
DETETIVE
Esse chapéu é tamanho 38. Você está mentindo para nós. Não é, mocinha?
MULHER
Não! Ele é meu, mas não foi comprado para mim.
DETETIVE
(devolve o chapéu)
Fale mais sobre esse homem.
MULHER
O nome dele é Moreira. Eu não sei o seu primeiro nome. Apenas isso: Moreira. Eu o conheci por causa de um cruzeiro em Havana.
ASSISTENTE
Conheço muito bem o tipo. Garoto de programa expatriado que não acompanhou a revolução monetária brasileira, cobrando preços módicos...
MULHER
Não é isso. Foi um cruzeiro de navio!
ASSISTENTE
Ah! Faz sentido.
DETETIVE
Perdão novamente. Deixe ver se completo o quebra-cabeças. Vocês se apaixonaram, ele quis lhe comprar um chapéu. Vocês estavam em alto mar e não havia o seu número na loja do navio.
MULHER
É exatamente isso. Como você descobriu?
DETETIVE
Qualquer um poderia descobrir isso pela etiqueta. Ela possui o nome da loja e essa loja só existe em um transatlântico que ancorou no porto de Santos faz uma semana antes de parar por um dia aqui na cidade.
MULHER
É incrível!
DETETIVE
Ainda tem mais. O chapéu também é um modelo muito especial. O véu é bordado a mão nas filipinas por criancinhas carentes e o tecido é linho marroquino.
MULHER
Eu não fazia idéia.
DETETIVE
Há duas marcas distintas de impressões na aba. Uma é fina, longa e delicada. A sua mão segurou esse chapéu por alguns momentos, mas a outra é evidentemente mais acentuada e provocou uma ligeira saliência na lateral. Um homem sem dúvida. Forte e impetuoso.
MULHER
Como você pode saber tanto só olhando para um chapéu?
DETETIVE
É extraordinariamente simples: eu te dei esse chapéu. Eu sou o Moreira.
MULHER
Isso... isso é ridículo!
DETETIVE
Será mesmo? Você não se lembra da noite no convés? Bebemos três dry-martinis. Você reclamou que o seu joanete doía. A Orquestra Tabajaras cover tocava o Luan e Vanessa e eu disse que sob a lua seus olhos pareciam com os de minha tia Dolores quando ela assistia o jornal e discutia com o Cid Moreira sobre as notícias do dia.
MULHER
Não é possível! O Moreira que conheci era moreno, forte, jovem e tinha uma covinha no queixo.
DETETIVE
Delírios de martini, querida! Tenho sessenta anos, sou caucasiano e mal tenho queixo.
ASSISTENTE
Praticamente um Noel Rosa reencarnado.
DETETIVE
Cale-se.
MULHER
(começa a chorar)
Eu não acredito!
DETETIVE
É melhor acreditar... aceitar os fatos de uma vez e desistir de mim. Você sabe muito bem que sou casado e ambos sabemos que aquilo tudo, por mais maravilhoso que tenha sido, foi apenas uma louca aventura sobre o Atlântico! Um delírio fantástico porém irreal e fugaz!
MULHER
(Chorando)
Moreira! Moreira!
DETETIVE
Vá! Vá e aceite o tempo como remédio. O tempo é teu único amigo e o láudano da tua alma. Só ele poderá aliviar nosso cruel destino! Carrasco vil que aprisiona nossos corações. O tempo romperá teus grilhões, mulher! Não eu! Não o Moreira que você conheceu!
MULHER grita de dor e chora encurvada sobre a cadeira. O ASSISTENTE faz menção de amparada, mas é detido por um gesto dramático do DETETIVE que continua a olhar para a MULHER.
DETETIVE
Vai te! Tua presença, por mais doce e febrilmente ansiada, compursca nossa única memória bela e irremediavelmente perdida! Se ainda tem algum apreço pelo que ela representa, vai te agora e corra veloz de volta para as sombras da minha vida!
MULHER sai chorando pela porta do escritório.
ASSISTENTE
Desde quando você é Moreira?
DETETIVE
Moreira é o caralho! Mulher maluca! Usando chapéu com véu em pleno século vinte e um. Corre lá e cobra a porra os honorários antes que ela chegue no elevador. Vai te!
ASSISTENTE sai correndo pela porta.
DETETIVE bebe um gole de whiskey e afasta com os dedos as persianas da janela para olhar para a rua.
DETETIVE
Mais um dia nessa cidade suja e insandecida...
FADE OUT
Batendo um papo com o Alexandre Matias, Dj, promoter, editor pimpão e hub da internet brasileira, descobri que ele não curtiu o vídeo porque não curte reclamações (o xará no entanto já sabia há tempos que temos opiniões contrárias sobre isso).
Expliquei então que é por puro esporte e prazer. :)
Na verdade eu não perco meu tempo reclamando publicamente sobre coisas que me deixam puto se isso não ajudar em resolver nada. (ex: tente reclamar da Localweb no twitter pra você ver o que acontece). Eu acho que se você não gosta de alguma coisa o melhor a fazer é tentar evitá-la ou resolver a situação.
Acho que essa foto prova meu ponto:
Tá vendo? Impossível de eu não ter saído de casa para uma boate sem a intenção de me divertir.
Curto sair para dançar ou só pelo ambiente, ou só pela música ou só para qualquer coisa. Eu frequentei muito boates e só não o faço mais porque vivo em cima da porra de uma montanha escrota numa cidade que só tem chocolate, água mineral e moletom. E eu adoro, claro.
Só que “fazer um personagem” para isso ou qualquer elemento que carregue meu texto na minha opinião é baixar a barra e sugerir uma interpretação diferente da forma que costumo reclamar com os amigos em bares e outras ocasiões sociais. Também me dá a sensação de baixar a barra explicando a piada.
Não é raiva imbecil apenas humor bobo.
Abraços, Matias!
P.S.: Queria muito que você curtisse reclamações assim. :)
Notei que tem gente compartilhando o blog via RSS e acho muito legal mesmo, mas notei também que tem uns 4 feeds diferentes para o mesmo blog.
Eu sei que a culpa deve ser minha porque tenho uma atividade bipolar e não tenho apego com URL, mas se for possível (para organizar a zorra) eu sugiro que vocês assinem o mesmo feed do Feedburner: http://feeds.feedburner.com/FlamingCircus
Dessa forma, quando minhas atividades mudarem de casa (sempre mudam), vocês não vão precisar mais mudar isso. Eu mesmo alterarei o caminho para vocês recebam os mesmos sketches idiotas e vídeos bobos.

Faltam 40min para dia 27, mas consegui postar a tempo. Hoje ainda é hoje. ;)
Conforme prometido, cá está o primeiro episódio de Rompantes. Essa é a primeira de quatro três partes onde trato das teorias furadas que tentam explicar a razão de um homem frequentar uma casa noturna, boate, gafieira ou qualquer coisa do gênero. Foi bem corrido, mas está aí. Espero que vocês curtam.
A Parte 2 está aqui!

Da guarita do Forte do leme à guarita do Forte de Copacabana, de sentinela a sentinela, são 121 postes de iluminação, formando o “colar de pérolas”, tantas vezes invocado em sambas e marchinhas. Cada edifício tem uma média de 50 janelas, por trás das quais se escondem estatisticamente, três casos de adultério, cinco de amor avulso e solteiro, seis de casal sem bênção e dois entre cônjugues que se uniram, legalmente, no padre e no juiz. Por trás das 34 janelas restantes, não acontece nada, mas muita coisa está por acontecer. É só continuar comprando os jornais e esperar.
Na calçada preta e branca da praia, um vai-e-vem de príncipes, ladrões, banqueiros, pederastas, estrangeiros que puxam cachorros, mulheres de vida fácil ou difícil, vendedores de pipocas, milionários, cocainômanos, diplomatas, lésbicas, bancários, poetas, assassinos e book-makers. Passam estômagos vazios e outros empanturrados, em lenta digestão. No asfalto, deslizem automóveis cada vez mais novos, compridos e mais conversíveis. Mão no cogote da namorada, outra na direção, cabelos louros esvoaçando. Freada súbita, baque de pára-choques, dois palavrões já muito batidos e o trânsito continua. Enquanto isso a vida está acontecendo dentro dos bares e restaurantes…” (Roteiro Copacabana)
Cronista, compositor, locutor esportivo, publicitário, cartunista (tosco, mas cartunista) e apresentador de TV… Antônio Maria foi tudo menos uma figura para ser esquecida. Para ajudar a sanar parte dessa injustiça, mesmo tendo noção dos meus poucos leitores, resolvi me utilizar desse espaço para apresentar esse artista que merecia especiais da Globo, filmes sobre sua vida e qualquer tipo de homenagem sincera que pudesse relembrar ao país mais um talento que teima em ser esquecido.
Antônio Maria Araújo de Morais nasceu em 17 de março de 1921, em Recife. Seu pai era dono de uma usina de cana-de-açúcar e pôde prover uma infância rica e feliz repleta de aventuras com seus inúmeros primos, banhos de rio e lições de música e francês. A sorte mudou quando seu pai perdeu todo seu dinheiro da noite pro dia na especulação do preço do açúcar.
No começo dos anos 30, após se formar em agronomia, Maria começou a trabalhar como locutor e apresentador de programas musicais na Rádio Clube de Pernambuco. Depois se mudou para o Rio de Janeiro para trabalhar como locutor esportivo da Rádio Ipanema. A experiência durou pouco. Foi dispensado por conta do seu estilo irreverente e inovador. Maria cunhou expressões como “Bola no fotógrafo!” (quando a pelota saía de campo) que causavam surpresa e estranhamento.
Do seu caderno de notas:
RIO, Edifício Souza, 1940. Queria muito ser poeta e sou speaker esportivo. Speaker esportivo, com sotaque e só até o dia em que Erik Cerqueira sarar dos pulmões. Minha situação é difícil. Tenho que pedir a Deus para que ele fique bom, mesmo sabendo que vou ficar sem emprego.“
Tomou gosto pela boemia carioca, mas foi obrigado a abandonar o Rio de Janeiro, pois os empregos não apareciam e o dinheiro minguava (igualzinho como acontece agora). Casou-se e foi trabalhar em Fortaleza, como locutor esportivo da Rádio Clube do Ceará. Depois disso tornou-se diretor de produção das Emissoras Associadas em Salvador e começou uma amizade duradoura com Dorival Caymmi.
Em 1948, volta a morar no Rio de Janeiro (dessa vez em definitivo) para trabalhar como o diretor de produção na Rádio Tupi e das Emissoras Associadas. Ao mesmo tempo começa a assinar a coluna “Jornal de Antônio Maria” em O Jornal, onde publica crônicas diárias sobre os mais diversos assuntos. A partir daí o trabalho não parou mais. Maria começou a jogar para todos os lados na tentativa hercúlea de sustentar sua mulher, filhos e sua vida boêmia.
Há que escrever, Antônio. Esquece Cabo Frio, esquece Petrópolis, esquece-te. É preciso ganhar mais alguns cruzeiros. Não é que sejas ambicioso. Mas os governos, vários, desvalorizam teus salários. (…)” – Há de Escrever
A partir de 1951 é contratado como o primeiro diretor de produção da TV Tupi e começa a receber alguma atenção por suas composições. Maria não sabia tocar nenhum instrumento e nunca soube escrever música. Cantarolava a canção, escrevia a letra e pedia para algum amigo músico “formalizar” a obra numa partitura. Compôs frevos e samba-canções gravados por muitos cantores e cantoras da época e teve parceiros como Fernando Lobo e Vinícius de Moraes. Esse último, amigo que volta e meia era alvo de suas piadas em suas crônicas.
Contando sobre seu nascimento na crônica Evangelho Segundo Antônio:
… Em março nascia Antônio e, após o momento dramático em que lhe foi cortado o cordão umbilical, precisou adquirir oxigênio por seu próprio esforço (a respiração) e seu alimento, pelo ato da lactação. Coitado!
Como sabeis, a lactação não é simplesmente o prazeroso processo de sugar (chupar) leite e, sim, um período transitório entre a total dependência e a separação também total, entre o filho e a mãe. E que fazia Antônio? Agarrava-se, amorosamente, a sua confortável ‘máter’, vivendo, em desespero, os últimos dias do contato geral com o ser materno.
Isto aconteceu a todas as crianças, exceto a Vinícius de Moraes, que foi sempre amamentado e amado pelas jovens mães dos outros.”
Em 1952, a ainda estreante Nora Ney grava o maior sucesso de Maria: “Ninguém Me Ama”, que reverbera mundialmente garantindo pelo menos as castanhas de fim de ano do autor pelos próximos dez anos. Mal sabia ele que, cinco anos depois, a composição feita em parceria com Fernando Lobo seria capa de revistas e jornais. Em uma matéria na Revista Manchete, Fernando Lobo declarava que a composição era exclusivamente dele. A polêmica cresceu nos dias seguintes, citando até outras celebridades como possíveis compositores. Maria, respondeu em suas crônicas:
(…) Devo explicar, todavia, que os versos onde estão as palavras ‘de fracasso em fracasso’ não são de Fernando. E é fácil provar, porque a palavra ‘fracasso’ está escrita corretamente, isto é, como dois ‘ss’. Caso fosse, em verdade, uma colaboração sua, eu juro que lhe respeitaria as cedilhas (çç) habituais.
Que espíritos pouco ambiciosos! Enquanto estão querendo ser Antônio Maria e ter feito o Ninguém Me Ama, eu gostaria de ter sido Exupéry e ter escrito o Petit Prince…”As declarações do senhor Fernando Lobo são de causar espanto. Estou certo de que esse compositor, longe de me odiar, quer-me um bem estranho e ciumoso, que ainda o levará a cometer sérios desatinos. Não é normal uma tão aflita explosão de injúrias e falsos testemunhos. Depois de lê-las, senti-me amado perigosamente.
(…)
Meu caro leitor, posso asseverar-lhe que o Ninguém Me Ama não é lá essas coisas. Ponha o seu disco na vitrola. Ouça-o até o fim. Merece essa agonia? Imaginem se eu, em vez dessa choradeira, houvesse escrito o Summertime? Aliás, o Gershwin não está livre de uma parceria daqui pra 7 de setembro.”
Sua vida, repleta de casos interessantíssimos ou até beirando a ficção, eram um prato cheio para suas crônicas diárias. Maria escrevia o que vivia e nos momentos em que pouco acontecia, preenchia as linhas com suas inúmeras memórias de infância ou viagens. Sempre tinha assunto e quando esse era pouco interessante, o cronista convidava o leitor a olhar o caso por um prisma diferente e sem dúvida mais agradável. Leve, satírico, crítico e irônico, Antonio Maria recheou mais de 3000 crônicas com bom humor ou reflexões muito particulares. Nunca escreveu um livro e talvez este seja um dos motivos porque é tão pouco lembrado.
Antônio Maria morreu em 15 de outubro de 1964, na esquina da Av. Nossa Senhora de Copacabana com a Rua Fernando Mendes. Fulminado pelo seu segundo e derradeiro ataque cardíaco, caiu na rua e deixou músicas, crônicas, expressões populares e frases que até hoje são repetidas sem que se saiba a autoria. Junto com Rubem Braga, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, forjaram um estilo de crônica rápida, sagaz e elegante. Merecia no mínimo fazer parte da nossa história. Merecia mais do que essa pequena lembrança.

BIBLIOGRAFIA
Crônicas (Paz e Terra) – 2006
Perfeito para quem nunca leu nada do autor. Um livrinho de bolso barato e com boa seleção de crônicas. Já dei de presente umas quatro vezes esse aí.
Você pode comprar na Livraria da Travessa ou Livraria Cultura.
Bendita Sejam As Moças (Civilização Brasileira) – 2002
Seleção muito bem cuidada de Joaquim Ferreira dos Santos, que é um fã muuuito mais hard-core do que eu. Não sei nem como agradecer esse cronista por sua dedicação à obra de Antônio Maria. São crônicas inéditas em sua maioria. Duas delas já havia lido no “Com Vocês, Antônio Maria” se não me engano. Esse é o livro que recomendo todo mundo comprar (e ler, se possível).
Você pode comprar a coletânea no site da Livraria Cultura.
Seja Feliz e Faça os Outros Felizes (Civilização Brasileira) – 2006
Da mesma coleção de Bendita Sejam As Moças. Esse foi o único da lista que ainda não li, mas não pode ser ruim. Estou lendo (ganhei de aniversário).
Meu aniversário está aí e você poderia me comprar via Livraria da Travessa ou Livraria Cultura, né? Me faria feliz.
O Diário de Antônio Maria (Civilização Brasileira) – 2002
Joaquim Ferreira dos Santos apresenta a compilação dos dois cadernos de diário onde Maria registrou os acontecimentos de sua vida entre março e abril de 1957. Apesar da teórica intenção do autor de não desejar capricho no que escrevia ali, seu diário funciona de forma parecida com as suas crônicas. Só não entendi porque a Record (pelo selo da Civilização Brasileira) demorou dois anos para lançar esse livro depois de conseguir o material e os direitos. Pedi explicação e como resposta ganhei mais mala-direta. Típico.
Você pode comprar o livro no site da Livraria da Cultura.
Um Homem Chamado Maria (Objetiva) – 2006
A mesma biografia ampliada e revista com a adição de mais fotos e um capítulo sobre o romance de Maria com Danusa Leão que até então havia sido omitido pelo autor por (acredito eu) discrição. Com a publicação da autobiografia de Danusa que incluia suas histórias sobre o relacionamento com o cronista, o caso mudou e a reedição foi produzida. Aconselho a compra dessa versão.
Você pode comprar o livro no site da Livraria Cultura ou da Livraria da Travessa.
Com Vocês, Antônio Maria (Paz e Terra) – 1994
Fora de catálogo
Capa rosa com silhueta preto e branco de Antônio Maria datilografando. A melhor e mais completa seleção de suas crônicas que já tive o prazer de ter em mãos. Já o encontrei algumas vezes em sebos, mas é raro. Organização temática, textos com data de publicação, caricaturas do cronista e uma bela apresentação de José Aparecido de Oliveira.
Pernoite – Crônicas (Martins Fontes/FUNARTE) – 1989
(Acho que está fora de catálogo)
Capa cinza com ilustração preto e branco. Traz umas fotos bacanas, mas como um todo não é lá muito agradável. Parece uma reunião das piores crônicas de Maria. Salvam-se apenas algumas como “A Gripe/ A Multa”, “Sede”, “Gerente do Banco” e “Gurilândia”. A apresentação, de José Aparecido de Oliveira, é boa conta causos divertidos. Depois segue-se uma nota explicativa de Hermínio Bello de Carvalho que aponta como culpados da seleção os professores Leonardo Castilho e Sônia Mota. Na falta de conhecimento do material que não entrou nesse livro, resta apenas o pensamento positivo que poderia ter sido pior. Só recomendo para fãs ou para quem já possui o “Com Vocês, Antônio Maria“, pois serve de complemento.
Auxílio sonoro: clique no bichinho aí para ouvir o som dos ACORDES DRAMÁTICOS que me refiro inúmeras vezes nessa série de sketches.
INT. LOFT – NOITE
MIGUEL está sentado a mesa, jogando paciência. Há um telefone ao seu lado. O telefone toca e MIGUEL o atende.
MIGUEL
Doutor Miguel. Quem fala?
JORGE
Miguel, aqui é o Jorge.
MIGUEL
Eu não conheço nenhum Jorge.
JORGE
Nós nunca nos vimos... calma aí! Como assim não conhece nenhum Jorge? É um nome ridiculamente comum! Todo mundo conhece um Jorge.
MIGUEL
Eu não conheço nenhum. Com licença, mas do que se trata essa ligação?
JORGE
É complicado explicar assim, mas eu prefiro dar essa notícia para você antes que nos vermos cara a cara. Eu espero que você esteja sentado.
MIGUEL
Isso é trote, né?
JORGE
Não, Miguel. Eu não sei como posso dizer isso, mas aqui vai: você foi adotado.
ACORDES DRAMÁTICOS
MIGUEL
Quem está falando?
JORGE
É sério, Miguel. Você foi adotado quando era um bebê.
Música de fundo calma em OFF que aos poucos se torna um tema de suspense.
MIGUEL
(suspira)
Eu sei.
JORGE
Sabe?
MIGUEL
Sim. Nunca foi segredo. Meus pais me contaram quando eu tinha catorze anos. O que quero saber é quem é você e como você sabe disso.
JORGE
Bem... é outra parte complicada. Seus pais não te contaram sobre a sua família real?
MIGUEL
Eu só sei que eles morreram quando eu era criança. Quem é você?
JORGE
Miguel... eles não morreram.
MIGUEL fica estático por um momento.
JORGE
Miguel?
MIGUEL
É você, papai?
JORGE
Não! Seu pai morreu.
MIGUEL
Mas você....
JORGE
Mas sua mãe está viva.
ACORDES DRAMÁTICOS
MIGUEL
Mamãe?
JORGE
Não, Miguel! Não sou a mamãe! E Jorge seria um péssimo nome para uma mulher, convenhamos.
MIGUEL
Desculpa. Eu estou um pouco chocado com tudo isso. Quem é você?
JORGE
Eu... sou seu irmão.
beat
MIGUEL
(chocado)
Eu... eu tenho um irmão?
JORGE
Aparentemente sim. Olha... se a ligação cair é porque eu entrei em um elevador. Aí eu te ligo, tá?
MIGUEL
Ok. Quer dizer que eu tenho um irmão chamado Jorge?
JORGE
Doutor Jorge.
MIGUEL
(empolgado)
Você também é físico teórico?
JORGE
Não. Sou geneticista.
MIGUEL
(decepcionado)
Que curioso.
JORGE
Isso porque você ainda não sabe tudo.
MÚSICA dramática de suspense em crescendo.
MIGUEL
(empolgado)
Mas eu quero saber! Eu quero ver você! Como podemos nos encontrar? Tenho tanta coisa para perguntar! Onde você mora?
JORGE
Roraima.
MIGUEL
(decepcionado)
Ah.
JORGE
Eu também quero te ver, meu irmão. E hoje se possível.
MIGUEL
Mas eu moro em São Paulo. Aí em Roraima eu não sei, mas aqui já são nove da noite e daqui até o aeroporto... com o trânsito...
JORGE
Eu estou em São Paulo, Miguel.
MIGUEL
(exaltado)
Onde?
JORGE
Na porta do seu apartamento.
A MÚSICA cessa repentinamente.
A campainha toca com um som de “DING DONG DIING”. ACORDES DRAMÁTICOS. MIGUEL se assusta e olha na direção da porta. PAN rápido com CLOSE na porta.
FADE OUT
.
Auxílio sonoro: clique no bichinho aí para ouvir o som dos ACORDES DRAMÁTICOS que me refiro inúmeras vezes nessa série de sketches.
FADE IN
INT. LOFT – NOITE
MIGUEL abre a porta do apartamento para JORGE.
POV de MIGUEL que se apavora com o que vê e grita de medo.
JORGE
(em off)
Calma, Miguel.
MIGUEL
(dando passos para trás)
Você! Eu! Você sou eu!
JORGE
Não, eu sou seu irmão gêmeo!
ACORDES DRAMÁTICOS. PLANO ABERTO. Surge JORGE, atravessando a porta, idêntico a MIGUEL com exceção de um cavanhaque e roupas diferentes.
JORGE fecha a porta. Os dois se aproximam lentamente e examinam um o rosto do outro.
MIGUEL
Gêmeo! Que fascinante!
JORGE
Sim... é quase como olhar no espelho.
MIGUEL
(agora bem próximo de JORGE)
Seus olhos são como os meus.
JORGE
Sim.. e sua boca.
Os dois olham para os lados envergonhados e se afastam disfarçando o contrangimento, andando pela sala.
MIGUEL
Você disse que queria me ver hoje. Por que hoje? Por que agora?
JORGE
É complicado também.
MIGUEL
Mais complicado que isso? Eu acabo de descobrir que tenho um irmão tem dois minutos e há um minutos eu descubro que ele é gêmeo e está no meu apartamento!
JORGE
Infelizmente a razão que me traz aqui foi a mesma que me fez descobrir a sua existência. Diz respeito a nossa mãe.
MIGUEL
(preocupado)
Ela está bem?
JORGE
Oh! Sim, sim! Ela está ótima. Uma saúde impressionante. Não é isso. É sobre ela e meu trabalho.
MIGUEL
(se senta)
Estou ouvindo.
JORGE
Bem... eu espero que como um homem da ciência, nós possamos conversar de igual para igual.
MIGUEL
Nós já somos bem iguais.
JORGE
Sim, isso é verdade. Como eu havia lhe dito, sou um geneticista e trabalho em um projeto altamente secreto e controverso. Meses atrás comecei a trabalhar paralelamente em casa em um... digamos assim, projeto particular. Você já levou trabalho para casa, Miguel?
MIGUEL
Bem... algumas vezes. Durante um ano tentei aperfeiçoar uma teoria de super cordas que me permitiria viajar entre universos paralelos e...
JORGE
(interrompendo)
Sim, sim. Fascinante, mas vamos falar um pouco sobre a realidade se você não se importa.
MIGUEL faz menção de reclamar, mas JORGE o ignora e continua a falar
JORGE
Eu criei algo muito temido pela humanidade, irmão. Algo que era esperado que acontecesse. Eu... me clonei.
ACORDES DRAMÁTICOS.
MÚSICA dramática em crescendo.
MIGUEL
(incrédulo)
O que?
JORGE
Eu me clonei e mantive meu clone em segredo por semanas. Não sabia o que fazer com ele. Um dia mamãe entrou para limpar meu quarto... eu havia esquecido de trancar a porta e ela nos flagrou conversando.
MIGUEL
Você vive com a sua mãe?
JORGE
Não é hora para ficar com ciúme, Miguel! O caso é que ela achou que eu estivesse falando com você. Ela achou que nós haviamos descoberto sobre a adoção e foi assim que descobri a história toda.
MIGUEL
Meu Deus! E... e o que você disse para ela?
JORGE
Eu dei um copo de água com açúcar para ela, mas primeiro dissolvi uns tranquilizantes pesados na mistura e no dia seguinte fiz ela acreditar que havia sonhado com tudo aquilo.
MIGUEL
Certo... quer dizer, não tem nada certo nessa história toda, mas pelo menos agora eu sei como você descobriu sobre a adoção. O que eu não entendo é porque você teve de vir para cá hoje.
JORGE se encaminha até a porta.
JORGE
É o clone, Miguel. Ele não pode mais ficar lá em casa. Mataria mamãe do coração. Foi por isso que eu o trouxe aqui.
MÚSICA cessa.
JORGE abre a porta.
JORGE
Miguel, eu lhe apresento George!
ACORDES DRAMÁTICOS.
GEORGE entra. Ele é igual a JORGE com exceção das roupas, do queixo sem barba e de um bigode.
CLOSE em MIGUEL boquiaberto.
CLOSE em GEORGE.
GEORGE
(dando tchau)
Oi!
FADE OUT
.
Será que o Mateus Solano ficaria interessado no papel?

INT. LOFT – NOITE
MIGUEL e JORGE estão sentados no sofá. GEORGE está em pé em um canto jogando um videogame portátil com fones de ouvido.
MIGUEL
Meu Deus!
JORGE
Deus não tem nada a ver com isso, Miguel. George é fruto de pura engenharia genética. O primeiro clone humano funcional!
MIGUEL
Eu não acredito que você fez isso! As implicações éticas!
JORGE
Ah, Miguel! Por favor! Somos ambos homens da ciência! Eu esperava que você pudesse compreender a revolução que isso significa para a humanidade! Ou no mínimo meu gênio científico!
MIGUEL
Desculpa se minha primeira reação não foi bater palmas, chorar e lhe indicar para o Prêmio Nobel, mas se ponha em meu lugar. Agora eu tenho dois irmãos! É o dobro do que eu tinha há cinco minutos e antes disso eu... dois é quantas vezes mais do que zero?
JORGE
Isso não importa. O que importa é que preciso que você o hospede por uns dias até eu pensar no que fazer com ele.
MIGUEL
Olha, não é como se eu não quisesse ajudar, mas eu não sei se é uma boa idéia. Eu trabalho o tempo todo e...
JORGE
Não me venha com essa, Miguel. Eu sei muito bem que você foi demitido. Eu pesquisei a sua vida antes de chegar aqui.
JORGE aponta para o baralho em cima da mesa.
JORGE
(cont’d)
Você deve passar o dia inteiro jogando paciência e chorando por não ter conseguido realizar seus objetivos profissionais. Você pode muito bem cuidar do George por uns dias. Vai te fazer bem a companhia.
MIGUEL
Eu estava prestes a conseguir contactar outras dimensões, sabia? Universos paralelos... calma aí! Cuidar do George? Como assim “cuidar”?
JORGE
Bem... como posso dizer isso? É complicado...
MIGUEL
De novo? O quão complicado isso pode ficar?
JORGE
(olha para GEORGE)
Apesar de fisicamente aparentar nossa idade, George ainda não é intelectualmente um adulto. A experiência de uma vida não pode ser clonada ainda, irmão. George mentalmente tem cerca de catorze anos.
MIGUEL
Catorze? Como você determina...
Ambos olham para GEORGE, que percebe que está sendo observado e tira um dos fones do ouvido.
GEORGE
(para MIGUEL)
Oi. O senhor tem Cheetos?
JORGE
Fica óbvio com o tempo. Você tem Cheetos? Eu também não comi nada desde o almoço.
MIGUEL
Eu devo ter alguns biscoitos na cozinha. Fique a vontade.
JORGE
Vamos, George. Vamos procurar algo para comer.
JORGE e GEORGE se afastam para a área da cozinha.
MIGUEL está pensativo quando percebe que alguns objetos em cima da mesa e nas estantes começam a tremer. MÚSICA de suspense em crescendo.
Rapidamente um tremor envolve todo o apartamento. MIGUEL se segura na poltrona com medo olhando para todos os lados quando um pequeno raio azul passa perto da sua cabeça.
O raio é seguido por clarões de luzes e raios coloridos. MIGUEL cobre parcialmente os olhos com as mãos para se protejer da luz enquanto tenta olhar para o vórtex que se abre em sua sala.
De dentro do vórtex surge um homem idêntico à ele com exceção das roupas e de um par de costeletas enormes.
MÚSICA cessa com os ACORDES DRAMÁTICOS.
FADE OUT

INT. LOFT – NOITE
FADE IN
MIGUEL está aterrorizado no sofá olhando para RONALDO que está olhando em volta o apartamento e ainda não o viu.
RONALDO
Funcionou! É como se eu não estivesse deixado meu loft, mas as a arrumação da sala...
RONALDO finalmente percebe MIGUEL e dá um rápido grito de espanto. MIGUEL responde com um grito mais longo. JORGE e GEORGE entram em cena, vindos da cozinha. JORGE vê RONALDO e grita também. RONALDO grita em resposta. MIGUEL se levanta e grita também. GEORGE fica confuso e dá um longo grito, abanando as mãos e foge para a cozinha saindo de cena.
RONALDO para de gritar e fica constrangido.
RONALDO
(para MIGUEL e apontando para a cozinha)
Tá tudo bem com ele?
MIGUEL
Quem...
RONALDO
Sou uma versão sua de outra realidade!
MIGUEL
Você... você veio de outra dimensão paralela?
RONALDO
(triunfante)
Sim! Eu finalmente consegui! Atravessei um portal para uma outra dimensão.
JORGE
Ah, saco. Lá se vai o meu Nobel. Vou acalmar o GEORGE.
JORGE sai de cena para a cozinha.
MIGUEL
Então, funciona mesmo! Eu achava que estava ficando louco. Todo mundo no trabalho me ridicularizou! É realmente possível viajar através de universos semelhantes.
RONALDO
Sim, mas nunca pensei que existisse um universo que todos se parecessem comigo. De certa forma fico até lisonjeado.
MIGUEL
Não, aquele é o JORGE, meu irmão gêmeo.
RONALDO
Que interessante. Na minha realidade eu sou filho único aqui minha mãe teve trigêmeos!
JORGE e GEORGE entram em cena retornando da cozinha e comendo biscoitos.
MIGUEL
Na verdadade não somos trigêmeos. O George é um clone.
GEORGE se aproxima de RONALDO.
GEORGE
(estende o pacote)
Quer Cheetos?
RONALDO
(estudando o rosto de GEORGE)
Impressionante! Na sua dimensão a clonagem é uma coisa comum?
GEORGE
Cheetos?
RONALDO
Não, obrigado.
JORGE
A clonagem não é uma coisa comum! George é o primeiro clone do mundo.
RONALDO
Fascinante!
JORGE
(sorrindo sem jeito)
Fui eu que fiz!
MIGUEL
Esquece o clone! Me diz como você conseguiu resolver a Equação de Boring!
RONALDO
Ah, isso? É... complicado.
MIGUEL anda lentamente para a mesa e se senta em uma das cadeiras com uma expressão exausta. GEORGE imita o gesto se sentando ao seu lado e olhando todos com expressão abobada e maravilhada.
MIGUEL
Eu preciso de uma bebida.
GEORGE
(estende um copo de achocolatado)
Quer toddinho?
JORGE
(se dirigindo para a cozinha)
Eu vi uma garrafa de vinho paraguaio na geladeira. A safra é excelente.
RONALDO se senta à mesa.
MIGUEL
(em tom de desespero)
Eu quero fugir daqui! Eu quero ir para uma dimensão sem irmão gêmeo geneticista ou clone. Me diz como você resolveu a Equação de Boring!
RONALDO
Bem, pode-se dizer que eu tive uma ajuda externa ou mais ou menos isso. Eu não sei bem como explicar de uma maneira simples...
JORGE volta da cozinha com tulipas de choppe e uma garrafa de barro.
JORGE
Vinho para todo mundo!
GEORGE
(bate palmas)
Yey!
JORGE
(servindo o vinho nas tulipas)
Menos o clone.
GEORGE
(decepcionado)
Aahhn.
JORGE se senta a mesa.
JORGE
Muito bem.. agora que você chegou aqui. O que pretende fazer?
RONALDO
Eu preciso esperar o vórtex dimensional se abrir novamente. Eu programei para daqui a quatro horas.
JORGE
Eu tinha um vôo marcado para casa, mas com essa comoção toda já perdi a hora do check-in. Vou ter de pegar o próximo antes do almoço.
MIGUEL
E o que a gente faz enquanto isso?
JORGE, RONALDO e MIGUEL se entreolham constrangidos.
GEORGE
Partidinha de buraco?
Todos encolhem os ombros em sinal de aprovação.
JORGE
(começa a arrumar o baralho)
Eu corto.
FADE OUT.
.
.
.
.
Continuação em TAG FINAL
Todos estão jogando buraco.
RONALDO
Eu nunca teria jogado essa carta.
MIGUEL
Ora, cale-se! Sua dupla não tem um clone com idade mental de uma criança.
JORGE
Ele não é uma criança. É um jovenzinho muito esperto.
GEORGE sorri e faz uma jogada.
JORGE
Excelente, garoto!
Um clarão surge similar ao clarão do vórtex. Todos protegem a vista parcialmente com as mãos.
JORGE
É o seu vórtex dimensional?
RONALDO
Não, mas já vi isso antes!
Um vórtex se abre e dele surge MARCELO, um homem igual a todos os outros personagens com exceção de uma roupa prateada, óculos escuros, camisa com gola em “v” e uma barba curta e bem aparada.
MARCELO
Eu vim do futuro para ajudá-lo com a equação de...
MARCELO então vê todos jogando buraco.
MARCELO
(levantando os óculos dos olhos)
Que diabos?
RONALDO
Chegou tarde. Já expliquei para ele toda a equação.
MIGUEL
(sorrindo amarelo)
Xis é igual a zero.
pausa.
MARCELO
É buraco?
JORGE
(sem tirar os olhos das cartas)
Tesoura, papel e pedra com a dupla que perder.
MARCELO puxa uma cadeira e se senta junto à mesa e observa o jogo com interesse.
GEORGE
Bati!
MIGUEL
Merda.
FADE OUT
MIGUEL, RONALDO e MARCELO
(em off e em uníssono)
1, 2, 3 e...
ACORDES DRAMÁTICOS
MIGUEL, RONALDO e MARCELO
(em off e em uníssono)
Pedra!
MIGUEL
(em off)
Eu odeio vocês.
FIM!
.
.
INT. SALA de ESPERA – INDIFERENTE
Em uma sala de paredes e móveis cinzas, um homem vestindo roupas formais da mesma cor está sentado atrás de uma mesa observando papéis. Há uma cadeira vazia na frente da mesa. A sala possui duas portas. Uma está fechada e pela porta aberta entra TENÓRIO tossindo.
TENÓRIO
(olhando curiosamente a sala)
Com licença? Por favor... que lugar é esse?
AUXILIAR
Você morreu. Sinto muito, sua hora chegou. Você está no purgatório. Eu sou um agente encarregado no auxílio das almas para seu destino final. Sente-se por favor.
TENÓRIO continua olhando para o AUXILIAR.
AUXILIAR
(organizando papéis na mesa)
Não. Isso não é uma piada, sonho, pesadelo, pegadinha do malandro ou delírio lisérgico. Você morreu.
TENÓRIO
Mas, mas...
AUXILIAR aponta para a cadeira sem tirar os olhos dos papéis.
TENÓRIO se senta olhando atentamente para o AUXILIAR que depois de alguns segundos termina de preencher algumas partes dos papéis de sua prancheta.
AUXILIAR
Tenório, certo?
TENÓRIO
Sim, mas como foi que...
AUXILIAR
Câncer de pulmão. Aqui diz que o senhor fumou por mais de vinte anos, foi diagnosticado a tempo, mas insistiu em fumar. Eu acho que isso resume tudo.
TENÓRIO
Eu, quer dizer... então eu morri mesmo.
AUXILIAR
E-xa-ta-men-te. Fico feliz que tenha aceitado isso de maneira positiva e com rapidez. Almas como a sua facilitam o meu trabalho e se facilitam consequentemente nesse momento delicado e decisivo da sua existência exclusivamente etérea.
TENÓRIO
Mas eu não vou reencarnar?
AUXILIAR
(verificando os papéis)
Humm, aqui diz que você não acreditava em reencarnação.
TENÓRIO
É, mas eu não tinha morrido ainda.
AUXILIAR
Mesmo assim eu temo que não é uma opção possível. É preciso ter fé nas coisas, Tenório, e você não tinha fé em muita coisa.
TENÓRIO
Não?
AUXILIAR
Bem, para um ex-agnóstico até que você possuia umas crenças fantásticas! Por exemplo: você acreditava no América como campeão e no Brasil como o país do futuro. O que mais? Ah... que o Tancredo morreu de causas naturais, que o iPhone 4G realmente foi encontrado por acaso em um bar antes de ser anunciado e que a gordurinha da picanha faz, de acordo com suas próprias palavras: “um mal danado para a saúde”.
TENÓRIO
Não faz?
AUXILIAR
Nada tão gostoso e natural pode ser tão maléfico. Deus não permitiria.
TENÓRIO
Então Ele existe!
AUXILIAR
É claro! Foi por isso que lhe chamei de ex-agnóstico. Não faz muito sentido a essa altura do campeonato ficar em cima do muro, não é? De qualquer forma você terá todo o tempo do universo para filosofar e negá-lo se ainda desejar, mas primeiro temos que determinar para onde você vai.
TENÓRIO
Como assim? Se vou para o céu ou para o inferno?
AUXILIAR
Mais ou menos isso. Na verdade só existe nessa sala uma porta de entrada (por onde você chegou) e uma porta de saída, que é para onde você irá daqui a instantes. É só esperar um pouquinho e me dizer três coisas que você quer deseja para sempre.
TENÓRIO
Tipo dinheiro, saúde e amigos?
AUXILIAR
Ah, queridinho... infelizmente não. Você passará a eternidade sozinho, tadinho. É por isso que você tem de escolher muito bem quais são as coisas que vão fazer companhia. Dinheiro só se você gostar muito, mas muito mesmo de colecionar notas e moedas. Saúde você pode ignorar, morte obviamente também. Amigos eu vou ficar te devendo, tá?
TENÓRIO
Que coisa mais tensa.
AUXILIAR
Um pouquititito! Mas logo vai passar. O importante agora é que fique bem claro que estamos falando aqui do resto da eternidade. É bastante tempo isso, sabe? Tempo para xuxu mesmo, compreende?
TENÓRIO
Sim... é para sempre.
AUXILIAR
Ma-ra-vi-lho-so! Compreender o conceito é tudo o que pedimos. Não se preocupe se a coisa toda for demais para a sua cabecinha linda.
TENÓRIO
Eu preciso de um cigarro. Você tem...
AUXILIAR
Excelente! A primeira coisa já foi determinada. Você terá cigarros eternamente.
TENÓRIO
Sério?
AUXILIAR
Sim. Sua marca preferida, claro. A não ser que você queira mudar. Ainda está em tempo.
TENÓRIO
Não. Sem isso eu não fico. Pode colocar aí na ficha os cigarros infinitos.
AUXILIAR
(anotando)
Fico feliz que tenha ficado satisfeito com a sua primeira escolha. Agora é a minha vez.
TENÓRIO
Como é?
AUXILIAR
Você escolhe uma coisa que você acha “ótima” ou “sensacional” e eu escolho uma que, bem... digamos que seja no mínimo desagradável.
TENÓRIO
Por que?
AUXILIAR
É uma questão de equilíbrio, compreende? Para nós seria mais fácil que você simplesmente ficasse vagando eternamente em um limbo sem nada para ver, fazer ou passar a eternidade... mas onde está a diversão nisso, não é mesmo?
TENÓRIO
É. Eu não tinha parado para pensar. Deve ser muito chato um limbo todo vazio pra sempre. Mas o que foi que você anotou aí?
AUXILIAR
Eu preferia que você não se preocupasse com isso, afinal não é como se você não fosse descobrir logo.
TENÓRIO
Mas se for uma coisa horrível demais? Eu não quero trocar uma eternidade recebendo ligações de telemarketing em troca de cigarros eternos. Eu quero ter uma idéia para saber o que vou pedir!
AUXILIAR
(faz um muxoxo, triste)
Ah, Tenório! Você não confia em mim?
TENÓRIO
Eu nem sei seu nome!
AUXILIAR
(volta ao normal)
Muito justo. Vamos dizer que todos os desprazeres anotados são igualmente proporcionais ao prazer obtido pela última escolha que você fez.
TENÓRIO
Hummm... certo. Câncer eu já sei que não terei...
AUXILIAR
Exato. Doenças e morte estão fora de questão. Pense em uma coisa positiva, Tenório! Pense em fadinhas! Filhotinhos de gato fofinhos acordando! Que coisa chata isso de pensar em doença! Já foi! É passado! Morreu e está enterrado.
TENÓRIO
Tá certo. Deixa eu ver... ah! Já sei! Quero que o lugar seja do jeito que eu gosto. Um lugar legal que me agrade e sem capeta com tridente, caldeirões, queimação no fogo eterno. Também não quero um céu infinito cheio de anjos chatos tocando lira e pulando nuvenzinhas.
AUXILIAR
Isso, Tetê! Borbulhei de emoção agora! Deixa eu anotar aqui o revés...
TENÓRIO
(preocupado)
Ai, o revés!
AUXILIAR
Não vale espiar, coisa fofa. E o último pedido? Não vale pedir para ter mais pedidos, heim!
TENÓRIO
Sei, sei... espera um pouco... deixa eu pensar... já sei!
AUXILIAR
Sim?
TENÓRIO
Cerveja! Muita cerveja! A melhor cerveja já criada para sempre.
AUXILIAR
(anotando)
Ceeerto. Lager? Pilsen?
TENÓRIO
Pilsen.
AUXILIAR
Típico.
TENÓRIO
É o que gosto.
AUXILIAR
(se levantando)
Bem estereotipado isso, não é? Felizmente não estou aqui para julgar. Tenório, meu caro! Terminamos por aqui! Venha comigo. Vamos conhecer seu novo lar!
AMBOS atravessam a porta de saída.
FADE OUT
FADE IN
INT. BAR – INDIFERENTE
AMBOS entram por uma porta no fundo do bar, no balcão há um maço de cigarros e uma tulipa cheia de cerveja. Marteladas e outros sons são ouvidos.
TENÓRIO
Que barulho é esse?
AUXILIAR
(olhando para o bar)
É a obra aqui do lado. Está aí! É como você imaginava?
TENÓRIO
O bar é excelente, mas que barulho de obra é esse?
Os sons de obra cessam por um momento. Ambos pausam para prestar atenção. O som de obra reinicia.
AUXILIAR
É uma obra eterna. São só os sons, claro. Não há nada além do bar.
TENÓRIO
(anda na direção do balcão)
Que horror! Só mesmo ficando bêbado o tempo todo pra aguentar isso.
AUXILIAR
Bem... você já está no seu devido lugar. Eu tenho de atender outra almas que precisam ir para o inferno.
TENÓRIO
Inferno?
Os sons de obra cessam por um momento e reiniciam.
AUXILIAR
Claro, imbecil! Você acha que ter causado câncer em centenas de pessoas por fumo passivo nas últimas décadas, cortar o barato de todo mundo nos churrascos por onde passou e torcer para o América te levariam aonde?
TENÓRIO
Mas eu achei...
AUXILIAR
(imitando com voz fina de choro)
“Mas eu achei...” Ora! pelo menos você escolheu a sua danação! Não reclama, seu bosta!
TENÓRIO
(olha em volta)
Bem, até que para o inferno isso aqui não é tão ruim.
AUXILIAR
(andando em direção a porta)
Sei.
TENÓRIO
Pelo menos eu tenho cerveja.
Os sons de obra cessam. AUXILIAR abre a porta enquanto TENÓRIO dá um gole na cerveja.
TENÓRIO
(cospe um pouco da cerveja de volta no copo)
Pô! Tá quente!
CLOSE EM AUXILIAR que está fechando a porta atrás de si. Ele e se inclina, exibindo apenas a parte superior do tronco para imitar novamente TENÓRIO.
AUXILIAR
(imitando)
“Isso não é tão ruim!” Você deveria ter ficado com o fogo eterno, palhaço!
CLOSE em TENÓRIO olhando para a ponta do cigarro apagado em sua boca. SOM em OFF de porta batendo.
TENÓRIO
Puta merda!
O som de obra reinicia.
FADE OUT
Eu não fiz, mas fiz coisa melhor: um texto enorme que dividirei em 4 partes para serem incorporadas em 4 vídeos que terei o total desprazer em produzir pelas seguintes razões:
- Não sou diretor de vídeos.
- Muito menos ator.
- Minha dicção está longe de ser razoável.
- Sou feio, mas não o tipo de feio de aparência cômica.
Farei pelo simples fato de acreditar que dessa forma estarei facilitando transmitir meu texto de uma maneira mais abrangente, fácil e agradável (apesar da minha fuça) para vocês e todos os outros que normalmente na web não possuem a paciência suficiente para ler mais de 3 parágrafos e precisam de um texto com bullets.

INT. FLORICULTURA – TARDE
Loja repleta de arranjos e vasos com flores diversas. Atrás do balcão está o FLORISTA borrifando água em um cactus. Entra pela porta da rua o FREGUÊS.
FREGUÊS
Boa tarde!
FLORISTA
Boa tarde. Em que posso ajudá-lo?
FREGUÊS
Você poderia me ajudar a escolher um arranjo de flores?
FLORISTA
Será um prazer. Você tem alguma preferida?
FREGUÊS
Tenho, mas as flores não são para mim.
FLORISTA
Sim, eu quis dizer se o senhor sabe quais são as preferidas da presenteada.
FREGUÊS
(desconfiado)
Como o senhor sabe que é uma “presenteada” e não um “presenteado”?
FLORISTA
(sorrindo com tom paternal)
Bem... normalmente mulheres são as mais presenteadas com flores. O senhor costuma ver homens recebendo flores?
FREGUÊS
(pondera)
É... acho que você tem razão.
FLORISTA
Pois bem. O senhor sabe qual é flor preferida da presenteada?
FREGUÊS
Crisântemos!
FLORISTA
Crisântemos?
FREGUÊS
Sim! Meu pai é um homem e costuma receber crisântemos de aniversário! Arrá!
FLORISTA
(formal)
E ele gosta de crisântemos?
FREGUÊS
Bem... acho que sim.
FLORISTA
(suspira)
Entendo. Me perdôe por perguntar, mas seu pai está morto, não é?
FREGUÊS
Sim.
FLORISTA
Certo. Mas não é o caso da moça presenteada, correto?
FREGUÊS
Não! Minha noiva está bem viva!
FLORISTA
Uma noiva! Excelente! Então podemos riscar crisântemos, palmas, cravos de defunto, antúrios, alstroemérias, bocas-de-leão, molucelas, gérberas...
FREGUÊS
Eu lembro de uma flor. Não lembro o nome dela, mas tinha um cheiro muito bom, pétalas finas, brancas... eu acho que dessa ela gostaria.
FLORISTA
Jasmim?
FREGUÊS
Exatamente!
FLORISTA
Ótimo! Quantas?
FREGUÊS
Quantas? Ora, uma!
FLORISTA
Só uma?
FREGUÊS
Claro! Uma é mais do que suficiente.
FLORISTA
Pois bem. Mas o senhor sabe o que isso significa?
FREGUÊS
Bem, acho que no mínimo fidelidade ou amor incondicional.
FLORISTA
Pelo contrário. É volúpia!
FREGUÊS
Veja lá como o senhor fala da minha noiva!
FLORISTA
Mil perdões! A sua noiva se chama Jasmim? Eu estava falando da flor de jasmim. O significado da flor é volúpia!
FREGUÊS
Aaah! A flor! Eu achei que...
FLORISTA
Oh, não! Não! Ainda bem que esclarecemos isso antes de que eu falasse sobre seu perfume e delicadeza. Bem, provavelmente o senhor irá querer ver outra flor.
FREGUÊS
Jacinto.
FLORISTA
Jacintos?
FREGUÊS
Não. Meu nome é Jacinto. Achei melhor esclarecer logo antes de algum outro mal entendido.
FLORISTA
(ligeiramente incrédulo)
O senhor se chama Jacinto e sua noiva se chama Jasmim?
FREGUÊS
Exatamente.
FLORISTA
É uma bela coincidência.
FREGUÊS
(segurando um vaso de flores)
Sim. Ambos nomes começam com a letra jota. Que tal essas?
FLORISTA
Acácias? Representam elegância.
FREGUÊS
Eu gosto. Elegância! Mas elegância para quem presenteia ou para quem é presentrado?
FLORISTA
Para quem vende, creio.
FREGUÊS
Todas as flores representam algo?
FLORISTA
Exatamente. Cada uma tem um significado próprio. Carregam em si uma mensagem personalizada.
FREGUÊS
Até esses copos de leite?
FLORISTA
Que copos de leite?
FREGUÊS
(apontando para um arranjo de copos de leite)
Esses.
FLORISTA
“Indiferença”. Ignore-os por favor.
FREGUÊS
(cansado)
Eu não tinha idéia de que isso era tão importante. Eu só pensei em dar umas flores...
FLORISTA
Mas é para isso que eu estou aqui. Para ajudá-lo com a escolha da flor perfeita para ser presenteada.
FREGUÊS
(descrente)
Você tem uma flor perfeita?
FLORISTA
Bem, todas são perfeitas nos olhos de quem vê a beleza de cada uma delas.
FREGUÊS
(impaciente)
Então me vê esse buquê dessas acácias por favor.
FLORISTA
Ah! Um buquê de acácias! Acácias quando em buquê têm o significado de “prova de amor”.
FREGUÊS
Sério?
FLORISTA
Eu temo que sim, mas temos centenas de outras opções.
FREGUÊS
(em tom cansado)
Quem inventa esse tipo de coisa?
FLORISTA
Hum?
FREGUÊS
Quem inventa esses significados?
FLORISTA
(ignorando)
Eu poderia sugerir a flor de laranjeira? Ela representa noivado.
FREGUÊS
Não é o que quero saber.
longa pausa
FLORISTA finge estar distraido, ignorando a pergunta. FREGUÊS finge limpar a garganta. FLORISTA tira de trás do balcão um vaso de flores.
FLORISTA
(esnobe)
Brinco de princesa? Significa superioridade.
FREGUÊS
(sério)
Quero saber quem criou essa barbaridade.
FLORISTA
(tira de trás do balcão outro vaso de flores)
Cravo amarelo: “Desdém”
FREGUÊS
(levemente irritado)
Eu te fiz uma pergunta!
FLORISTA
(tira de trás do balcão um vaso de flores)
Cardo: “Desprazer”.
FREGUÊS
(pega o vaso de flores de cardo e o levanta sobre a cabeça)
Eu quebro esse vaso se você não me responder!
FLORISTA
(tira de trás do balcão um vaso de flores)
Alfazema: “Calma”.
FREGUÊS pega o vaso e espatifa no chão.
FREGUÊS
Eu estou falando sério. Quem é o monstro por trás disso?
FLORISTA
(tira de trás do balcão um vaso de flores)
Dormideira: “Me deixe” ou “Vá embora”
FREGUÊS
O próximo eu quebro na sua cabeça!
FLORISTA
(tira de trás do balcão um vaso de flores)
Açucena: “Tristeza e Angústia”
FREGUÊS joga o vaso e FLORISTA se esquiva.
FREGUÊS
Quem inventa essas merdas?
FLORISTA
(tira de trás do balcão um vaso de flores)
Mimosa! “Segurança”!
FREGUÊS dá um soco na cara do FLORISTA, que cai no chão. FREGUÊS sai da loja.
FLORISTA
(com a mão no olho atingido)
AAaah! A genciana! A genciana!
FADE OUT
Sobre
O Flaming Circus é meu repositório de roteiros, vídeos, textos e outras produções envolvendo comédia. Uma espécie de portfolio online com criações em sub-gênero de humor e algumas homenagens. Sei lá... é o que eu mais gosto de fazer, sabe?
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- RT @juliana_cunha: John Cusack fará o escritor Edgar Allan Poe no cinema http://ow.ly/2w1rl // :0 medo (por razões erradas) 1 week ago
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- @FabioPorchat Eu estava e fiz a fina de não tietar ninguém e só protestar mesmo. :) 2 weeks ago
- @ronaldrios Se tivesse avisado antes eu teria dado um pulo aí pra fazer merda pela cidade com vocês. 2 weeks ago
- Sério que tem um candidato do PT do B chamado Cláudio Henrique Barack Obama? Porra... não tem Colbert Report melhor do que horário eleitoral 2 weeks ago
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- @ReneFraga Pois é... mas as pessoas curtem um lance ruim. Ruim é pop. Eu curtia o Pownce, mas ninguém queria usar. 2 weeks ago
- Tu achas que só a propaganda política no Brasil é constrangedora? Saca os vídeos do Basil Marceaux. http://bit.ly/abHyIF 1 month ago
- @ReneFraga Sim... eu te falei isso em 2007 e você tá repetindo agora. 1 month ago
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