INT. BANCO / FILA DOS CAIXAS -- TARDE

Uma fila em forma de zigue e zague. Caixas trabalhando ao fundo e pessoas esperando sua vez. O MOÇO é o último da fila até a chegada do HOMEM que ao tomar seu lugar percebe no chão uma nota dobrada de cem reais. Rapidamente pisa nela com força, esticando a perna exageradamente e provocando barulho. O MOÇO à sua frente se assusta e olha para o HOMEM.

HOMEM

(fingindo alongar-se)

Opa! Alongamento, sabe? Eu tenho circulação ruim nas pernas e essas filas...

MOÇO

(se virando novamente)

Sei.

O HOMEM faz menção de se agachar para pegar a nota, mas uma MULHER chega na fila e ele se apruma.

HOMEM

Oi. Pode passar. Não estou com pressa não.

MULHER

Que gentileza!

HOMEM

O que não é a gentileza se não um dever natural de todo o ser humano, não é verdade?

MULHER

Agradecida.

A MULHER toma o lugar na fila, ficando de costas para ele. O HOMEM novamente tenta alcançar a nota, agachando-se e posicionando a cabeça muito próximo da bunda da MULHER, quando ela se vira subitamente.

MULHER

Sabe que... ué? Que isso?

HOMEM

(se levantando assustado)

O que? Não. Eu... só parei para...para... amarrar o sapato.

MULHER

Mas o seu sapato não tem cadarço.

HOMEM

É mesmo? É mesmo!

MULHER

Por acaso o senhor é um pervertido desses que ficam filmando as calcinhas das moças com o celular e depois coloca na internet? Olha que eu chamo a polícia!

HOMEM

Existe esse tipo de coisa na internet?

MULHER

Não se faça de inocente! O que o senhor estava fazendo aí agachado atrás de mim?

HOMEM

A senhorita entendeu errado. É apenas um mal entendido. Eu abaixei porque tenho má circulação nas pernas. Só isso. É que na hora que a senhora virou eu fiquei nervoso.

MULHER

Má circulação?

HOMEM

Justamente. Quando venho pra fila do banco faço até uns alongamentos. Pode perguntar pro moço aí da frente. Antes da senhorita chegar eu estava me alongando.

MULHER

Não. Não precisa não. Deixa quieto. Mas vê lá, heim?

A MULHER se vira novamente.

HOMEM

A senhorita ia dizer alguma coisa?

MULHER

O que?

HOMEM

Quando a senhora se virou. A senhorita ia me dizer alguma coisa.

MULHER

Ah... ia comentar sobre esse senhor na minha frente. Acho que ele perdeu alguma coisa.

Os dois olham para o MOÇO da frente procurando algo no chão.

HOMEM

Ih. Acho que perdeu mesmo.

MULHER

Será que foi dinheiro?

HOMEM

Nããão! Se fosse, alguém já teria achado.

MULHER

Isso é. De repente é uma caneta.

HOMEM

(Tirando uma caneta do bolso)

Uma caneta! Deve ser isso mesmo. Eu tenho uma aqui. Oferece para ele emprestado se ele tiver perdido.

MULHER

Eu acho que te julguei mal. É a segunda vez que o senhor faz uma gentileza desde que eu cheguei na fila. Me desculpe.

HOMEM

Imagina. Quem não vive para servir não serve para viver.

MULHER

Profundo isso. Espera um minutinho que eu vou falar com ele.

MULHER pega a caneta e vai falar com o MOÇO da frente (em off / segundo plano).

HOMEM olha para os lados para se certificar que ninguém o observa quando nota o SEGURANÇA do banco passando por perto.

HOMEM

Ai meu ca...

MULHER surge do outro lado do zigue e zague da fila, supreendendo o HOMEM.

MULHER

Tá aqui a caneta!

HOMEM

(assustado)

O que? Ah! Obrigado. Ele já terminou de usar?

MULHER

Não. Ele disse que não precisa. Deve ter perdido outra coisa.

HOMEM

Ah!

MULHER

A fila andou finalmente.

HOMEM

É mesmo? É mesmo!

MULHER

(gracejando)

O senhor vai ficar parado aí que nem um dois de paus?

HOMEM

Eu? Ah, hahaha.. sabe o que é? Me deu uma dormência na perna...

MULHER

Ah que chato! Mas é só andar que passa. Se ainda fosse câimbra...

HOMEM

Aaai!

MULHER

O que foi?

HOMEM

Câimbra!

MULHER

(saindo de cena)

Nossa! Deixa eu chamar alguém para te ajudar!

HOMEM

Não precisa!

O MOÇO percebe novamente o HOMEM, desconfia do que está acontecendo e se aproxima.

MOÇO

Está tudo bem com o senhor?

HOMEM

Ah. Sim sim... é só uma câimbra. Dói horrores.

MOÇO

Sei. Na perna direita, né?

HOMEM

É. Dizem que é falta de potássio.

MOÇO

Dizem que se levantar a perna, melhora.

HOMEM

Não. Não dizem não!

MOÇO

Sempre ouvi dizer.

HOMEM

É tudo boato! Crendice popular sem fundamento.

MOÇO

Eu tenho quase certeza que se o senhor levantar a perna, seu problema termina.

HOMEM

Bobagem. Ainda corro o risco de me apoiar na perna esquerda e ela ficar também com câimbra.

MOÇO

Segurança!

HOMEM

O que é isso? Segurança para que?

MOÇO

Para... auxiliar o senhor. Ele vai saber lidar com o seu caso. Assim é capaz do senhor até ir para a fila do atendimento especial. Pode deixar que quando ele chegar eu explico tudinho.

HOMEM

Não é preciso tanto também. Olha! A fila andou. Você vai ficar parado aí que nem um dois de paus?

MOÇO

Agora estou preocupado com o senhor.

HOMEM

É muita gentileza sua.

MOÇO

(fingindo amabilidade)

Culpamos as pessoas das quais não gostamos pelas gentilezas que nos demonstram... Friedrich Nietzsche.

HOMEM

(resmungando)

Ai, cacete...

Entram a MULHER e o SEGURANÇA. Ele empurra uma cadeira de rodas.

MULHER

(apontando para o HOMEM)

Está aí! Não consegue nem andar.

HOMEM

Também não é para tanto, minha gente.

SEGURANÇA

O senhor não se preocupe. É só sentar aqui. Eu te ajudo.

HOMEM

Não devo.

SEGURANÇA

Não deve?

MOÇO

Deve sim.

HOMEM

O senhor é enfermeiro treinado?

SEGURANÇA

Bem...não, mas eu posso ajudar...

HOMEM

Sem querer lhe faltar com o respeito, mas dá para ver que o senhor é forte e sem conhecimento técnico em enfermagem ou medicina é capaz do senhor me machucar. Pode acabar deslocando meu ombro, quebrando meu braço, rompendo uma artéria...

MOÇO

Imagina. Ele é pago para isso.

MULHER

Pago para machucar os clientes?

MOÇO

Não. Para ajudar clientes que se recusam a andar na fila.

MULHER

Ai meu deus! A fila! O senhor guardou o meu lugar?

MOÇO

Infelizmente agora é tarde. Vim em socorro desse senhor e só saio daqui quando ele voltar a andar.

MULHER

(se senta na cadeira de rodas)

Ah, cansei! Vou esperar a fila terminar sentada aqui mesmo.

SEGURANÇA

Na verdade não.

HOMEM

O que?

SEGURANÇA

Na verdade eu não sou pago para isso.

HOMEM

Exato! E aposto que ainda assim não te dão o merecido valor pelo seu serviço aqui, não é mesmo?

SEGURANÇA

O sindicato está até discutindo salário com os donos do banco...

HOMEM

Não é momento de discussão. É momento de ação!

MOÇO

Exatamente. Se move aí.

HOMEM

Não me interrompa. Meu colega segurança... é o momento das massas se levantarem e defenderem seu lugar.

SEGURANÇA

É?

MOÇO

O que diabos você tá dizendo?

HOMEM

O que eu estou dizendo é que o nosso colega aqui não é pago para ser enfermeiro e que poderia me machucar se resolvesse me sentar nessa cadeira. Isso causaria uma ação na justiça da minha pessoa, o cliente, para com essa instituição, o banco, que acarretaria no mínimo a demissão desse funcionário modelo. Imagine vocês. Mesmo munido das melhores intenções, o simples ato de me auxiliar a sentar na cadeira de rodas faria com que... o senhor é casado?

SEGURANÇA

Sou.

HOMEM

Tem filhos?

MULHER (em segundo plano) apóia a cabeça na mão e começa a dormir na cadeira.

SEGURANÇA

Duas meninas.

HOMEM

(cont’d)

... faria com que suas meninas e sua mulher não tivessem mais comida na mesa ou até um teto sob suas cabeças. Uma desgraça!

SEGURANÇA

Vendo por esse ângulo...

MOÇO (em segundo plano) aponta a câmera do celular para as pernas da MULHER.

HOMEM

Leve essa cadeira daqui, meu bom homem! Não é necessário o senhor colocar em jogo seu futuro, o futuro da sua esposa e o futuro das suas filhas.

SEGURANÇA

(saindo de cena com a cadeira e a MULHER sentada nela)

Eu agradeço muito o senhor por ter me informado disso tudo. Obrigado pela gentileza...

HOMEM

Gentileza gera gente ilesa.

MOÇO, indignado, vai atrás do SEGURANÇA tentando impedí-lo de abandonar a cena.

O HOMEM abaixa para pegar o dinheiro e percebe que confundiu-se. A nota é de dois reais.

HOMEM

(Faz menção de andar, mas sente a perna doendo)

Ai, cacete! E dois reais não cobre nem meu couvert artístico.

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O Flaming Circus é meu repositório de roteiros, vídeos, textos e outras produções envolvendo comédia. Uma espécie de portfolio online com criações em sub-gênero de humor e algumas homenagens. Sei lá... é o que eu mais gosto de fazer, sabe?

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