FADE IN

|INSERT vidro fosco de uma porta com os dizeres pintados “DETETIVE CARUSO – INVESTIGADOR PARTICULAR”.

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INT. Escritório da agência de detetives – DIA

MÚSICA de jazz estilo noir.

O DETETIVE Caruso está em pé atrás de sua mesa olhando a rua através das persianas. O ASSISTENTE está sentado em sua mesa distraído com uma revista de palavras cruzadas. Um ventilador de teto gira lentamente e há um copo de whiskey pela metade na mesa do DETETIVE.

ASSISTENTE

Catinga, odor ruim... cinco letras.

DETETIVE

(sem tirar os olhos da janela)

Fedor.

ASSISTENTE conta com a caneta os espaços para preencher a palavra e a anota na revista.

DETETIVE

Essa cidade fede! Fede a desespero, insanidade e luxúria. Todos os dias milhões de almas desamparadas aguardam no limbo e observam mudas e desesperançosas as suas carcaças se arrastarem pelas ruas, escritórios e apartamentos emprestados por terceiros para atividades das mais sórdidas.

ASSISTENTE

Ô! Sei de uma garçoniere no Lido onde as paredes só não falam por vergonha. Amparo, arrimo, oito letras.

DETETIVE

Sustento.

ASSISTENTE

Isso. Você jogo no bicho ontem?

DETETIVE

(cont’d)

Animais se arrastando, se roçando e finalmente apodrecendo no esquecimento coletivo. O arrependimento e o desalento de cada uma dessas almas são o nosso maldito sustento.

ASSISTENTE

Sei. Eu disse para você jogar no macaco e cercar! Depois fica aí, todo borocochô. Já falei! Quando eu sonho com o Charlton Heston é batata!

DETETIVE

São suas vozes que me despertam e que me amaldiçoam. O azedo, o negrume e a carniça é o que me faz querer dormir e não acordar. As almas pelo menos não tem o menor odor, mas os corpos estão aí trapaceando, mentindo, traindo e pecando. Todos os dias alguém acorda nessa cidade e decide destruir a vida de outra pessoa. Muitas vezes, se possível, antes da hora do almoço. Dá para sentir até com a janela fechada.

Uma batida na porta é ouvida. O ASSISTENTE oculta a revista de palavras cruzadas, o DETETIVE se senta e se apruma na cadeira.

DETETIVE

Lá vamos nós de novo. Entre!

MULHER bem vestida com um chapéu com véu entra no escritório. O ASSISTENTE faz sinal para que ela se sente em uma cadeira. O DETETIVE a observa de sua mesa.

ASSISTENTE

Em que podemos ajudar?

MULHER

(se sentando)

Estou atrás de uma pessoa.

ASSISTENTE

Homem? Mulher?

MULHER

Um homem. O homem que me deu isso!

MULHER tira o chapéu e revela seu rosto. ASSISTENTE observa sua face por um instante.

ASSISTENTE

Herpes?

MULHER

(coloca a mão sobre a boca)

Não! O chapéu!

ASSISTENTE

É. Eu ia dizer que não parece herpes. Parecia mais uma espinha. A senhora andou espremen...

DETETIVE

Perdão! Ele é meu assistente. Chegou semana passada. Normalmente só limpa apontadores por aqui. Posso examinar o chapéu?

MULHER

(entrega o chapéu para o DETETIVE)

Por favor.

ASSISTENTE

(consigo mesmo)

Amanhã é pavão na certa.

DETETIVE inspeciona o chapéu por vários ângulos, pega uma lupa e observa um detalhe, observa a MULHER por um momento e volta a observar o interior do chapéu.

DETETIVE

Posso perguntara qual é o seu número de chapéu?

MULHER

36.

DETETIVE

Esse chapéu é tamanho 38. Você está mentindo para nós. Não é, mocinha?

MULHER

Não! Ele é meu, mas não foi comprado para mim.

DETETIVE

(devolve o chapéu)

Fale mais sobre esse homem.

MULHER

O nome dele é Moreira. Eu não sei o seu primeiro nome. Apenas isso: Moreira. Eu o conheci por causa de um cruzeiro em Havana.

ASSISTENTE

Conheço muito bem o tipo. Garoto de programa expatriado que não acompanhou a revolução monetária brasileira, cobrando preços módicos...

MULHER

Não é isso. Foi um cruzeiro de navio!

ASSISTENTE

Ah! Faz sentido.

DETETIVE

Perdão novamente. Deixe ver se completo o quebra-cabeças. Vocês se apaixonaram, ele quis lhe comprar um chapéu. Vocês estavam em alto mar e não havia o seu número na loja do navio.

MULHER

É exatamente isso. Como você descobriu?

DETETIVE

Qualquer um poderia descobrir isso pela etiqueta. Ela possui o nome da loja e essa loja só existe em um transatlântico que ancorou no porto de Santos faz uma semana antes de parar por um dia aqui na cidade.

MULHER

É incrível!

DETETIVE

Ainda tem mais. O chapéu também é um modelo muito especial. O véu é bordado a mão nas filipinas por criancinhas carentes e o tecido é linho marroquino.

MULHER

Eu não fazia idéia.

DETETIVE

Há duas marcas distintas de impressões na aba. Uma é fina, longa e delicada. A sua mão segurou esse chapéu por alguns momentos, mas a outra é evidentemente mais acentuada e provocou uma ligeira saliência na lateral. Um homem sem dúvida. Forte e impetuoso.

MULHER

Como você pode saber tanto só olhando para um chapéu?

DETETIVE

É extraordinariamente simples: eu te dei esse chapéu. Eu sou o Moreira.

MULHER

Isso... isso é ridículo!

DETETIVE

Será mesmo? Você não se lembra da noite no convés? Bebemos três dry-martinis. Você reclamou que o seu joanete doía. A Orquestra Tabajaras cover tocava o Luan e Vanessa e eu disse que sob a lua seus olhos pareciam com os de minha tia Dolores quando ela assistia o jornal e discutia com o Cid Moreira sobre as notícias do dia.

MULHER

Não é possível! O Moreira que conheci era moreno, forte, jovem e tinha uma covinha no queixo.

DETETIVE

Delírios de martini, querida! Tenho sessenta anos, sou caucasiano e mal tenho queixo.

ASSISTENTE

Praticamente um Noel Rosa reencarnado.

DETETIVE

Cale-se.

MULHER

(começa a chorar)

Eu não acredito!

DETETIVE

É melhor acreditar... aceitar os fatos de uma vez e desistir de mim. Você sabe muito bem que sou casado e ambos sabemos que aquilo tudo, por mais maravilhoso que tenha sido, foi apenas uma louca aventura sobre o Atlântico! Um delírio fantástico porém irreal e fugaz!

MULHER

(Chorando)

Moreira! Moreira!

DETETIVE

Vá! Vá e aceite o tempo como remédio. O tempo é teu único amigo e o láudano da tua alma. Só ele poderá aliviar nosso cruel destino! Carrasco vil que aprisiona nossos corações. O tempo romperá teus grilhões, mulher! Não eu! Não o Moreira que você conheceu!

MULHER grita de dor e chora encurvada sobre a cadeira. O ASSISTENTE faz menção de amparada, mas é detido por um gesto dramático do DETETIVE que continua a olhar para a MULHER.

DETETIVE

Vai te! Tua presença, por mais doce e febrilmente ansiada, compursca nossa única memória bela e irremediavelmente perdida! Se ainda tem algum apreço pelo que ela representa, vai te agora e corra veloz de volta para as sombras da minha vida!

MULHER sai chorando pela porta do escritório.

ASSISTENTE

Desde quando você é Moreira?

DETETIVE

Moreira é o caralho! Mulher maluca! Usando chapéu com véu em pleno século vinte e um. Corre lá e cobra a porra os honorários antes que ela chegue no elevador. Vai te!

ASSISTENTE sai correndo pela porta.

DETETIVE bebe um gole de whiskey e afasta com os dedos as persianas da janela para olhar para a rua.

DETETIVE

Mais um dia nessa cidade suja e insandecida...

FADE OUT

2 Comments to “Detetive Caruso e o mistério do chapéu com véu”

  • Grande Caruso!
    Excelente!

  • Obrigado. Estou pensando em retornar com ele para outro sketch. :)

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O Flaming Circus é meu repositório de roteiros, vídeos, textos e outras produções envolvendo comédia. Uma espécie de portfolio online com criações em sub-gênero de humor e algumas homenagens. Sei lá... é o que eu mais gosto de fazer, sabe?

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