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O que você acha engraçado?

Um artigo em quatro partes sobre a imposição de limites para a comédia,  seu papel na sociedade, minhas observações sobre a diferença entre humor e comédia e minhas opiniões sobre o caso do esquete “Casa dos Autistas” veiculado pela MTV através do programa “Comédia MTV”.

 

I – O Culto Ao Tosco

Quando conto para as pessoas que sou uma comediante eles dizem, “Ah, você é engraçada?” e eu digo “Não. Não é esse tipo de comédia.” – Susan Sarandon

A arte é subjetiva. Cada um tem a sua leitura e opinião daquilo que lhe agrada ou não. É preciso respeitar os gostos individuais e até se regozijar com o fato de que as pessoas podem exercer seu direito de escolha. No entanto acredito que primeiro é preciso ter escolhas, desejar entender suas opções e, em terceiro lugar, tentar compreender suas razões.

Acredito que a ignorância é tolerável e irremediável, mas estupidez não tem muito conserto. A diferença entre as duas condições está nas decisões de cada ser um. Tirando os casos de limitação intelectual resultante de traumas, doenças ou deficiências adquiridas, é triste saber que a maioria das pessoas abraça de bom grado a causa da limitação cultural. Não querer saber sobre o que nos cerca e o que existe além de onde sua vista alcança deveria ser crime inafiançável.

Eu não gosto de ouvir Maria Bethânia cantar porque seu estilo e principalmente seu repertório não me causam nenhuma sensação agradável ou estímulo intelectual. Ignorar no entanto que ela é uma excelente intérprete e experiente cantora seria estúpido da minha parte. Essa é a minha opinião e,  por coincidência ou não, a de muitos que conhecem seu trabalho.

Defendo que esse tipo de posição é muito mais edificante do que “Acho Maria Bethânia um porre. Simplesmente acho e não vou refletir sobre isso. Só acho e pronto.” O que seduz nesse tipo de pensamento tacanho é a facilidade de se lidar com o assunto. Os que compartilham com essa linha de pensamento ficam felizes de opinar sem conhecer quase nada à respeito do que dizem. Nunca ouviram um álbum inteiro da cantora, nunca foram a um show sequer dela. Isso exigiria um esforço mínimo, portanto é melhor não se interessar e ficar na sua caverna olhando as suas sombras.

Pior do que esses são os que olharam para fora da caverna, deram uma rodadinha rápida e voltaram correndo tentando se convencer e convencer os outros que o bom mesmo é a escuridão e seus agradáveis grilhões.

“Ah, exposição grátis no MAM que se foda! Bom mesmo é Chaves!”

Se alguém discorda, ele buscará apoio em seus semelhantes para a aprovação de uma opinião sem embasamento intelectual: “Queísso! É muito bom! Engraçadão! Não é, gente?

Para ingressar no culto ao banal basta sentar-se em cima da própria mediocridade e  consumir apenas o conteúdo regurgitado que a mídia considera popular e acessível à todos.  O cultista do banal recebe automaticamente um passe para a mega tribo conhecida como “a massa”.  O ingresso ainda dá desconto em outras tribos de associadas: times de futebol, religiões, ceninhas pseudo-undergrounds e até fã-clubes de celebridades fabricadas.

Suas “opções” se restringirão a como deseja adornar seu antolho de acordo em busca de aceitação do resto da tribo através do menor denominador comum. Ele assim vende sua condição de indivíduo para pagar a mensalidade da tribo que sustenta suas inseguranças e carências. Desejo do fundo do coração uma morte rápida à esse movimento. Afinal vivemos em sociedade e esse tipo de conduta é prejudicial à todos.

II – A Comédia

O que é a comédia?

Uma matéria publicada na revista Wired dia 14 de abril de 2011 reportou as tentativas de um professor norte-americano de concluir uma fórmula universal da comédia. A sua teoria, “Violações Benignas: Fazendo O Comportamento Imoral Engraçado” resumidamente assume que “o  riso e a diversão resulta das violações que simultaneamente são vistas como benignas – Percebe-se a violação da dignidade pessoal (ex.: slapstick, deformidades físicas ou mentais), normas linguísticas (ex: sotaques incomuns, malapropismos) e até normas morais (ex.: bestialidade, comportamentos desrespeitáveis) enquanto simultâneamente se reconhece que essa violação não apresenta uma ameaça a si ou a sua visão de mundo.”

Até agora essa parece ser a melhor síntese sobre como a comédia funciona ou não funciona e me satisfaz como explicação.

O Objetivo da Comédia

Molière

Considero o humor a raiz da comédia. Não existe para mim comédia sem humor, mas é possível o contrário. O humor pode ser sintetizado basicamente como “tragédia + timing” e possui o simples objetivo de fazer rir.

A comédia no entanto possui um papel mais complexo, como sintetizou Molière: “O propósito da comédia é corrigir os vícios do homem. Eu não vejo razão pela qual alguém deveria ser isentado. A tarefa da comédia é corrigir o homem entretendo-o.”

III – Não Acho A Menor Graça

É um direito seu de não achar a menor graça em uma anedota, sitcom, rotina de stand-up ou qualquer manifestação artística de caráter humorístico no plano da ficção.

Fora do caráter puramente ficcional estaremos navegando por outros mares, como foi nos dado o exemplo pelo artista costarriquenho Guillermo Habacuc Vargas que realizou uma obra de arte em uma galeria que consistia de um cachorro acorrentado deixado ali para morrer de fome. Por ser um cão real e não uma representação (pintura, escultura etc) de um cão morrendo de fome, Guillermo esbarrou sim em um limite artístico.

Se uma obra artística ficcional lhe ofende devido ao tema abordado, essa é uma questão pessoal e deveria ser isenta de qualquer discussão sobre ética pois essas são sobrepujadas pela liberdade de expressão. 

 

IV – A Casa dos Autistas

Quando o esquete humorístico apresentado no programa “Comédia MTV” causou ojeriza pelo seu tema central (autistas), levantando a discussão sobre a ética na produção de humor na TV, ironicamente o esquete deixou de ser um quadro de humor sobre autistas e passou, sem querer, a ganhar um contexto similar ao da comédia: a crítica. O tema não é mais o autismo e sim os limites de ética sobre a veiculação de uma representação de autistas feita em um quadro humorístico na TV.

Um esquete transmitido nos anos 80 por uma rede de TV canadense mostrava um pistoleiro covarde atirando em uma criança e sua mãe pelas costas. Eu achei engraçado e não achei ofensivo porque sei que isso não representa uma ameaça real à mulher, à criança, à mim ou minha forma de ver o mundo. Desconfiei no entanto que poderia ser ofensivo para outras pessoas. Ao descrever esse esquete para minha mãe ela reagiu de maneira negativa declarando que eu era doente ou estava doente por achar aquilo engraçado.

Repare que novamente o cerne da questão foi desviado. Ela não se preocupou se o esquete funcionava ou não como quadro humorístico. Minha mãe apenas coletou o tema e reagiu com repulsa à possibilidade de eu achar engraçado, discutindo com revolta essa questão. Eis a comédia.


Quando penso que um quadro cômico pode ofender alguém, associo novamente que o humor nada mais é do que tragédia + timing e me pergunto: e se fosse um drama? A reação seria a mesma? Acredito que não.

Por ter sido empregado o uso do humor (paródia, sátira, etc.) o esquete incomodou certas pessoas, incluindo uma conhecida minha que tem um filho autista. Eu realmente sinto muito que ela tenha se sentido incomodada e que tem todo o direito de manifestar seu incômodo junto com as vozes dos outros que se sentiram ofendidos. Feliz é o país onde todos podem exercer sua liberdade de expressão e que exista espaço para cada um… o problema, como sempre nessas questões, é quando o direito de um entra em conflito com o do outro.

A polêmica que tomou força essa semana me parece apontada exclusivamente aos limites de tema na comédia ou no humor. A reação de Adnet e a MTV foram se desculpar e investir em ações sociais e vinhetas promocionais sobre o autismo. Acho excelente o investimento e seria fantástico se tivessem começado no mesmo dia que veicularam o esquete, mas a desculpa é desprezível.

“O quadro apresentado tinha a minha participação, assim como de mais cinco atores. Somos contratados da emissora. Acredito na responsabilidade coletiva, incluindo principalmente os roteiristas, diretores e a própria emissora. Ainda assim, não seria justo eu lavar as mãos e me eximir de qualquer responsabilidade.”

“Fui muito atacado. Estou triste de ter que carregar essa culpa. Assim como os outros atores, estou de coração aberto. Acho que o quadro foi de mau gosto e estou do lado das famílias. Não sou um monstro” – Marcelo Adnet

Adnet informou pelo Twitter que o esquete lhe havia sido sugerido há um ano, mas ele o recusara por temer justamente a reação polêmica do público. Continuou declarando que, dessa vez em 2011, não conseguiu evitar a sua produção. Ora… se o esquete foi criado por um roteirista para ser produzido, Adnet exerceu o poder de veto por achar antiético, mas finalmente acabou cedendo, ele se mostrou antiético por não optar simplesmente em bater o pé ou até pedir demissão. Ele não é um escravo da MTV. Se o próprio Adnet escreveu o esquete, por consequência ele não pode considerá-lo antietico. Descartá-lo primeiramente para evitar polêmicas e agora pedir desculpas pelo que criou é no mínimo repulsivo, pois mostra que Adnet deixou de defender sua obra, lhe dando o status de defeituosa e falha, quando deveria ser amada e aceita como todos os outros esquetes do seu programa.

“(…)Houve desconhecimento na abordagem sobre o transtorno global de desenvolvimento, uma infelicidade, em que foram ultrapassados os limites aceitáveis do humor“, explicou em comunicado Angela Rehm, diretora de relações governamentais do Grupo Abril.

Tenho a absoluta convicção de que a partir de agora uma censura reinará na criação dos quadros da MTV e possivelmente a polêmica ecoará em outras emissoras que produzem programas de humor. A auto-censura será também empregada minando a integridade artística dos roteiristas e impulsionando a produção de humor do país ladeira abaixo na direção do politicamente correto e do culto ao tosco, onde o menor denominador é a baliza para o sucesso. Se existe algo nessa história toda que me ofende é isso: sem humor (que funcione ou não), é impossível que se produza a comédia e qualquer limite imposto à comédia equivale a rejeição completa do gênero.

Postado em
Thursday, April 28th, 2011
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2 Comentários

Fernando,
Eu não entendi a referência da internet de 98/99 (mas escrevo nela desde essa época mesmo). Pelo que entendi, você curtiu o texto e fico feliz por isso.

April 28th, 2011
Nix

É a primeira vez que leio você. Curiosamente, lendo os primeiros parágrafos, tive a sensação de estar na internet de 98/99.
Seu texto sugere uma certa despretensão. Talvez tenho andado por lugares errados e lendo coisas tendenciosas demais – você TEM que rir, você TEM que discutir, você TEM que compartilhar, você TEM que publicar. Entende?

April 28th, 2011
Fernando S.
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