
INT. Escritório – Dia
1966, O PRODUTOR, homem por volta de sessenta anos, veste um paletó e fuma um charuto. Está debruçado sobre papéis por trás de sua mesa. Escreve coisas em sua agenda vagarosamente. Do outro lado da mesa há duas poltronas vazias. Um intercomunicador em sua mesa TOCA. Ele aperta um botão no intercomunicador e tira o fone do gancho.
SECRETÁRIA
(V.O. via Intercomunicador)
O senhor Kubrick está aqui.
PRODUTOR
Mande... peça para ele entrar por favor.
PRODUTOR coloca o fone no gancho, organiza os papéis da mesa e se levanta.
Entra KUBRICK com passos largos até a frente da mesa.
PRODUTOR
(esfusiante, abrindo os braços)
Kubrick!
KUBRICK
(irritado)
Imbecil!
PRODUTOR
(se recompõe)
Se é sobre o seu novo projeto, ele é...
KUBRICK
É genial! Revolucionário desde a primeira cena! Atemporal! Um clássico instantâneo! E além de tudo é genial!
PRODUTOR
É. Você já havia dito. O caso é que eu e meus conselheiros não compartilhamos desse mesmo entusiamo.
KUBRICK
Demita seus conselheiros! Demita-se! É uma obra prima que você tem em mãos! Eu vim aqui porque somos colegas e nutro ainda alguma simpatia por você!
PRODUTOR
Eu tenho certeza que outros estúdios...
KUBRICK
Eu não quero outros estúdios! Eu só enviei o roteiro para você! Você é que tem aquele leão rugindo no começo de cada filme, não é?
PRODUTOR
Claro.
KUBRICK
Então! Só pode ser com vocês.
PRODUTOR
(pegando o roteiro do filme em sua gaveta)
Sobre o leão...
KUBRICK
O que tem?
PRODUTOR
(verificando o script)
Na primeira página do script você mata o leão.... aqui diz que um elefante africano enfurecido enfia uma de suas presas no animal ainda no meio do rugido.
KUBRICK
Eu disse! Revolucionário desde a primeira cena!
PRODUTOR
Eu acredito que o dono do estúdio não vá gostar muito.
KUBRICK
É ele quem decide quais filmes serão produzidos?
PRODUTOR
(verificando o script)
Não. Esse sou eu, mas olha só a sua sinopse...
Enquanto o PRODUTOR lê a sinopse do script, KUBRICK gesticula em silêncio com os lábios as mesmas palavras como se estivesse sendo dublado pelo PRODUTOR faz uma coreografia circense com os braços, como se apresentasse um show.
PRODUTOR
(cont’d)
“Séc. XXV, a humanidade está por um fio. Um grupo de cientistas precisa deter o derretimento da última geleira no ártico para salvar o planeta da ameaça dos mutantes gorilas. Partindo em uma perigosa jornada de gôndola junto com sua foca amestrada, eles terão alterado para sempre suas percepções sobre o trabalho em equipe, o fluxo da autoridade empresarial em uma estrutura de organização horizontal e o universo.”
KUBRICK
(excitadíssimo!)
Sim!
PRODUTOR
Nós acreditamos que não é exatamente isso que o nosso público quer assistir.
KUBRICK
(revoltado)
E eu lá me importo! Eu sou o Kubrick, porra!
PRODUTOR
Nós somos um estúdio, eu sou um produtor, você trabalha como cineasta... tudo isso gira em torno de dinheiro, Kubinho.
KUBRICK
(ensandecido)
Dinheiro?! Público!? Eles vão amar esse filme! Eles vão querer comprar cota das ações desse estúdio! Será que você não compreende?
PRODUTOR
(enfático)
Não podemos aprovar esse roteiro.
KUBRICK
Não? Então eu me demito!
PRODUTOR
Não seja tão drástico! A gente poderia fazer umas leves alterações. Coisa pequena.
KUBRICK
Nunca!
PRODUTOR
Seriam coisas bem pequetititas.
KUBRICK
Mas e minha integridade? Minha visão?
PRODUTOR
Seria a mesma. A gente só precisa alterar um ou dois elementos e aparar umas arestas.
KUBRICK anda até a janela e olha através dela. Respira fundo.
KUBRICK
Exemplo?
PRODUTOR
Bem, o século XXV... é algo muito distante na imaginação do público. Temos de trazer essa história para uma realidade em que o público possa ter uma identificação. Que tal século XXI?
KUBRICK
Mas seria ainda ficção científica, correto?
PRODUTOR
Oh, sim! E sobre essa coisa das geleiras... isso nunca vai pegar. Que tal se colocássemos ao invés de um mundo pós-apocalíptico inundado uma pequena variação de cenário?
KUBRICK
Como assim?
PRODUTOR
20.000 Léguas Submarinas, A Arca de Noé... isso tudo de dilúvio e água por todo lado é muito datado. O povo agora quer ver o espaço. A gente coloca esses cientistas no espaço... melhor que seja um apenas. A gente coloca um cientista no espaço.
KUBRICK
No espaço? Hummm...
PRODUTOR
É. Ao invés de uma gôndola, a gente usa uma nave espacial! E ao invés da foca, utilizamos um computador inteligente.
KUBRICK
Isso é ridículo! Computador inteligente é a coisa mais ridícula...
PRODUTOR
(irritado)
É isso ou nada, Kubito!
KUBRICK bate com a mão fechada na mesa e solta um grunhido. O fone do intercom salta do gancho com o impacto da pancada e se projeta verticalmente no ar dando alguns giros até cair sobre a mesa. KUBRIK acompanha com os olhos o movimento do objeto.
KUBRICK
(pensativo)
Certo... acho que posso trabalhar com isso...
PRODUTOR
Excelente.
KUBRICK
Mas eu vou colocar uns homens macacos em algum lugar!
PRODUTOR
Certo. Então quero que seja no primeiro ano do século XXI.
KUBRICK
E um deles será atacado pelo leão!
PRODUTOR
Não! Nada de leão. Use um leopardo.
KUBRICK
(saindo da sala)
Está bem! Eu te odeio, sabia?
PRODUTOR começa a escrever por cima do script enquanto assobia o Danúbio Azul.
One Comment to “Sketcheorama #4”
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O Flaming Circus é meu repositório de roteiros, vídeos, textos e outras produções envolvendo comédia. Uma espécie de portfolio online com criações em sub-gênero de humor e algumas homenagens. Sei lá... é o que eu mais gosto de fazer, sabe?
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- RT @juliana_cunha: John Cusack fará o escritor Edgar Allan Poe no cinema http://ow.ly/2w1rl // :0 medo (por razões erradas) 1 week ago
- @ronaldrios E aí? Decidiu em que cidade vai residir? Já estou montando as coisas no apê. 1 week ago
- @FabioPorchat Eu estava e fiz a fina de não tietar ninguém e só protestar mesmo. :) 2 weeks ago
- @ronaldrios Se tivesse avisado antes eu teria dado um pulo aí pra fazer merda pela cidade com vocês. 2 weeks ago
- Sério que tem um candidato do PT do B chamado Cláudio Henrique Barack Obama? Porra... não tem Colbert Report melhor do que horário eleitoral 2 weeks ago
- E a bolha imobiliária em São Paulo começa a estourar. http://bit.ly/b6Ck2e Já era tempo. 2 weeks ago
- @ReneFraga Pois é... mas as pessoas curtem um lance ruim. Ruim é pop. Eu curtia o Pownce, mas ninguém queria usar. 2 weeks ago
- Tu achas que só a propaganda política no Brasil é constrangedora? Saca os vídeos do Basil Marceaux. http://bit.ly/abHyIF 1 month ago
- @ReneFraga Sim... eu te falei isso em 2007 e você tá repetindo agora. 1 month ago
- @danidias heh Eu já sabia. ;) 1 month ago





tiagón says:
ainda bem que está em Português. senão perigava ir pra Wikipedia.