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EXT. JARDIM COM PISCINA – DIA

MÁRCIO e a ESPOSA estão sentados em cadeiras reclinadas tomando sol no jardim da casa ao lado da piscina. Um cão pastor alemão está descansando aos pés da ESPOSA. Ambos estão de roupas de banho e óculos escuros.

MÁRCIO dá um gole em um copo de suco e o coloca ao seu lado. Olha para o corpo da esposa. PAN do joelho para cima

MÁRCIO

(hesitante)

Môr?

ESPOSA

Fala, baby.

MÁRCIO

Sabe... em todos esses anos de casado...

ESPOSA

O que tem?

MÁRCIO

...eu nunca havia reparado numa coisa.

ESPOSA

O que?

MÁRCIO

Você não tem o pé esquerdo, né?

beat

ESPOSA se apruma na cadeira e continua o diálogo sem virar a cara para MÁRCIO.

ESPOSA

(surpresa)

Você está de sacanagem?

MÁRCIO

Não, sério. Lembra ontem quando tava passando a novela e eu caí do sofá?

ESPOSA

O que tem? Você ia se sentar e teve uma vertigem.

MÁRCIO

Pois é. Não foi bem uma vertigem. Me desiquilibrei porque reparei no seu cotoco.

ESPOSA

Márcio? Na boa? Pára, tá! Já é difícil ter esse problema e a gente nunca falou disso antes. Você sempre encarou numa boa e sempre achei nobre da sua parte.

MÁRCIO

Mas é que...

ESPOSA

Por que agora, depois de oito anos vivendo juntos você vem com essas brincadeiras? Que coisa infantil! Tá regredindo, é?

MÁRCIO

Meu amor... eu nem sei como explicar isso, mas é verdade. Nunca havia reparado!

ESPOSA

O que?

MÁRCIO

Te juro! Nunca mesmo. Você sabe que homem não repara em nada. Você mesmo vive dizendo.

ESPOSA

Porra, Márcio! Não repara se a gente faz as unhas, não repara se a gente faz luzes ou corta mais curtinho o cabelo! Como assim você nunca reparou no meu pé esquerdo?

MÁRCIO

Mas você não tem pé esquerdo! Como você quer que eu repare também em algo que eu nunca vi?

ESPOSA

A gente faz sexo há dez anos, Márcio! Dois como namorado e oito como marido e mulher! Eu não tô acreditando nisso!

MÁRCIO

Mas é verdade! Só reparei ontem. Fiquei na hora em choque e não consegui nem falar contigo. Passei a noite inteira acordado só pensando no seu pé e hoje não aguentei mais. Tive de falar.

ESPOSA

Ai, cara... é surreal isso. Você é surreal, Márcio!

MÁRCIO

Mas você nunca mancou! Como eu...

ESPOSA

Eu uso prótese, Márcio! Eu tenho 12 pares de próteses de madeira no armário! Você saberia se não fosse um inútil e tivesse aberto um dia meu armário! Nunca nem reparou no meu pé esquerdo.

MÁRCIO

Você não tem p...

ESPOSA

Vai tomar no cu, Márcio! Eu não vou ficar ouvindo essa sandice!

MÁRCIO

Mas eu tinha de falar alguma coisa, né? Finalmente entendi porque você gasta tanto dinheiro com óleo de peroba...

ESPOSA

Você tinha de falar da primeira vez que me viu sem roupa! Como assim você não notou?

MÁRCIO

Eu tinha outras coisas pra focar minha atenção, amor! Eu não tenho tara por pés, se não...

ESPOSA

(se levanta)

Ah, é? Ainda bem, né? Você tem o que? Horror por pés? Porque se for esse o caso, você não precisa se preocupar muito, querido! Resolvi metade de seus problemas!

MÁRCIO

Não fica nervosa, amor. É que isso tudo me pegou de surpresa...

ESPOSA

E eu achando que você não tinha falado nada porque não era importante pra você. Achei você um cavalheiro! Tudo não passava de desatenção retardada! É impressionante!

MÁRCIO

Olha. Desculpa, mas é que...

ESPOSA

“É que” o que? Você já não falou o que tinha pra falar? Já não me machucou o suficiente?

MÁRCIO

Amor... desculpa. Desculpa mesmo.

ESPOSA

Eu não ter o pé esquerdo vai mudar nosso relacionamento? Você vai me amar menos?

MÁRCIO

Não! De jeito nenhum!

ESPOSA

(se senta)

Então vamos encerrar esse assunto, tá?

MÁRCIO

Claro, claro. Não tá mais aqui quem falou.

ESPOSA

(surpresa)

Como assim? Quem falou então?

MÁRCIO

Olha, já pedi desculpas! Você não tá vendo minha cara vermelha de vergonha? Não tá vendo?

ESPOSA

Você tá de sacanagem! De novo, Márcio?

MÁRCIO

O que?

ESPOSA

(tateando o chão sem olhar)

Porra, Márcio! Cadê a porra da minha bengalinha? Vou te encher de porrada!

FADE IN

|INSERT vidro fosco de uma porta com os dizeres pintados “DETETIVE CARUSO – INVESTIGADOR PARTICULAR”.

FADE para

INT. Escritório da agência de detetives – DIA

MÚSICA de jazz estilo noir.

O DETETIVE Caruso está em pé atrás de sua mesa olhando a rua através das persianas. O ASSISTENTE está sentado em sua mesa distraído com uma revista de palavras cruzadas. Um ventilador de teto gira lentamente e há um copo de whiskey pela metade na mesa do DETETIVE.

ASSISTENTE

Catinga, odor ruim... cinco letras.

DETETIVE

(sem tirar os olhos da janela)

Fedor.

ASSISTENTE conta com a caneta os espaços para preencher a palavra e a anota na revista.

DETETIVE

Essa cidade fede! Fede a desespero, insanidade e luxúria. Todos os dias milhões de almas desamparadas aguardam no limbo e observam mudas e desesperançosas as suas carcaças se arrastarem pelas ruas, escritórios e apartamentos emprestados por terceiros para atividades das mais sórdidas.

ASSISTENTE

Ô! Sei de uma garçoniere no Lido onde as paredes só não falam por vergonha. Amparo, arrimo, oito letras.

DETETIVE

Sustento.

ASSISTENTE

Isso. Você jogo no bicho ontem?

DETETIVE

(cont’d)

Animais se arrastando, se roçando e finalmente apodrecendo no esquecimento coletivo. O arrependimento e o desalento de cada uma dessas almas são o nosso maldito sustento.

ASSISTENTE

Sei. Eu disse para você jogar no macaco e cercar! Depois fica aí, todo borocochô. Já falei! Quando eu sonho com o Charlton Heston é batata!

DETETIVE

São suas vozes que me despertam e que me amaldiçoam. O azedo, o negrume e a carniça é o que me faz querer dormir e não acordar. As almas pelo menos não tem o menor odor, mas os corpos estão aí trapaceando, mentindo, traindo e pecando. Todos os dias alguém acorda nessa cidade e decide destruir a vida de outra pessoa. Muitas vezes, se possível, antes da hora do almoço. Dá para sentir até com a janela fechada.

Uma batida na porta é ouvida. O ASSISTENTE oculta a revista de palavras cruzadas, o DETETIVE se senta e se apruma na cadeira.

DETETIVE

Lá vamos nós de novo. Entre!

MULHER bem vestida com um chapéu com véu entra no escritório. O ASSISTENTE faz sinal para que ela se sente em uma cadeira. O DETETIVE a observa de sua mesa.

ASSISTENTE

Em que podemos ajudar?

MULHER

(se sentando)

Estou atrás de uma pessoa.

ASSISTENTE

Homem? Mulher?

MULHER

Um homem. O homem que me deu isso!

MULHER tira o chapéu e revela seu rosto. ASSISTENTE observa sua face por um instante.

ASSISTENTE

Herpes?

MULHER

(coloca a mão sobre a boca)

Não! O chapéu!

ASSISTENTE

É. Eu ia dizer que não parece herpes. Parecia mais uma espinha. A senhora andou espremen...

DETETIVE

Perdão! Ele é meu assistente. Chegou semana passada. Normalmente só limpa apontadores por aqui. Posso examinar o chapéu?

MULHER

(entrega o chapéu para o DETETIVE)

Por favor.

ASSISTENTE

(consigo mesmo)

Amanhã é pavão na certa.

DETETIVE inspeciona o chapéu por vários ângulos, pega uma lupa e observa um detalhe, observa a MULHER por um momento e volta a observar o interior do chapéu.

DETETIVE

Posso perguntara qual é o seu número de chapéu?

MULHER

36.

DETETIVE

Esse chapéu é tamanho 38. Você está mentindo para nós. Não é, mocinha?

MULHER

Não! Ele é meu, mas não foi comprado para mim.

DETETIVE

(devolve o chapéu)

Fale mais sobre esse homem.

MULHER

O nome dele é Moreira. Eu não sei o seu primeiro nome. Apenas isso: Moreira. Eu o conheci por causa de um cruzeiro em Havana.

ASSISTENTE

Conheço muito bem o tipo. Garoto de programa expatriado que não acompanhou a revolução monetária brasileira, cobrando preços módicos...

MULHER

Não é isso. Foi um cruzeiro de navio!

ASSISTENTE

Ah! Faz sentido.

DETETIVE

Perdão novamente. Deixe ver se completo o quebra-cabeças. Vocês se apaixonaram, ele quis lhe comprar um chapéu. Vocês estavam em alto mar e não havia o seu número na loja do navio.

MULHER

É exatamente isso. Como você descobriu?

DETETIVE

Qualquer um poderia descobrir isso pela etiqueta. Ela possui o nome da loja e essa loja só existe em um transatlântico que ancorou no porto de Santos faz uma semana antes de parar por um dia aqui na cidade.

MULHER

É incrível!

DETETIVE

Ainda tem mais. O chapéu também é um modelo muito especial. O véu é bordado a mão nas filipinas por criancinhas carentes e o tecido é linho marroquino.

MULHER

Eu não fazia idéia.

DETETIVE

Há duas marcas distintas de impressões na aba. Uma é fina, longa e delicada. A sua mão segurou esse chapéu por alguns momentos, mas a outra é evidentemente mais acentuada e provocou uma ligeira saliência na lateral. Um homem sem dúvida. Forte e impetuoso.

MULHER

Como você pode saber tanto só olhando para um chapéu?

DETETIVE

É extraordinariamente simples: eu te dei esse chapéu. Eu sou o Moreira.

MULHER

Isso... isso é ridículo!

DETETIVE

Será mesmo? Você não se lembra da noite no convés? Bebemos três dry-martinis. Você reclamou que o seu joanete doía. A Orquestra Tabajaras cover tocava o Luan e Vanessa e eu disse que sob a lua seus olhos pareciam com os de minha tia Dolores quando ela assistia o jornal e discutia com o Cid Moreira sobre as notícias do dia.

MULHER

Não é possível! O Moreira que conheci era moreno, forte, jovem e tinha uma covinha no queixo.

DETETIVE

Delírios de martini, querida! Tenho sessenta anos, sou caucasiano e mal tenho queixo.

ASSISTENTE

Praticamente um Noel Rosa reencarnado.

DETETIVE

Cale-se.

MULHER

(começa a chorar)

Eu não acredito!

DETETIVE

É melhor acreditar... aceitar os fatos de uma vez e desistir de mim. Você sabe muito bem que sou casado e ambos sabemos que aquilo tudo, por mais maravilhoso que tenha sido, foi apenas uma louca aventura sobre o Atlântico! Um delírio fantástico porém irreal e fugaz!

MULHER

(Chorando)

Moreira! Moreira!

DETETIVE

Vá! Vá e aceite o tempo como remédio. O tempo é teu único amigo e o láudano da tua alma. Só ele poderá aliviar nosso cruel destino! Carrasco vil que aprisiona nossos corações. O tempo romperá teus grilhões, mulher! Não eu! Não o Moreira que você conheceu!

MULHER grita de dor e chora encurvada sobre a cadeira. O ASSISTENTE faz menção de amparada, mas é detido por um gesto dramático do DETETIVE que continua a olhar para a MULHER.

DETETIVE

Vai te! Tua presença, por mais doce e febrilmente ansiada, compursca nossa única memória bela e irremediavelmente perdida! Se ainda tem algum apreço pelo que ela representa, vai te agora e corra veloz de volta para as sombras da minha vida!

MULHER sai chorando pela porta do escritório.

ASSISTENTE

Desde quando você é Moreira?

DETETIVE

Moreira é o caralho! Mulher maluca! Usando chapéu com véu em pleno século vinte e um. Corre lá e cobra a porra os honorários antes que ela chegue no elevador. Vai te!

ASSISTENTE sai correndo pela porta.

DETETIVE bebe um gole de whiskey e afasta com os dedos as persianas da janela para olhar para a rua.

DETETIVE

Mais um dia nessa cidade suja e insandecida...

FADE OUT

Auxílio sonoro: clique no bichinho aí para ouvir o som dos ACORDES DRAMÁTICOS que me refiro inúmeras vezes nessa série de sketches.


INT. LOFT – NOITE

MIGUEL está sentado a mesa, jogando paciência. Há um telefone ao seu lado. O telefone toca e MIGUEL o atende.

MIGUEL

Doutor Miguel. Quem fala?

JORGE

Miguel, aqui é o Jorge.

MIGUEL

Eu não conheço nenhum Jorge.

JORGE

Nós nunca nos vimos... calma aí! Como assim não conhece nenhum Jorge? É um nome ridiculamente comum! Todo mundo conhece um Jorge.

MIGUEL

Eu não conheço nenhum. Com licença, mas do que se trata essa ligação?

JORGE

É complicado explicar assim, mas eu prefiro dar essa notícia para você antes que nos vermos cara a cara. Eu espero que você esteja sentado.

MIGUEL

Isso é trote, né?

JORGE

Não, Miguel. Eu não sei como posso dizer isso, mas aqui vai: você foi adotado.

ACORDES DRAMÁTICOS

MIGUEL

Quem está falando?

JORGE

É sério, Miguel. Você foi adotado quando era um bebê.

Música de fundo calma em OFF que aos poucos se torna um tema de suspense.

MIGUEL

(suspira)

Eu sei.

JORGE

Sabe?

MIGUEL

Sim. Nunca foi segredo. Meus pais me contaram quando eu tinha catorze anos. O que quero saber é quem é você e como você sabe disso.

JORGE

Bem... é outra parte complicada. Seus pais não te contaram sobre a sua família real?

MIGUEL

Eu só sei que eles morreram quando eu era criança. Quem é você?

JORGE

Miguel... eles não morreram.

MIGUEL fica estático por um momento.

JORGE

Miguel?

MIGUEL

É você, papai?

JORGE

Não! Seu pai morreu.

MIGUEL

Mas você....

JORGE

Mas sua mãe está viva.

ACORDES DRAMÁTICOS

MIGUEL

Mamãe?

JORGE

Não, Miguel! Não sou a mamãe! E Jorge seria um péssimo nome para uma mulher, convenhamos.

MIGUEL

Desculpa. Eu estou um pouco chocado com tudo isso. Quem é você?

JORGE

Eu... sou seu irmão.

beat

MIGUEL

(chocado)

Eu... eu tenho um irmão?

JORGE

Aparentemente sim. Olha... se a ligação cair é porque eu entrei em um elevador. Aí eu te ligo, tá?

MIGUEL

Ok. Quer dizer que eu tenho um irmão chamado Jorge?

JORGE

Doutor Jorge.

MIGUEL

(empolgado)

Você também é físico teórico?

JORGE

Não. Sou geneticista.

MIGUEL

(decepcionado)

Que curioso.

JORGE

Isso porque você ainda não sabe tudo.

MÚSICA dramática de suspense em crescendo.

MIGUEL

(empolgado)

Mas eu quero saber! Eu quero ver você! Como podemos nos encontrar? Tenho tanta coisa para perguntar! Onde você mora?

JORGE

Roraima.

MIGUEL

(decepcionado)

Ah.

JORGE

Eu também quero te ver, meu irmão. E hoje se possível.

MIGUEL

Mas eu moro em São Paulo. Aí em Roraima eu não sei, mas aqui já são nove da noite e daqui até o aeroporto... com o trânsito...

JORGE

Eu estou em São Paulo, Miguel.

MIGUEL

(exaltado)

Onde?

JORGE

Na porta do seu apartamento.

A MÚSICA cessa repentinamente.

A campainha toca com um som de “DING DONG DIING”. ACORDES DRAMÁTICOS. MIGUEL se assusta e olha na direção da porta. PAN rápido com CLOSE na porta.

FADE OUT

.

Auxílio sonoro: clique no bichinho aí para ouvir o som dos ACORDES DRAMÁTICOS que me refiro inúmeras vezes nessa série de sketches.


FADE IN

INT. LOFT – NOITE

MIGUEL abre a porta do apartamento para JORGE.

POV de MIGUEL que se apavora com o que vê e grita de medo.

JORGE

(em off)

Calma, Miguel.

MIGUEL

(dando passos para trás)

Você! Eu! Você sou eu!

JORGE

Não, eu sou seu irmão gêmeo!

ACORDES DRAMÁTICOS. PLANO ABERTO. Surge JORGE, atravessando a porta, idêntico a MIGUEL com exceção de um cavanhaque e roupas diferentes.

JORGE fecha a porta. Os dois se aproximam lentamente e examinam um o rosto do outro.

MIGUEL

Gêmeo! Que fascinante!

JORGE

Sim... é quase como olhar no espelho.

MIGUEL

(agora bem próximo de JORGE)

Seus olhos são como os meus.

JORGE

Sim.. e sua boca.

Os dois olham para os lados envergonhados e se afastam disfarçando o contrangimento, andando pela sala.

MIGUEL

Você disse que queria me ver hoje. Por que hoje? Por que agora?

JORGE

É complicado também.

MIGUEL

Mais complicado que isso? Eu acabo de descobrir que tenho um irmão tem dois minutos e há um minutos eu descubro que ele é gêmeo e está no meu apartamento!

JORGE

Infelizmente a razão que me traz aqui foi a mesma que me fez descobrir a sua existência. Diz respeito a nossa mãe.

MIGUEL

(preocupado)

Ela está bem?

JORGE

Oh! Sim, sim! Ela está ótima. Uma saúde impressionante. Não é isso. É sobre ela e meu trabalho.

MIGUEL

(se senta)

Estou ouvindo.

JORGE

Bem... eu espero que como um homem da ciência, nós possamos conversar de igual para igual.

MIGUEL

Nós já somos bem iguais.

JORGE

Sim, isso é verdade. Como eu havia lhe dito, sou um geneticista e trabalho em um projeto altamente secreto e controverso. Meses atrás comecei a trabalhar paralelamente em casa em um... digamos assim, projeto particular. Você já levou trabalho para casa, Miguel?

MIGUEL

Bem... algumas vezes. Durante um ano tentei aperfeiçoar uma teoria de super cordas que me permitiria viajar entre universos paralelos e...

JORGE

(interrompendo)

Sim, sim. Fascinante, mas vamos falar um pouco sobre a realidade se você não se importa.

MIGUEL faz menção de reclamar, mas JORGE o ignora e continua a falar

JORGE

Eu criei algo muito temido pela humanidade, irmão. Algo que era esperado que acontecesse. Eu... me clonei.

ACORDES DRAMÁTICOS.

MÚSICA dramática em crescendo.

MIGUEL

(incrédulo)

O que?

JORGE

Eu me clonei e mantive meu clone em segredo por semanas. Não sabia o que fazer com ele. Um dia mamãe entrou para limpar meu quarto... eu havia esquecido de trancar a porta e ela nos flagrou conversando.

MIGUEL

Você vive com a sua mãe?

JORGE

Não é hora para ficar com ciúme, Miguel! O caso é que ela achou que eu estivesse falando com você. Ela achou que nós haviamos descoberto sobre a adoção e foi assim que descobri a história toda.

MIGUEL

Meu Deus! E... e o que você disse para ela?

JORGE

Eu dei um copo de água com açúcar para ela, mas primeiro dissolvi uns tranquilizantes pesados na mistura e no dia seguinte fiz ela acreditar que havia sonhado com tudo aquilo.

MIGUEL

Certo... quer dizer, não tem nada certo nessa história toda, mas pelo menos agora eu sei como você descobriu sobre a adoção. O que eu não entendo é porque você teve de vir para cá hoje.

JORGE se encaminha até a porta.

JORGE

É o clone, Miguel. Ele não pode mais ficar lá em casa. Mataria mamãe do coração. Foi por isso que eu o trouxe aqui.

MÚSICA cessa.

JORGE abre a porta.

JORGE

Miguel, eu lhe apresento George!

ACORDES DRAMÁTICOS.

GEORGE entra. Ele é igual a JORGE com exceção das roupas, do queixo sem barba e de um bigode.

CLOSE em MIGUEL boquiaberto.

CLOSE em GEORGE.

GEORGE

(dando tchau)

Oi!

FADE OUT

.

Será que o Mateus Solano ficaria interessado no papel?

INT. LOFT – NOITE

MIGUEL e JORGE estão sentados no sofá. GEORGE está em pé em um canto jogando um videogame portátil com fones de ouvido.

MIGUEL

Meu Deus!

JORGE

Deus não tem nada a ver com isso, Miguel. George é fruto de pura engenharia genética. O primeiro clone humano funcional!

MIGUEL

Eu não acredito que você fez isso! As implicações éticas!

JORGE

Ah, Miguel! Por favor! Somos ambos homens da ciência! Eu esperava que você pudesse compreender a revolução que isso significa para a humanidade! Ou no mínimo meu gênio científico!

MIGUEL

Desculpa se minha primeira reação não foi bater palmas, chorar e lhe indicar para o Prêmio Nobel, mas se ponha em meu lugar. Agora eu tenho dois irmãos! É o dobro do que eu tinha há cinco minutos e antes disso eu... dois é quantas vezes mais do que zero?

JORGE

Isso não importa. O que importa é que preciso que você o hospede por uns dias até eu pensar no que fazer com ele.

MIGUEL

Olha, não é como se eu não quisesse ajudar, mas eu não sei se é uma boa idéia. Eu trabalho o tempo todo e...

JORGE

Não me venha com essa, Miguel. Eu sei muito bem que você foi demitido. Eu pesquisei a sua vida antes de chegar aqui.

JORGE aponta para o baralho em cima da mesa.

JORGE

(cont’d)

Você deve passar o dia inteiro jogando paciência e chorando por não ter conseguido realizar seus objetivos profissionais. Você pode muito bem cuidar do George por uns dias. Vai te fazer bem a companhia.

MIGUEL

Eu estava prestes a conseguir contactar outras dimensões, sabia? Universos paralelos... calma aí! Cuidar do George? Como assim “cuidar”?

JORGE

Bem... como posso dizer isso? É complicado...

MIGUEL

De novo? O quão complicado isso pode ficar?

JORGE

(olha para GEORGE)

Apesar de fisicamente aparentar nossa idade, George ainda não é intelectualmente um adulto. A experiência de uma vida não pode ser clonada ainda, irmão. George mentalmente tem cerca de catorze anos.

MIGUEL

Catorze? Como você determina...

Ambos olham para GEORGE, que percebe que está sendo observado e tira um dos fones do ouvido.

GEORGE

(para MIGUEL)

Oi. O senhor tem Cheetos?

JORGE

Fica óbvio com o tempo. Você tem Cheetos? Eu também não comi nada desde o almoço.

MIGUEL

Eu devo ter alguns biscoitos na cozinha. Fique a vontade.

JORGE

Vamos, George. Vamos procurar algo para comer.

JORGE e GEORGE se afastam para a área da cozinha.

MIGUEL está pensativo quando percebe que alguns objetos em cima da mesa e nas estantes começam a tremer. MÚSICA de suspense em crescendo.

Rapidamente um tremor envolve todo o apartamento. MIGUEL se segura na poltrona com medo olhando para todos os lados quando um pequeno raio azul passa perto da sua cabeça.

O raio é seguido por clarões de luzes e raios coloridos. MIGUEL cobre parcialmente os olhos com as mãos para se protejer da luz enquanto tenta olhar para o vórtex que se abre em sua sala.

De dentro do vórtex surge um homem idêntico à ele com exceção das roupas e de um par de costeletas enormes.

MÚSICA cessa com os ACORDES DRAMÁTICOS.

FADE OUT

INT. LOFT – NOITE

FADE IN

MIGUEL está aterrorizado no sofá olhando para RONALDO que está olhando em volta o apartamento e ainda não o viu.

RONALDO

Funcionou! É como se eu não estivesse deixado meu loft, mas as a arrumação da sala...

RONALDO finalmente percebe MIGUEL e dá um rápido grito de espanto. MIGUEL responde com um grito mais longo. JORGE e GEORGE entram em cena, vindos da cozinha. JORGE vê RONALDO e grita também. RONALDO grita em resposta. MIGUEL se levanta e grita também. GEORGE fica confuso e dá um longo grito, abanando as mãos e foge para a cozinha saindo de cena.

RONALDO para de gritar e fica constrangido.

RONALDO

(para MIGUEL e apontando para a cozinha)

Tá tudo bem com ele?

MIGUEL

Quem...

RONALDO

Sou uma versão sua de outra realidade!

MIGUEL

Você... você veio de outra dimensão paralela?

RONALDO

(triunfante)

Sim! Eu finalmente consegui! Atravessei um portal para uma outra dimensão.

JORGE

Ah, saco. Lá se vai o meu Nobel. Vou acalmar o GEORGE.

JORGE sai de cena para a cozinha.

MIGUEL

Então, funciona mesmo! Eu achava que estava ficando louco. Todo mundo no trabalho me ridicularizou! É realmente possível viajar através de universos semelhantes.

RONALDO

Sim, mas nunca pensei que existisse um universo que todos se parecessem comigo. De certa forma fico até lisonjeado.

MIGUEL

Não, aquele é o JORGE, meu irmão gêmeo.

RONALDO

Que interessante. Na minha realidade eu sou filho único aqui minha mãe teve trigêmeos!

JORGE e GEORGE entram em cena retornando da cozinha e comendo biscoitos.

MIGUEL

Na verdadade não somos trigêmeos. O George é um clone.

GEORGE se aproxima de RONALDO.

GEORGE

(estende o pacote)

Quer Cheetos?

RONALDO

(estudando o rosto de GEORGE)

Impressionante! Na sua dimensão a clonagem é uma coisa comum?

GEORGE

Cheetos?

RONALDO

Não, obrigado.

JORGE

A clonagem não é uma coisa comum! George é o primeiro clone do mundo.

RONALDO

Fascinante!

JORGE

(sorrindo sem jeito)

Fui eu que fiz!

MIGUEL

Esquece o clone! Me diz como você conseguiu resolver a Equação de Boring!

RONALDO

Ah, isso? É... complicado.

MIGUEL anda lentamente para a mesa e se senta em uma das cadeiras com uma expressão exausta. GEORGE imita o gesto se sentando ao seu lado e olhando todos com expressão abobada e maravilhada.

MIGUEL

Eu preciso de uma bebida.

GEORGE

(estende um copo de achocolatado)

Quer toddinho?

JORGE

(se dirigindo para a cozinha)

Eu vi uma garrafa de vinho paraguaio na geladeira. A safra é excelente.

RONALDO se senta à mesa.

MIGUEL

(em tom de desespero)

Eu quero fugir daqui! Eu quero ir para uma dimensão sem irmão gêmeo geneticista ou clone. Me diz como você resolveu a Equação de Boring!

RONALDO

Bem, pode-se dizer que eu tive uma ajuda externa ou mais ou menos isso. Eu não sei bem como explicar de uma maneira simples...

JORGE volta da cozinha com tulipas de choppe e uma garrafa de barro.

JORGE

Vinho para todo mundo!

GEORGE

(bate palmas)

Yey!

JORGE

(servindo o vinho nas tulipas)

Menos o clone.

GEORGE

(decepcionado)

Aahhn.

JORGE se senta a mesa.

JORGE

Muito bem.. agora que você chegou aqui. O que pretende fazer?

RONALDO

Eu preciso esperar o vórtex dimensional se abrir novamente. Eu programei para daqui a quatro horas.

JORGE

Eu tinha um vôo marcado para casa, mas com essa comoção toda já perdi a hora do check-in. Vou ter de pegar o próximo antes do almoço.

MIGUEL

E o que a gente faz enquanto isso?

JORGE, RONALDO e MIGUEL se entreolham constrangidos.

GEORGE

Partidinha de buraco?

Todos encolhem os ombros em sinal de aprovação.

JORGE

(começa a arrumar o baralho)

Eu corto.

FADE OUT.

.

.

.

.

Continuação em TAG FINAL

Todos estão jogando buraco.

RONALDO

Eu nunca teria jogado essa carta.

MIGUEL

Ora, cale-se! Sua dupla não tem um clone com idade mental de uma criança.

JORGE

Ele não é uma criança. É um jovenzinho muito esperto.

GEORGE sorri e faz uma jogada.

JORGE

Excelente, garoto!

Um clarão surge similar ao clarão do vórtex. Todos protegem a vista parcialmente com as mãos.

JORGE

É o seu vórtex dimensional?

RONALDO

Não, mas já vi isso antes!

Um vórtex se abre e dele surge MARCELO, um homem igual a todos os outros personagens com exceção de uma roupa prateada, óculos escuros, camisa com gola em “v” e uma barba curta e bem aparada.

MARCELO

Eu vim do futuro para ajudá-lo com a equação de...

MARCELO então vê todos jogando buraco.

MARCELO

(levantando os óculos dos olhos)

Que diabos?

RONALDO

Chegou tarde. Já expliquei para ele toda a equação.

MIGUEL

(sorrindo amarelo)

Xis é igual a zero.

pausa.

MARCELO

É buraco?

JORGE

(sem tirar os olhos das cartas)

Tesoura, papel e pedra com a dupla que perder.

MARCELO puxa uma cadeira e se senta junto à mesa e observa o jogo com interesse.

GEORGE

Bati!

MIGUEL

Merda.

FADE OUT

MIGUEL, RONALDO e MARCELO

(em off e em uníssono)

1, 2, 3 e...

ACORDES DRAMÁTICOS

MIGUEL, RONALDO e MARCELO

(em off e em uníssono)

Pedra!

MIGUEL

(em off)

Eu odeio vocês.

FIM!

.

.

INT. SALA de ESPERA – INDIFERENTE

Em uma sala de paredes e móveis cinzas, um homem vestindo roupas formais da mesma cor está sentado atrás de uma mesa observando papéis. Há uma cadeira vazia na frente da mesa. A sala possui duas portas. Uma está fechada e pela porta aberta entra TENÓRIO tossindo.

TENÓRIO

(olhando curiosamente a sala)

Com licença? Por favor... que lugar é esse?

AUXILIAR

Você morreu. Sinto muito, sua hora chegou. Você está no purgatório. Eu sou um agente encarregado no auxílio das almas para seu destino final. Sente-se por favor.

TENÓRIO continua olhando para o AUXILIAR.

AUXILIAR

(organizando papéis na mesa)

Não. Isso não é uma piada, sonho, pesadelo, pegadinha do malandro ou delírio lisérgico. Você morreu.

TENÓRIO

Mas, mas...

AUXILIAR aponta para a cadeira sem tirar os olhos dos papéis.

TENÓRIO se senta olhando atentamente para o AUXILIAR que depois de alguns segundos termina de preencher algumas partes dos papéis de sua prancheta.

AUXILIAR

Tenório, certo?

TENÓRIO

Sim, mas como foi que...

AUXILIAR

Câncer de pulmão. Aqui diz que o senhor fumou por mais de vinte anos, foi diagnosticado a tempo, mas insistiu em fumar. Eu acho que isso resume tudo.

TENÓRIO

Eu, quer dizer... então eu morri mesmo.

AUXILIAR

E-xa-ta-men-te. Fico feliz que tenha aceitado isso de maneira positiva e com rapidez. Almas como a sua facilitam o meu trabalho e se facilitam consequentemente nesse momento delicado e decisivo da sua existência exclusivamente etérea.

TENÓRIO

Mas eu não vou reencarnar?

AUXILIAR

(verificando os papéis)

Humm, aqui diz que você não acreditava em reencarnação.

TENÓRIO

É, mas eu não tinha morrido ainda.

AUXILIAR

Mesmo assim eu temo que não é uma opção possível. É preciso ter fé nas coisas, Tenório, e você não tinha fé em muita coisa.

TENÓRIO

Não?

AUXILIAR

Bem, para um ex-agnóstico até que você possuia umas crenças fantásticas! Por exemplo: você acreditava no América como campeão e no Brasil como o país do futuro. O que mais? Ah... que o Tancredo morreu de causas naturais, que o iPhone 4G realmente foi encontrado por acaso em um bar antes de ser anunciado e que a gordurinha da picanha faz, de acordo com suas próprias palavras: “um mal danado para a saúde”.

TENÓRIO

Não faz?

AUXILIAR

Nada tão gostoso e natural pode ser tão maléfico. Deus não permitiria.

TENÓRIO

Então Ele existe!

AUXILIAR

É claro! Foi por isso que lhe chamei de ex-agnóstico. Não faz muito sentido a essa altura do campeonato ficar em cima do muro, não é? De qualquer forma você terá todo o tempo do universo para filosofar e negá-lo se ainda desejar, mas primeiro temos que determinar para onde você vai.

TENÓRIO

Como assim? Se vou para o céu ou para o inferno?

AUXILIAR

Mais ou menos isso. Na verdade só existe nessa sala uma porta de entrada (por onde você chegou) e uma porta de saída, que é para onde você irá daqui a instantes. É só esperar um pouquinho e me dizer três coisas que você quer deseja para sempre.

TENÓRIO

Tipo dinheiro, saúde e amigos?

AUXILIAR

Ah, queridinho... infelizmente não. Você passará a eternidade sozinho, tadinho. É por isso que você tem de escolher muito bem quais são as coisas que vão fazer companhia. Dinheiro só se você gostar muito, mas muito mesmo de colecionar notas e moedas. Saúde você pode ignorar, morte obviamente também. Amigos eu vou ficar te devendo, tá?

TENÓRIO

Que coisa mais tensa.

AUXILIAR

Um pouquititito! Mas logo vai passar. O importante agora é que fique bem claro que estamos falando aqui do resto da eternidade. É bastante tempo isso, sabe? Tempo para xuxu mesmo, compreende?

TENÓRIO

Sim... é para sempre.

AUXILIAR

Ma-ra-vi-lho-so! Compreender o conceito é tudo o que pedimos. Não se preocupe se a coisa toda for demais para a sua cabecinha linda.

TENÓRIO

Eu preciso de um cigarro. Você tem...

AUXILIAR

Excelente! A primeira coisa já foi determinada. Você terá cigarros eternamente.

TENÓRIO

Sério?

AUXILIAR

Sim. Sua marca preferida, claro. A não ser que você queira mudar. Ainda está em tempo.

TENÓRIO

Não. Sem isso eu não fico. Pode colocar aí na ficha os cigarros infinitos.

AUXILIAR

(anotando)

Fico feliz que tenha ficado satisfeito com a sua primeira escolha. Agora é a minha vez.

TENÓRIO

Como é?

AUXILIAR

Você escolhe uma coisa que você acha “ótima” ou “sensacional” e eu escolho uma que, bem... digamos que seja no mínimo desagradável.

TENÓRIO

Por que?

AUXILIAR

É uma questão de equilíbrio, compreende? Para nós seria mais fácil que você simplesmente ficasse vagando eternamente em um limbo sem nada para ver, fazer ou passar a eternidade... mas onde está a diversão nisso, não é mesmo?

TENÓRIO

É. Eu não tinha parado para pensar. Deve ser muito chato um limbo todo vazio pra sempre. Mas o que foi que você anotou aí?

AUXILIAR

Eu preferia que você não se preocupasse com isso, afinal não é como se você não fosse descobrir logo.

TENÓRIO

Mas se for uma coisa horrível demais? Eu não quero trocar uma eternidade recebendo ligações de telemarketing em troca de cigarros eternos. Eu quero ter uma idéia para saber o que vou pedir!

AUXILIAR

(faz um muxoxo, triste)

Ah, Tenório! Você não confia em mim?

TENÓRIO

Eu nem sei seu nome!

AUXILIAR

(volta ao normal)

Muito justo. Vamos dizer que todos os desprazeres anotados são igualmente proporcionais ao prazer obtido pela última escolha que você fez.

TENÓRIO

Hummm... certo. Câncer eu já sei que não terei...

AUXILIAR

Exato. Doenças e morte estão fora de questão. Pense em uma coisa positiva, Tenório! Pense em fadinhas! Filhotinhos de gato fofinhos acordando! Que coisa chata isso de pensar em doença! Já foi! É passado! Morreu e está enterrado.

TENÓRIO

Tá certo. Deixa eu ver... ah! Já sei! Quero que o lugar seja do jeito que eu gosto. Um lugar legal que me agrade e sem capeta com tridente, caldeirões, queimação no fogo eterno. Também não quero um céu infinito cheio de anjos chatos tocando lira e pulando nuvenzinhas.

AUXILIAR

Isso, Tetê! Borbulhei de emoção agora! Deixa eu anotar aqui o revés...

TENÓRIO

(preocupado)

Ai, o revés!

AUXILIAR

Não vale espiar, coisa fofa. E o último pedido? Não vale pedir para ter mais pedidos, heim!

TENÓRIO

Sei, sei... espera um pouco... deixa eu pensar... já sei!

AUXILIAR

Sim?

TENÓRIO

Cerveja! Muita cerveja! A melhor cerveja já criada para sempre.

AUXILIAR

(anotando)

Ceeerto. Lager? Pilsen?

TENÓRIO

Pilsen.

AUXILIAR

Típico.

TENÓRIO

É o que gosto.

AUXILIAR

(se levantando)

Bem estereotipado isso, não é? Felizmente não estou aqui para julgar. Tenório, meu caro! Terminamos por aqui! Venha comigo. Vamos conhecer seu novo lar!

AMBOS atravessam a porta de saída.

FADE OUT

FADE IN

INT. BAR – INDIFERENTE

AMBOS entram por uma porta no fundo do bar, no balcão há um maço de cigarros e uma tulipa cheia de cerveja. Marteladas e outros sons são ouvidos.

TENÓRIO

Que barulho é esse?

AUXILIAR

(olhando para o bar)

É a obra aqui do lado. Está aí! É como você imaginava?

TENÓRIO

O bar é excelente, mas que barulho de obra é esse?

Os sons de obra cessam por um momento. Ambos pausam para prestar atenção. O som de obra reinicia.

AUXILIAR

É uma obra eterna. São só os sons, claro. Não há nada além do bar.

TENÓRIO

(anda na direção do balcão)

Que horror! Só mesmo ficando bêbado o tempo todo pra aguentar isso.

AUXILIAR

Bem... você já está no seu devido lugar. Eu tenho de atender outra almas que precisam ir para o inferno.

TENÓRIO

Inferno?

Os sons de obra cessam por um momento e reiniciam.

AUXILIAR

Claro, imbecil! Você acha que ter causado câncer em centenas de pessoas por fumo passivo nas últimas décadas, cortar o barato de todo mundo nos churrascos por onde passou e torcer para o América te levariam aonde?

TENÓRIO

Mas eu achei...

AUXILIAR

(imitando com voz fina de choro)

“Mas eu achei...” Ora! pelo menos você escolheu a sua danação! Não reclama, seu bosta!

TENÓRIO

(olha em volta)

Bem, até que para o inferno isso aqui não é tão ruim.

AUXILIAR

(andando em direção a porta)

Sei.

TENÓRIO

Pelo menos eu tenho cerveja.

Os sons de obra cessam. AUXILIAR abre a porta enquanto TENÓRIO dá um gole na cerveja.

TENÓRIO

(cospe um pouco da cerveja de volta no copo)

Pô! Tá quente!

CLOSE EM AUXILIAR que está fechando a porta atrás de si. Ele e se inclina, exibindo apenas a parte superior do tronco para imitar novamente TENÓRIO.

AUXILIAR

(imitando)

“Isso não é tão ruim!” Você deveria ter ficado com o fogo eterno, palhaço!

CLOSE em TENÓRIO olhando para a ponta do cigarro apagado em sua boca. SOM em OFF de porta batendo.

TENÓRIO

Puta merda!

O som de obra reinicia.

FADE OUT

INT. FLORICULTURA – TARDE

Loja repleta de arranjos e vasos com flores diversas. Atrás do balcão está o FLORISTA borrifando água em um cactus. Entra pela porta da rua o FREGUÊS.

FREGUÊS

Boa tarde!

FLORISTA

Boa tarde. Em que posso ajudá-lo?

FREGUÊS

Você poderia me ajudar a escolher um arranjo de flores?

FLORISTA

Será um prazer. Você tem alguma preferida?

FREGUÊS

Tenho, mas as flores não são para mim.

FLORISTA

Sim, eu quis dizer se o senhor sabe quais são as preferidas da presenteada.

FREGUÊS

(desconfiado)

Como o senhor sabe que é uma “presenteada” e não um “presenteado”?

FLORISTA

(sorrindo com tom paternal)

Bem... normalmente mulheres são as mais presenteadas com flores. O senhor costuma ver homens recebendo flores?

FREGUÊS

(pondera)

É... acho que você tem razão.

FLORISTA

Pois bem. O senhor sabe qual é flor preferida da presenteada?

FREGUÊS

Crisântemos!

FLORISTA

Crisântemos?

FREGUÊS

Sim! Meu pai é um homem e costuma receber crisântemos de aniversário! Arrá!

FLORISTA

(formal)

E ele gosta de crisântemos?

FREGUÊS

Bem... acho que sim.

FLORISTA

(suspira)

Entendo. Me perdôe por perguntar, mas seu pai está morto, não é?

FREGUÊS

Sim.

FLORISTA

Certo. Mas não é o caso da moça presenteada, correto?

FREGUÊS

Não! Minha noiva está bem viva!

FLORISTA

Uma noiva! Excelente! Então podemos riscar crisântemos, palmas, cravos de defunto, antúrios, alstroemérias, bocas-de-leão, molucelas, gérberas...

FREGUÊS

Eu lembro de uma flor. Não lembro o nome dela, mas tinha um cheiro muito bom, pétalas finas, brancas... eu acho que dessa ela gostaria.

FLORISTA

Jasmim?

FREGUÊS

Exatamente!

FLORISTA

Ótimo! Quantas?

FREGUÊS

Quantas? Ora, uma!

FLORISTA

Só uma?

FREGUÊS

Claro! Uma é mais do que suficiente.

FLORISTA

Pois bem. Mas o senhor sabe o que isso significa?

FREGUÊS

Bem, acho que no mínimo fidelidade ou amor incondicional.

FLORISTA

Pelo contrário. É volúpia!

FREGUÊS

Veja lá como o senhor fala da minha noiva!

FLORISTA

Mil perdões! A sua noiva se chama Jasmim? Eu estava falando da flor de jasmim. O significado da flor é volúpia!

FREGUÊS

Aaah! A flor! Eu achei que...

FLORISTA

Oh, não! Não! Ainda bem que esclarecemos isso antes de que eu falasse sobre seu perfume e delicadeza. Bem, provavelmente o senhor irá querer ver outra flor.

FREGUÊS

Jacinto.

FLORISTA

Jacintos?

FREGUÊS

Não. Meu nome é Jacinto. Achei melhor esclarecer logo antes de algum outro mal entendido.

FLORISTA

(ligeiramente incrédulo)

O senhor se chama Jacinto e sua noiva se chama Jasmim?

FREGUÊS

Exatamente.

FLORISTA

É uma bela coincidência.

FREGUÊS

(segurando um vaso de flores)

Sim. Ambos nomes começam com a letra jota. Que tal essas?

FLORISTA

Acácias? Representam elegância.

FREGUÊS

Eu gosto. Elegância! Mas elegância para quem presenteia ou para quem é presentrado?

FLORISTA

Para quem vende, creio.

FREGUÊS

Todas as flores representam algo?

FLORISTA

Exatamente. Cada uma tem um significado próprio. Carregam em si uma mensagem personalizada.

FREGUÊS

Até esses copos de leite?

FLORISTA

Que copos de leite?

FREGUÊS

(apontando para um arranjo de copos de leite)

Esses.

FLORISTA

“Indiferença”. Ignore-os por favor.

FREGUÊS

(cansado)

Eu não tinha idéia de que isso era tão importante. Eu só pensei em dar umas flores...

FLORISTA

Mas é para isso que eu estou aqui. Para ajudá-lo com a escolha da flor perfeita para ser presenteada.

FREGUÊS

(descrente)

Você tem uma flor perfeita?

FLORISTA

Bem, todas são perfeitas nos olhos de quem vê a beleza de cada uma delas.

FREGUÊS

(impaciente)

Então me vê esse buquê dessas acácias por favor.

FLORISTA

Ah! Um buquê de acácias! Acácias quando em buquê têm o significado de “prova de amor”.

FREGUÊS

Sério?

FLORISTA

Eu temo que sim, mas temos centenas de outras opções.

FREGUÊS

(em tom cansado)

Quem inventa esse tipo de coisa?

FLORISTA

Hum?

FREGUÊS

Quem inventa esses significados?

FLORISTA

(ignorando)

Eu poderia sugerir a flor de laranjeira? Ela representa noivado.

FREGUÊS

Não é o que quero saber.

longa pausa

FLORISTA finge estar distraido, ignorando a pergunta. FREGUÊS finge limpar a garganta. FLORISTA tira de trás do balcão um vaso de flores.

FLORISTA

(esnobe)

Brinco de princesa? Significa superioridade.

FREGUÊS

(sério)

Quero saber quem criou essa barbaridade.

FLORISTA

(tira de trás do balcão outro vaso de flores)

Cravo amarelo: “Desdém”

FREGUÊS

(levemente irritado)

Eu te fiz uma pergunta!

FLORISTA

(tira de trás do balcão um vaso de flores)

Cardo: “Desprazer”.

FREGUÊS

(pega o vaso de flores de cardo e o levanta sobre a cabeça)

Eu quebro esse vaso se você não me responder!

FLORISTA

(tira de trás do balcão um vaso de flores)

Alfazema: “Calma”.

FREGUÊS pega o vaso e espatifa no chão.

FREGUÊS

Eu estou falando sério. Quem é o monstro por trás disso?

FLORISTA

(tira de trás do balcão um vaso de flores)

Dormideira: “Me deixe” ou “Vá embora”

FREGUÊS

O próximo eu quebro na sua cabeça!

FLORISTA

(tira de trás do balcão um vaso de flores)

Açucena: “Tristeza e Angústia”

FREGUÊS joga o vaso e FLORISTA se esquiva.

FREGUÊS

Quem inventa essas merdas?

FLORISTA

(tira de trás do balcão um vaso de flores)

Mimosa! “Segurança”!

FREGUÊS dá um soco na cara do FLORISTA, que cai no chão. FREGUÊS sai da loja.

FLORISTA

(com a mão no olho atingido)

AAaah! A genciana! A genciana!

FADE OUT

Mais um sketch com a contribuição dos meus followers do Twitter. Pedi, sem conjecturar a razão: o nome de um país europeu, um objeto do dia-a-dia e uma celebridade falecida.

Selecionei essas aqui: Isqueiro, Bulgária e Paul Newman.

FADE IN

INSERT em CARTÃO amarelado com os dizeres: “Bulgária, 1983 – Guerra Fria”

FADE TO

INT. Brechó – Tarde

Uma loja coberta de quinquilharias, móveis usados e algumas antiguidades. Um VELHO de aparência cansada lê um livro por trás do balcão. Um HOMEM, vestindo um sobretudo e chapéu entra na loja e faz o sino preso na porta tilintar. O velho o observa por um momento e volta a ler o livro. O HOMEM olha em volta antes de andar e alcança um papelão exibido na vitrine ao lado da porta.

HOMEM

(exibindo o CARTÃO do INSERT para o Velho)

Boa tarde, quanto isso custa?

VELHO

(olhando por cima do livro)

O cartão da Bulgária custa trinta reais. Objeto de colecionador.

HOMEM

Qual é a origem?

VELHO

Um filme do Paul Newman.

HOMEM

(tira um isqueiro do bolso)

Você trocaria por esse isqueiro?

VELHO

Sem dúvida alguma.

HOMEM se aproxima do VELHO que tira um envelope de papel pardo e o entrega. O HOMEM guarda o envelope dentro do seu sobretudo olhando para os lados.

HOMEM

Essas senhas novas estão ficando complicadas, não é?

VELHO

Pelo menos não se pode reclamar de falta de imaginação.

FADE OUT

heh.

EXT. Restaurante ao ar livre – Noite

FADE IN

As mesas estão vazias com exceção de uma, onde o ARTISTA distraidamente observa uma garrafa de bebida vazia em sua mesa e bebe de uma lata de refrigerante. Dobrado, no encosto da cadeira ao seu lado, há um casaco longo e espalhafatoso. Após um gole de refrigerante, ele repousa a lata sobre a mesa.

ENTRA em cena a CATADORA.

CATADORA

(apontando para a lata de refrigerante)

Tá vazia?

ARTISTA

(volta a si bruscamente)

O que foi?

CATADORA

O senhor terminou de beber?

ARTISTA

Que interessante!

pausa

CATADORA

A latinha tá vazia, moço? Posso pegar?

ARTISTA

Claro, claro.

ARTISTA pega a latinha para dar para a CATADORA, mas se refreia e a coloca de volta na mesa.

ARTISTA

Me desculpe. Pode pegar.

CATADORA

(ligeiramente desconfiada)

Pode?

ARTISTA

Oh sim, sim. Por favor. Eu quase a interrompi. Perdão.

CATADORA pega a latinha, a coloca no seu saco e começa a se afastar dali.

CATADORA

Obrigada moço, que Deus lhe ajude.

ARTISTA bate palmas e CATADORA para e o observa.

ARTISTA

Maravilhoso isso! Eu gostei muito de você.

CATADORA

O que foi, moço? É comigo?

ARTISTA

Me diz... há quanto tempo você faz isso?

CATADORA

Ah, moço. Não tem muito tempo não. Comecei tem dois dias.

ARTISTA

Magnífico! Você tem representação?

CATADORA

Ah. Não sei, seu moço. O que que é isso? Documento?

ARTISTA

(bate palmas)

Olha que coisa! E as falas são improviso?

CATADORA

Moço... eu vou me indo porque o preciso...

ARTISTA

(pegando o casaco da cadeira)

Não, não! Espera. Toma esse casaco!

CATADORA

O senhor tá me dando esse casaco?

ARTISTA

Sim, sim. Vista ele por favor.

CATADORA

É de graça?

ARTISTA

Você pode ficar com ele.

CATADORA

(pegando o casaco e vestindo)

O senhor é muito bondoso. Deus vai te ajudar muito nessa vida. Nem todo mundo tem a consideração pelos menos afortunados.

ARTISTA

(exaltado)

Sim.. sim! Ficou perfeito!

CATADORA

(distraída com o casaco)

Cor diferente, né?

ARTISTA

(pensativo)

Eu tenho uma apresentação hoje e gostaria que você viesse comigo.

CATADORA

(ainda observando os detalhes do casaco)

Olha moço, eu agradeço muito o senhor, mas daqui eu tenho que catar mais latinhas e...

ARTISTA pega uma garrafa da mesa e a quebra violentamente na cabeça da CATADORA. Ela fica zonza e tenta não tombar. Sangue começa a verter acima de sua têmpora. ARTISTA lhe tira um sapato e a segura momentaneamente para que ela não caia. Depois ARTISTA sai de cena com o sapato da CATADORA.

CATADORA larga o saco e coloca as mãos na ferida

CATADORA

(desnorteada)

Aaaahh... o que?

ARTISTA volta à cena com um copo d’água, oferece para a CATADORA e segura o saco de latas para ela.

ARTISTA

(tirando uma pílula do bolso)

Toma esse remédio com a água. Vai ajudar a dor.

CATADORA

Ai minha cabeça! O que aconteceu?

ARTISTA

Já vai passar. Toma o remédio. Você vai se sentir melhor.

CATADORA toma o remédio e bebe a água e deixa o copo cair. O copo se estilhaça no chão.

CATADORA

Meu sapato...

ARTISTA

(entusiasmado)

Sim... sem ele você ficará perfeita. Você será especial hoje.

CATADORA

O que? Minha cabeça... sangue...

ARTISTA

(amparando)

Sim. É importante também. Venha comigo... por aqui. Vou te ajudar.

CATADORA

(pisa nos cacos de vidro com o pé descalço)

Aaaii! Meu sapato. Cadê meu...

ARTISTA

Está no carro. Vem. Eu te levo.

CATADORA se apóia no ARTISTA durante a SAÍDA de cena.

FADE OUT

FADE IN.

INT. SALÃO DE EXPOSIÇÃO – Noite

Um salão de gala com pinturas na paredes, estátuas e dezenas de convidados vestidos à rigor. No meio do salão, sobre um pequeno pedestal, está a CATADORA aparentemente dopada e presa à uma coluna de mármore. Ela veste o casaco espalhafatoso, possui uma bandagem na cabeça em forma de chapéu côco, uma mancha de sangue lhe cobre metade do rosto e é possível ver outra escorrendo pelo pedestal na altura do seu pé descalço. Ao lado do pedestal está o ARTISTA sorrindo polidamente segurando o saco de latas atrás do corpo.

Um SENHOR se aproxima dos dois.

SENHOR

(observando a CATADORA)

A obra é... sublime.

ARTISTA

De nada.

SENHOR

Materialização desfragmentada... e tão equilibrada com rompimento das propostas conceituais e operacionais.

ARTISTA

É claro.

CATADORA geme de dor.

ARTISTA

Com licença.

ARTISTA alcança o saco e leva até os convidados. Cada um pega uma latinha de dentro dele. Ele retorna à sua posição ao lado do pedestal. Agora todos os convidados observam a CATADORA.

pausa

CATADORA começa a recobrar a consciência.

CATADORA

Onde...

ARTISTA dá um pequeno salto de pés juntos rodopiando 360º no ar e para no mesmo lugar. Imediatamente todos os convidados arremessam suas latas na CATADORA que começa a chorar com as latas atingindo seu corpo.

SENHOR

Magnífico.

ARTISTA

Foi também minha opinião.

SENHOR

Possui título?

ARTISTA coloca a mão dentro do saco, retira o sapato da CATADORA, e o exibe sobre as palmas da mão.

SENHOR murmura algo incompreensível enquanto enxuga com a mão uma lágrima que escorre sob sua face.

FADE OUT

EXT- Deserto ou ravina – Tarde

Doze homens reunidos em torno de JC.

JC

Chamei vocês hoje aqui para discutir a festa da noite passada.

TODOS murmuram entre si.

JC

Certos eventos ocorreram, a situação ficou meio fora de controle. Sei que bebi demais e, para que não seja a última festa, preciso esclarecer alguns pontos porque sinceramente, não lembro de mais da metade do que aconteceu.

PEDRO

(receoso)

Err... do que exatamente o senhor lembra?

JC

De muito pouco, Pedro. Sei que vocês querem seu lugar ao meu lado e que não esconderiam nada de mim, portanto quero a verdade. Eu fiz alguma bobagem?

PEDRO

Nããão! Imagina! O senhor foi um gentleman!

MATHEUS

Se você não falasse agora, eu nem saberia que o senhor tinha ficado bêbado.

JC

Sem puxar o saco, Matheus. Eu sei que bebi demais. André?

ANDRÉ

Hã?

JC

Você ficou encarregado dos convites. Você pode me explicar como é que tanta gente apareceu por lá? Devia ter umas três mil pessoas!

ANDRÉ

Bem... acho que a notícia se espalhou e...

JC

E você pode me explicar então porque essa notícia não foi junto com “Meninas trazem comida e meninos as bebidas?” Não tinha isso no convite? Como é que aquele monte de gente chega sem trazer nada?

ANDRÉ

Tinha... quer dizer... no começo tinha, mas eu tive um problema na gráfica.

JC

Que problema?

ANDRÉ

Eu tive que riscar essa parte porque ficou “Meninos tragam bebidas e meninas comidas”. Não ia pegar bem, sabe?

JC

É. Não ia. Tá certo. Isso eu posso perdoar, mas... nem umas coxinhas, pô? Mil pessoas! Precisei pedir a Madá pra fazer um PF improvisado. Sorte que ela é ótima na cozinha.

TODOS fazem uma expressão de nojo, mas tentam esconder.

JC

O que foi? Alguém discorda de mim?

Todos negam ao mesmo tempo e repetidamente sem convicção.

PEDRO

Imagina! Aquele peixe com pão tava delicioso.

JC

Também achei. E harmonizava maravilhosamente com o vinho que ela trouxe. Você provou o vinho, André?

ANDRÉ

Ma-ra-vi-lho-so! Néctar divino!

JC

Ela mesmo amassou aquelas uvas, como vocês sabem. Pedro?

PEDRO

Oh sim! Ambrosia dos céus!

JC

Matheus, você bebeu também, não é?

MATHEUS

Claro! Como não? O vinho da senhorita Madalena, a que o senhor tanto preza! Que todos nós prezamos imensamente! Vinho das uvas amassadas pelos celestiais e formosos...

TODOS concordam desconcertados. MATHEUS tapa rapidamente a boca, dá uma golfada e engole.

MATHEUS

(con’d)

Perdão, vomitei um pouco dentro da boca. Uhh... ufa... uh.. já passou. Desculpa. Como ia dizendo... amassada pelos celestiais e formosos pézinhos de Madalena! Nada poderia ser mais...

JC

Chega, Matheus! Deixa ver se eu entendi. Todos na festa beberam o vinho?

TODOS concordam.

JC

Todos, e digo todo mundo mesmo, comeram peixe e pão?

TODOS

(ao mesmo tempo)

Errr...

JC

Comeram?

TODOS concordam fingindo ainda mais.

JC

(pensativo)

Mas, espera! Se eram apenas um garrafão de vinho, uns cinco pães e dois peixes... um bando de gente esfomeada...

pausa

TODOS

(gritam e se ajoelham)

Milagre! É um milagre! Aleluia!

JC

É... só pode. Deve ter sido isso mesmo. Tá certo, mas da próxima vez quero uma reuniãozinha mais intimista. No máximo doze convidados e a gente vai manerar no pão e no vinho. Não quero ficar doidão de novo e fazer besteiras.

MATHEUS

Este é verdadeiramente o Profeta que há de vir ao mundo!

JC

Chega, Matheus!

FADE OUT

INT. RESTAURANTE – NOITE

Um TECLADISTA termina os últimos acordes de uma música e uma MOÇA se aproxima.

MOÇA

Com licença.

TECLADISTA

Sim? Você quer pedir uma música?

MOÇA

Não exatamente. Eu queria, se não fosse pedir muito, que você parasse de tocar enquanto eu como.

TECLADISTA

Olha, eu sinto muito se você não aprecia minha música, mas muita gente gosta e eu fui contratado para isso. Portanto me desculpe mas eu tenho de tocar.

MOÇA

Eu que peço desculpas. Não é que eu não goste. Você toca muito bem.

TECLADISTA

Então você não gosta dos estilos que eu toco? É isso? Bem... tem um restaurante tailandês no shopping aqui do lado e...

MOÇA

Não. A sua seleção musical é ótima. Me arrepiei toda quando você tocou “Saigon” do Emílio Santiago com o teclado fazendo som de banjo. Achei super corajoso.

TECLADISTA

Obrigado. Eu também uso som de teclado em algumas.

MOÇA

Eu notei... mas como ia dizendo, eu tenho um problema. Uma condição médica que me impede de comer quando estou ouvindo música.

TECLADISTA

O que?

MOÇA

O senhor já ouviu falar em sinestesia?

TECLADISTA

É alguma coisa a ver com adenóide? Tratamento nasal?

MOÇA

Não. É uma condição rara onde pessoas associam involuntariamente números ou letras com cores, ou sons com formas ou cores. Uma pessoa ao ouvir, por exemplo, a nota ré pode ter a visão de uma onda amarela seguindo na sua direção.

TECLADISTA

Que loucura.

MOÇA

Não chega a tanto, mas é uma condição neurológica mesmo.

TECLADISTA

Ou coisa do capeta. Você sofre mesmo disso?

MOÇA

Desde que nasci.

TECLADISTA

E vê cores no lugar dos números?

MOÇA

Não.

TECLADISTA

Vê o capeta?

MOÇA

Não! Eu não vejo nada. Quer dizer... eu não sou cega. Eu vejo as coisas normalmente.

TECLADISTA

Para que os óculos então?

MOÇA

Tá. Tirando um pouco de miopia eu vejo tudo bem. Meu problema é que tenho uma sinestesia mais rara ainda. Eu sinto gostos diferentes quando escuto músicas.

TECLADISTA

Como é?

MOÇA

Eu estava jantando ali e o senhor começou a tocar “Que Sera, Sera” agora a pouco, lembra?

TECLADISTA

Lembro. Toco toda semana. Uso sons de helicóptero no fim para dar uma idéia de partida ou chegada... depende da interpretação de quem ouve, claro.

MOÇA

Pois é. A minha interpretação foi experimentar o frango e sentir gosto de sabão.

TECLADISTA

Por que você não vai falar com o chef então? Ou o garçom. Pede para trocar por um medalhão.

MOÇA

Não. Eu te juro que foi a música. Logo em seguida você tocou “Guantanamera”...

TECLADISTA

Exatamente.

MOÇA

Então... aí passou para côco.

TECLADISTA

Côco não é tão ruim. Podia ter raspas de côco no seu prato.

MOÇA

Não é isso. Passou de sabão neutro para sabão de côco. Mas ainda era gosto de sabão.

TECLADISTA

(começa a arrumar as partituras em cima do teclado)

Olha, eu sinto muito pelo seu problema, mas tenho de voltar a tocar agora se não vão me mandar embora. Espero que compreenda.

MOÇA

Espera. O que você vai tocar?

TECLADISTA

(consultando suas partituras)

Deixa eu ver aqui... “Ìndia”, do Roberto.

MOÇA

Não, por favor! Eu tô morrendo de fome e essa música tem gosto de fronha usada.

TECLADISTA

Fronha usada?

MOÇA

É. Com uma semana de uso e alguns dias sem lavar a cabeça.

TECLADISTA

Tá bom, eu pulo essa. Que tal “Oceano”, do Djavan?

MOÇA

Tampa de caneta.

TECLADISTA

Tampa de caneta?

MOÇA

Bic.

TECLADISTA

Sei.

MOÇA

A cor eu não vejo, como disse, mas tenho impressão que é verde.

TECLADISTA

Tá. Tem essa do Jorge Vercilo...

MOÇA

Não! Todas tem gosto de Novalgina.

TECLADISTA

Argh!

MOÇA

Pois é.

TECLADISTA

Bem, mocinha... você conhece alguma música que harmonize bem com seu frango?

beat

A MOÇA volta para a mesa enquanto o TECLADISTA faz uma introdução ao piano

TECLADISTA

(com voz empolgada)

Essa é em homenagem à todos vocês que pediram Frango Kiev!

O TECLADISTA começa a tocar Titãs.

TECLADISTA

Peste bubônica, câncer, pneumonia, raiva, rubéola, tuberculose e anemia. Rancor, cisticircose, caxumba, difteria, encefalite, faringite, gripe e leucemia... e o pulso ainda pulsa...

Corta para plano fechado da MOÇA se deliciando com seu prato.

FADE OUT

INSERT TEXTUAL – “A discussão sobre a incrível história a respeito da escapada do Barão, fidalgo de muitas honras, que arriscou sua vida ao tentar sair de sua alva e terrível prisão para ir ao encontro de sua amada.”

INT. CENÁRIO de SALÃO ORNAMENTADO -- DIA

FADE IN

Dois atores vestidos como nobres europeus do séc. XVII se preparam rapidamente para uma apresentação ao vivo de um sketch. Verificam suas marcações de palco, ajustam roupa, conferem o figurino, recebem intruções em off da equipe de filmagem. ENTRA EM CENA UM CONTRA-REGRA segurando dálias de cartolina com as falas dos atores, que os informa sua posição durante as filmagens, depois ajoelha em primeiro plano, se posicionando de frente para os atores.

DUQUE

Ouvi dizer que o produtor-chefe vem assistir hoje o programa.

MARQUÊS

Não estou sabendo de nada e também não me importo muito. Eu sei que não dá tempo de decorar nada, ele sabe, a audiência sabe. É normal. Só relaxar e atuar.

DUQUE

Ouvi dizer que ele pode despedir alguém a qualquer momento e...

CONTRA-REGRA

(V.O.)

Atenção! Ao vivo! Teatro na TV! A Incrível História do Barão. No ar em 5, 4, 3...

DUQUE

Conte-me então a história do Barão! Apenas sei que fora trancafiado num casebre para que não pudesse alcançar a tempo a candidatura a pretendente da princesa.

MARQUÊS nota que o CONTRA-REGRA ainda não exibiu sua dália e improvisa de maneira natural.

MARQUÊS

História magnífica! Magnífica!

CONTRA-REGRA arruma as dálias.

DUQUE

(improvisando)

Mas conte por favor. Estou ansioso.

MARQUÊS

Sim. Por onde começar? Pelo comÉço. Arrann.. o comÊço! Voltava de uma caçada para casa, onde pretendia vestir-se apropriadamente para o baile real quando fora capturado por bandidos. Quando deu por si percebeu que havia sido nocauteado e jogado em um casebre longe das muralhas da cidade.

DUQUE

Que maldade! Que perfídia!

MARQUÊS

Sem dúvida! Lá estava o Barão aprisionado em meio sua sÉde pela retomada...

CONTRA-REGRA

Sêde!

MARQUÊS

Arran.. em meio sua sÊde pela retomada de sua sÊde.

CONTRA-REGRA

Séde!

MARQUÊS

Séde! A retomada de sua Séde! Sua Sêde pela retomada de sua Séde na cÓrte.

CONTRA-REGRA E MARQUÊS

(juntos)

CÔrte!

DUQUE

(improvisando nervoso)

Err... continue Marquês! Eu sei que é um tema difícil.

MARQUÊS

(improvisando)

Não... está tudo bem Duque. Lá estava o Barão aprisionado em meio sua SÊ-DE pela SÉ-DE da CÔR-TE. E não era apenas sua ganância abraçada ao desespero. Fôra também o terrível...

CONTRA-REGRA

FÓra!

MARQUÊS

(confuso)

O que?

CONTRA-REGRA

FÓra!

MARQUÊS

(percebendo o erro, mas vacilante)

Sim! FÓra também o terrível Côrte!

CONTRA-REGRA E MARQUÊS

(Juntos)

CÓrte!

MARQUÊS

(nervoso e falando mais pausadamente)

CÓrte! Córte! Eu sei! FÓ-RA também o terrível CÓR-TE em sua alma. O olhar de desprezo da princesa na noite anterior ao baile.

DUQUE

Que coisa horrível!

MARQUÊS

(saindo do personagem)

Nem me fale. Quem escreveu essas linhas?

CONTRA-REGRA confuso examina suas Dálias.

DUQUE pigarrea exageradamente.

MARQUÊS

(improvisando ao voltar ao personagem)

Foi Deus, claro. E ele... ele...

DUQUE

(nervoso)

Err... escreve certo por linhas tortas.

MARQUÊS

Perfeitamente.

O DUQUE e o MARQUÊS se olham constrangidos e nervosos sem saber o que dizer, até que o CONTRA-REGRA parece encontrar a dália certa e faz um sinal para os dois.

DUQUE

Mas vossa excelência contava...

MARQUÊS

Oh sim! Perdão! É que a experiência do Barão é terrível demais até para recordar.

DUQUE

Não imagino o que faria em seu lugar.

MARQUÊS

Sim! Em tal situação de extremo frio, gÊlo em pensar.

DUQUE

GÉlo!

MARQUÊS

(quase caindo em prantos)

GÉlo em pensar no que poderia fazer a respeito, se não me desesperar.

DUQUE

Acalme-se!

MARQUÊS

(saindo do personagem)

Não dá, Gustavo! Desse jeito eu largo essa por...

DUQUE

Marquês! Acalme-se marquês! Por favor!

MARQUÊS

Tá... sim.. sim. Me desculpe. Peço perdão.

DUQUE

Conte-mais por favor. Ele estava aprisionado no casebre...

MARQUÊS

Ele... estava aprisionado no casebre. Não havia ferramentas, apenas uma modesta mesa rudimentar com louças e talheres toscos. Lá fora o alvo cobertor de gelo...

Ao mencionar a palavra “gelo”, o CONTRA-REGRA faz menção de dizer algo, mas se refrea.

MARQUÊS

(cont’d)

...erquia-se acima do telhado e desprovido de luvas, suas mãos queimavam ao contato da neve. Ao mesmo tempo, há quase um dia e uma noite sem beber uma gota de líquido qualquer, sua sede...

Ao mencionar a palavra “sede”, o CONTRA-REGRA faz menção de dizer algo, mas se refrea novamente.

MARQUÊS

(cont’d)

... aumentava lhe trazendo um sofrimento insuportável.

DUQUE

Que atrocidade! Que carrasco implacável pode ser a natureza!

MARQUÊS

Sim, meu caro Duque! Entretanto a luz de uma idéia pôde-se mostrar ainda mais brilhante que a alvura da neve. Em cima da rústica e parca mobília o Barão identificou um copo e uma colher. Resolveu então abrir um túnel através do gelo com aquela colher!

DUQUE

Que homem genial!

MARQUÊS

E sua idéia foi maior! Se utilizar da neve para beber! Iria colhÉr!

CONTRA-REGRA

ColhÊr!

MARQUÊS

Cacete! De novo? Eu não tenho como adivinhar, Não é? Parece sacanagem isso!

DUQUE

Calma! Falta pouco! Respira!

MARQUÊS

(perdendo a compostura e saindo do personagem)

Aaaarrrh!!! O Barão! Esperto pra caramba, né? Filho da...

DUQUE

(interrompe apressado)

Condessa de Gergelim!

Beat

MARQUÊS

Gergelim??? De onde você...

O ÂNGULO DE VISÃO SE ABRE e podemos ver agora o DIRETOR sentado numa cadeira de costas para a câmera e com a cabeça apoiada nas mãos, como se estivesse chorando.

DUQUE

Foi... foi o melhor que... o pai do Barão conseguiu na época. Mas você dizia?

beat

PRODUTOR ENTRA EM CENA no primeiro plano e pára lado a lado com o DIRETOR enquanto observa os atores.

MARQUÊS

(falando pausadamente em voz alta e irritado)

GÉ-LO em pensar no GÊ-LO e na idéia de CO-LHÊR com a CO-LHÉR a neve! Sua SÊ-DE pela SÉ-DE da CÔR-TE FÔ-RA sua motivação, FÓ-RA o CÓR-TE em sua alma para CO-MÊ-ÇO de conversa! Pronto? Satisfeitos?

MARQUÊS sai de cena irritado.

PRODUTOR

(cochichando para o DIRETOR)

Impressionante. Esse povo que vem do teatro não consegue ler um texto de maneira natural!

FADE OUT

Sobre

O Flaming Circus é meu repositório de roteiros, vídeos, textos e outras produções envolvendo comédia. Uma espécie de portfolio online com criações em sub-gênero de humor e algumas homenagens. Sei lá... é o que eu mais gosto de fazer, sabe?

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