INT. APARTAMENTO -- Indiferente

PROFESSOR

(abrindo a porta)

Quem é?

ASSASSINO entra com duas mulheres sob a mira de um revólver.

ASSASSINO

Professor Pasquale! Boa tarde!

PROFESSOR

O que é isso?

ASSASSINO

Não se preocupe, professor. Vocês duas! Fiquem juntas com o Professor Pasquale!

PROFESSOR

Olha, está aqui minha carteira...

ASSASSINO

Não quero o seu dinheiro! Eu quero saber qual das duas irá morrer primeiro. Só isso.

PROFESSOR

Elas estão doentes? Eu não sou médico...

ASSASSINO

Não é nada disso. Quero saber qual das duas mato primeiro.

PROFESSOR

Deve haver algum engano! Eu nem conheço essas moças!

ASSASSINO

Kelly e Letícia: Professor Pasquale. Professor Pasquale: Kelly e Letícia.

KELLY E LETÍCIA

Prazer. Muito prazer.

PROFESSOR

Oi. E quem é você?

ASSASSINO

Eu sou... o Assassino do Alfabeto.

PROFESSOR

Aquele que escolhe a vítima pela sequência alfabética dos nomes?

ASSASSINO

Exatamente. O que o senhor esperava? Que eu matasse letrinhas?

PROFESSOR

Não, mas...

ASSASSINO

Chega de papo. Então? Qual das duas morre primeiro?

PROFESSOR

Eu não estou entendendo.

ASSASSINO

Se o senhor não está, imagine eu! Vim aqui para confirmar com um especialista as novas regras da língua portuguesa. É verdade que incluíram K, W e Y no alfabeto português? Isso já está em vigor?

PROFESSOR

Sim. Está, mas...

ASSASSINO

Então é a Kelly!

KELLY

AAaaahhh! Não me mata!

PROFESSOR

(corrigindo)

Não me “mate”!

ASSASSINO

Não importa, professor! Essa inculta nunca mais cometerá esse erro.

ASSASSINO mira na cabeça de KELLY.

PROFESSOR

Não! Espera! Ainda não é obrigatório!

ASSASSINO

Como é?

PROFESSOR

Ainda não é obrigatória a mudança. O Brasil tem até 2012 para efetuar a transição das novas regras da língua.

ASSASSINO

Até 2012? Assim não dá. E agora?

PROFESSOR

Não sei! Por que você não esquece isso e se entrega para a polícia?

ASSASSINO

Mas eu seria preso! Não seria muito prático para mim. Imagine ter de continuar meu trabalho na cadeia para chegar na letra ípsolon e não encontrar nenhum detento chamado Yuri. Não, não... nada prático.

PROFESSOR

Então volta para sua casa e esquece a gente aqui. Em 2012 você pode retornar às suas atividade. Tire umas férias prolongadas...

ASSASSINO

(pondera por um momento)

Hummm... não, não. Tem toda essa história do mundo acabar em 2012. Não sou homem de deixar serviço por fazer. Tem de haver outra maneira.

PROFESSOR

Bem... não dá para matar as duas ao mesmo tempo!

ASSASSINO

Genial, professor! O senhor é um gênio. Como posso fazer isso?

PROFESSOR

Eu disse que não dá par...Eu não sei. Eu estou nervoso. Por favor não me mate!

ASSASSINO

Não vou matá-lo.

PROFESSOR

Não?

ASSASSINO

Quer dizer... ainda não. Em algumas semanas talvez. O seu nome começa com a letra “P”... eu costumo matar uma pessoa por semana (com exceção as duas de hoje, que será serviço dobrado)... o senhor tem aí mais umas cinco semanas de vida! Até lá a gente resolve toda essa questão antes que eu chegue no “w”.

PROFESSOR

Você é louco!

ASSASSINO

Não vou te matar, mas posso atirar nas suas duas pernas. Não crie um ambiente hostil, professor! Estamos todos aqui para colaborar com um problema em comum, entendeu?

PROFESSOR

Sim. Perdão.

ASSASSINO

Então? Como matar as duas ao mesmo tempo? Se eu enfileirar as duas e atirar, uma vai receber a bala antes da outra. Poderia ser tanto a Kelly quanto a Letícia.

ASSASSINO aproxima o revólver da cabeça de LETÍCIA.

LETÍCIA

Não! Por favor! Não me mata!

ASSASSINO

(olha para PROFESSOR)

Não é irritante? O senhor acabou de explicar...

PROFESSOR

Olha... se você atirar nas duas não significa que as elas morrerão ao mesmo tempo. Uma pode sobreviver por mais um segundo ou dois.

ASSASSINO

É verdade... não posso deixar esse furo. Já sei! Coloco as duas em uma banheira cheia d´água e jogo uma televisão em cima delas. O choque vai matar as duas ao mesmo tempo.

PROFESSOR

Mas eu não tenho uma banheira.

ASSASSINO

Uma bacia serve.

PROFESSOR

Eu também não tenho televisão.

ASSASSINO

Por que todo intelectual cisma Com essa mania? Água pelo menos você tem?

PROFESSOR

Com o salário de professor...

ASSASSINO

Eu poderia jogar as duas ao mesmo tempo pela janela... a velocidade de queda é sempre constante.

PROFESSOR

Não funcionaria.

ASSASSINO

Você tem razão. Uma está de vestido e a outra de calça jeans. Perderiam a sincronia durante a queda por causa da aerodinâmica e...

PROFESSOR

Eu moro no segundo andar.

ASSASSINO

Ah é.

ASSASSINO

(cont’d)

Bem... não tem outro jeito. Coloco uma bala na cabeça das duas e sequestro o senhor até que se passe cinco semanas. Aí te mato e ninguém saberá o que aconteceu exatamente aqui. Minha reputação como Assassino do Alfabeto continuará intacta. Resolvido.

ASSASSINO aponta o revólver para KELLY e LETÍCIA, que se desesperam ainda mais.

KELLY

(aos prantos)

Eu não quero morrer!

PROFESSOR

(se coloca na frente da arma, junto às moças)

Não faça isso, meu amigo! Elas são jovens! Possuem toda uma vida pela frente!

PROFESSOR

(cont’d)

Essa é praticamente uma criança. Qual é o seu nome mesmo?

KELLY

(enxugando as lágrimas)

Kelly... Kelly Luisa.

PROFESSOR

(saindo rapidamente da frente de KELLY)

Odeio nome composto. Paciência...

FADE OUT com som de tiro disparado.

COLD TAG

INT. Quarto -- Noite

Sentado em uma mesa iluminada por uma luminária, ASSASSINO consulta a lista telefônica ao som de “ABC” dos Jacksons Five.

ASSASSINO

Wellington Vaz... Wellington Vieira... Wellington Xavier!

FADE OUT

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O Flaming Circus é meu repositório de roteiros, vídeos, textos e outras produções envolvendo comédia. Uma espécie de portfolio online com criações em sub-gênero de humor e algumas homenagens. Sei lá... é o que eu mais gosto de fazer, sabe?

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