INT. SALA de ESPERA – INDIFERENTE

Em uma sala de paredes e móveis cinzas, um homem vestindo roupas formais da mesma cor está sentado atrás de uma mesa observando papéis. Há uma cadeira vazia na frente da mesa. A sala possui duas portas. Uma está fechada e pela porta aberta entra TENÓRIO tossindo.

TENÓRIO

(olhando curiosamente a sala)

Com licença? Por favor... que lugar é esse?

AUXILIAR

Você morreu. Sinto muito, sua hora chegou. Você está no purgatório. Eu sou um agente encarregado no auxílio das almas para seu destino final. Sente-se por favor.

TENÓRIO continua olhando para o AUXILIAR.

AUXILIAR

(organizando papéis na mesa)

Não. Isso não é uma piada, sonho, pesadelo, pegadinha do malandro ou delírio lisérgico. Você morreu.

TENÓRIO

Mas, mas...

AUXILIAR aponta para a cadeira sem tirar os olhos dos papéis.

TENÓRIO se senta olhando atentamente para o AUXILIAR que depois de alguns segundos termina de preencher algumas partes dos papéis de sua prancheta.

AUXILIAR

Tenório, certo?

TENÓRIO

Sim, mas como foi que...

AUXILIAR

Câncer de pulmão. Aqui diz que o senhor fumou por mais de vinte anos, foi diagnosticado a tempo, mas insistiu em fumar. Eu acho que isso resume tudo.

TENÓRIO

Eu, quer dizer... então eu morri mesmo.

AUXILIAR

E-xa-ta-men-te. Fico feliz que tenha aceitado isso de maneira positiva e com rapidez. Almas como a sua facilitam o meu trabalho e se facilitam consequentemente nesse momento delicado e decisivo da sua existência exclusivamente etérea.

TENÓRIO

Mas eu não vou reencarnar?

AUXILIAR

(verificando os papéis)

Humm, aqui diz que você não acreditava em reencarnação.

TENÓRIO

É, mas eu não tinha morrido ainda.

AUXILIAR

Mesmo assim eu temo que não é uma opção possível. É preciso ter fé nas coisas, Tenório, e você não tinha fé em muita coisa.

TENÓRIO

Não?

AUXILIAR

Bem, para um ex-agnóstico até que você possuia umas crenças fantásticas! Por exemplo: você acreditava no América como campeão e no Brasil como o país do futuro. O que mais? Ah... que o Tancredo morreu de causas naturais, que o iPhone 4G realmente foi encontrado por acaso em um bar antes de ser anunciado e que a gordurinha da picanha faz, de acordo com suas próprias palavras: “um mal danado para a saúde”.

TENÓRIO

Não faz?

AUXILIAR

Nada tão gostoso e natural pode ser tão maléfico. Deus não permitiria.

TENÓRIO

Então Ele existe!

AUXILIAR

É claro! Foi por isso que lhe chamei de ex-agnóstico. Não faz muito sentido a essa altura do campeonato ficar em cima do muro, não é? De qualquer forma você terá todo o tempo do universo para filosofar e negá-lo se ainda desejar, mas primeiro temos que determinar para onde você vai.

TENÓRIO

Como assim? Se vou para o céu ou para o inferno?

AUXILIAR

Mais ou menos isso. Na verdade só existe nessa sala uma porta de entrada (por onde você chegou) e uma porta de saída, que é para onde você irá daqui a instantes. É só esperar um pouquinho e me dizer três coisas que você quer deseja para sempre.

TENÓRIO

Tipo dinheiro, saúde e amigos?

AUXILIAR

Ah, queridinho... infelizmente não. Você passará a eternidade sozinho, tadinho. É por isso que você tem de escolher muito bem quais são as coisas que vão fazer companhia. Dinheiro só se você gostar muito, mas muito mesmo de colecionar notas e moedas. Saúde você pode ignorar, morte obviamente também. Amigos eu vou ficar te devendo, tá?

TENÓRIO

Que coisa mais tensa.

AUXILIAR

Um pouquititito! Mas logo vai passar. O importante agora é que fique bem claro que estamos falando aqui do resto da eternidade. É bastante tempo isso, sabe? Tempo para xuxu mesmo, compreende?

TENÓRIO

Sim... é para sempre.

AUXILIAR

Ma-ra-vi-lho-so! Compreender o conceito é tudo o que pedimos. Não se preocupe se a coisa toda for demais para a sua cabecinha linda.

TENÓRIO

Eu preciso de um cigarro. Você tem...

AUXILIAR

Excelente! A primeira coisa já foi determinada. Você terá cigarros eternamente.

TENÓRIO

Sério?

AUXILIAR

Sim. Sua marca preferida, claro. A não ser que você queira mudar. Ainda está em tempo.

TENÓRIO

Não. Sem isso eu não fico. Pode colocar aí na ficha os cigarros infinitos.

AUXILIAR

(anotando)

Fico feliz que tenha ficado satisfeito com a sua primeira escolha. Agora é a minha vez.

TENÓRIO

Como é?

AUXILIAR

Você escolhe uma coisa que você acha “ótima” ou “sensacional” e eu escolho uma que, bem... digamos que seja no mínimo desagradável.

TENÓRIO

Por que?

AUXILIAR

É uma questão de equilíbrio, compreende? Para nós seria mais fácil que você simplesmente ficasse vagando eternamente em um limbo sem nada para ver, fazer ou passar a eternidade... mas onde está a diversão nisso, não é mesmo?

TENÓRIO

É. Eu não tinha parado para pensar. Deve ser muito chato um limbo todo vazio pra sempre. Mas o que foi que você anotou aí?

AUXILIAR

Eu preferia que você não se preocupasse com isso, afinal não é como se você não fosse descobrir logo.

TENÓRIO

Mas se for uma coisa horrível demais? Eu não quero trocar uma eternidade recebendo ligações de telemarketing em troca de cigarros eternos. Eu quero ter uma idéia para saber o que vou pedir!

AUXILIAR

(faz um muxoxo, triste)

Ah, Tenório! Você não confia em mim?

TENÓRIO

Eu nem sei seu nome!

AUXILIAR

(volta ao normal)

Muito justo. Vamos dizer que todos os desprazeres anotados são igualmente proporcionais ao prazer obtido pela última escolha que você fez.

TENÓRIO

Hummm... certo. Câncer eu já sei que não terei...

AUXILIAR

Exato. Doenças e morte estão fora de questão. Pense em uma coisa positiva, Tenório! Pense em fadinhas! Filhotinhos de gato fofinhos acordando! Que coisa chata isso de pensar em doença! Já foi! É passado! Morreu e está enterrado.

TENÓRIO

Tá certo. Deixa eu ver... ah! Já sei! Quero que o lugar seja do jeito que eu gosto. Um lugar legal que me agrade e sem capeta com tridente, caldeirões, queimação no fogo eterno. Também não quero um céu infinito cheio de anjos chatos tocando lira e pulando nuvenzinhas.

AUXILIAR

Isso, Tetê! Borbulhei de emoção agora! Deixa eu anotar aqui o revés...

TENÓRIO

(preocupado)

Ai, o revés!

AUXILIAR

Não vale espiar, coisa fofa. E o último pedido? Não vale pedir para ter mais pedidos, heim!

TENÓRIO

Sei, sei... espera um pouco... deixa eu pensar... já sei!

AUXILIAR

Sim?

TENÓRIO

Cerveja! Muita cerveja! A melhor cerveja já criada para sempre.

AUXILIAR

(anotando)

Ceeerto. Lager? Pilsen?

TENÓRIO

Pilsen.

AUXILIAR

Típico.

TENÓRIO

É o que gosto.

AUXILIAR

(se levantando)

Bem estereotipado isso, não é? Felizmente não estou aqui para julgar. Tenório, meu caro! Terminamos por aqui! Venha comigo. Vamos conhecer seu novo lar!

AMBOS atravessam a porta de saída.

FADE OUT

FADE IN

INT. BAR – INDIFERENTE

AMBOS entram por uma porta no fundo do bar, no balcão há um maço de cigarros e uma tulipa cheia de cerveja. Marteladas e outros sons são ouvidos.

TENÓRIO

Que barulho é esse?

AUXILIAR

(olhando para o bar)

É a obra aqui do lado. Está aí! É como você imaginava?

TENÓRIO

O bar é excelente, mas que barulho de obra é esse?

Os sons de obra cessam por um momento. Ambos pausam para prestar atenção. O som de obra reinicia.

AUXILIAR

É uma obra eterna. São só os sons, claro. Não há nada além do bar.

TENÓRIO

(anda na direção do balcão)

Que horror! Só mesmo ficando bêbado o tempo todo pra aguentar isso.

AUXILIAR

Bem... você já está no seu devido lugar. Eu tenho de atender outra almas que precisam ir para o inferno.

TENÓRIO

Inferno?

Os sons de obra cessam por um momento e reiniciam.

AUXILIAR

Claro, imbecil! Você acha que ter causado câncer em centenas de pessoas por fumo passivo nas últimas décadas, cortar o barato de todo mundo nos churrascos por onde passou e torcer para o América te levariam aonde?

TENÓRIO

Mas eu achei...

AUXILIAR

(imitando com voz fina de choro)

“Mas eu achei...” Ora! pelo menos você escolheu a sua danação! Não reclama, seu bosta!

TENÓRIO

(olha em volta)

Bem, até que para o inferno isso aqui não é tão ruim.

AUXILIAR

(andando em direção a porta)

Sei.

TENÓRIO

Pelo menos eu tenho cerveja.

Os sons de obra cessam. AUXILIAR abre a porta enquanto TENÓRIO dá um gole na cerveja.

TENÓRIO

(cospe um pouco da cerveja de volta no copo)

Pô! Tá quente!

CLOSE EM AUXILIAR que está fechando a porta atrás de si. Ele e se inclina, exibindo apenas a parte superior do tronco para imitar novamente TENÓRIO.

AUXILIAR

(imitando)

“Isso não é tão ruim!” Você deveria ter ficado com o fogo eterno, palhaço!

CLOSE em TENÓRIO olhando para a ponta do cigarro apagado em sua boca. SOM em OFF de porta batendo.

TENÓRIO

Puta merda!

O som de obra reinicia.

FADE OUT

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O Flaming Circus é meu repositório de roteiros, vídeos, textos e outras produções envolvendo comédia. Uma espécie de portfolio online com criações em sub-gênero de humor e algumas homenagens. Sei lá... é o que eu mais gosto de fazer, sabe?

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