
Faltam 40min para dia 27, mas consegui postar a tempo. Hoje ainda é hoje. ;)
Conforme prometido, cá está o primeiro episódio de Rompantes. Essa é a primeira de quatro três partes onde trato das teorias furadas que tentam explicar a razão de um homem frequentar uma casa noturna, boate, gafieira ou qualquer coisa do gênero. Foi bem corrido, mas está aí. Espero que vocês curtam.
A Parte 2 está aqui!
Auxílio sonoro: clique no bichinho aí para ouvir o som dos ACORDES DRAMÁTICOS que me refiro inúmeras vezes nessa série de sketches.
INT. LOFT – NOITE
MIGUEL está sentado a mesa, jogando paciência. Há um telefone ao seu lado. O telefone toca e MIGUEL o atende.
MIGUEL
Doutor Miguel. Quem fala?
JORGE
Miguel, aqui é o Jorge.
MIGUEL
Eu não conheço nenhum Jorge.
JORGE
Nós nunca nos vimos... calma aí! Como assim não conhece nenhum Jorge? É um nome ridiculamente comum! Todo mundo conhece um Jorge.
MIGUEL
Eu não conheço nenhum. Com licença, mas do que se trata essa ligação?
JORGE
É complicado explicar assim, mas eu prefiro dar essa notícia para você antes que nos vermos cara a cara. Eu espero que você esteja sentado.
MIGUEL
Isso é trote, né?
JORGE
Não, Miguel. Eu não sei como posso dizer isso, mas aqui vai: você foi adotado.
ACORDES DRAMÁTICOS
MIGUEL
Quem está falando?
JORGE
É sério, Miguel. Você foi adotado quando era um bebê.
Música de fundo calma em OFF que aos poucos se torna um tema de suspense.
MIGUEL
(suspira)
Eu sei.
JORGE
Sabe?
MIGUEL
Sim. Nunca foi segredo. Meus pais me contaram quando eu tinha catorze anos. O que quero saber é quem é você e como você sabe disso.
JORGE
Bem... é outra parte complicada. Seus pais não te contaram sobre a sua família real?
MIGUEL
Eu só sei que eles morreram quando eu era criança. Quem é você?
JORGE
Miguel... eles não morreram.
MIGUEL fica estático por um momento.
JORGE
Miguel?
MIGUEL
É você, papai?
JORGE
Não! Seu pai morreu.
MIGUEL
Mas você....
JORGE
Mas sua mãe está viva.
ACORDES DRAMÁTICOS
MIGUEL
Mamãe?
JORGE
Não, Miguel! Não sou a mamãe! E Jorge seria um péssimo nome para uma mulher, convenhamos.
MIGUEL
Desculpa. Eu estou um pouco chocado com tudo isso. Quem é você?
JORGE
Eu... sou seu irmão.
beat
MIGUEL
(chocado)
Eu... eu tenho um irmão?
JORGE
Aparentemente sim. Olha... se a ligação cair é porque eu entrei em um elevador. Aí eu te ligo, tá?
MIGUEL
Ok. Quer dizer que eu tenho um irmão chamado Jorge?
JORGE
Doutor Jorge.
MIGUEL
(empolgado)
Você também é físico teórico?
JORGE
Não. Sou geneticista.
MIGUEL
(decepcionado)
Que curioso.
JORGE
Isso porque você ainda não sabe tudo.
MÚSICA dramática de suspense em crescendo.
MIGUEL
(empolgado)
Mas eu quero saber! Eu quero ver você! Como podemos nos encontrar? Tenho tanta coisa para perguntar! Onde você mora?
JORGE
Roraima.
MIGUEL
(decepcionado)
Ah.
JORGE
Eu também quero te ver, meu irmão. E hoje se possível.
MIGUEL
Mas eu moro em São Paulo. Aí em Roraima eu não sei, mas aqui já são nove da noite e daqui até o aeroporto... com o trânsito...
JORGE
Eu estou em São Paulo, Miguel.
MIGUEL
(exaltado)
Onde?
JORGE
Na porta do seu apartamento.
A MÚSICA cessa repentinamente.
A campainha toca com um som de “DING DONG DIING”. ACORDES DRAMÁTICOS. MIGUEL se assusta e olha na direção da porta. PAN rápido com CLOSE na porta.
FADE OUT
.
Auxílio sonoro: clique no bichinho aí para ouvir o som dos ACORDES DRAMÁTICOS que me refiro inúmeras vezes nessa série de sketches.
FADE IN
INT. LOFT – NOITE
MIGUEL abre a porta do apartamento para JORGE.
POV de MIGUEL que se apavora com o que vê e grita de medo.
JORGE
(em off)
Calma, Miguel.
MIGUEL
(dando passos para trás)
Você! Eu! Você sou eu!
JORGE
Não, eu sou seu irmão gêmeo!
ACORDES DRAMÁTICOS. PLANO ABERTO. Surge JORGE, atravessando a porta, idêntico a MIGUEL com exceção de um cavanhaque e roupas diferentes.
JORGE fecha a porta. Os dois se aproximam lentamente e examinam um o rosto do outro.
MIGUEL
Gêmeo! Que fascinante!
JORGE
Sim... é quase como olhar no espelho.
MIGUEL
(agora bem próximo de JORGE)
Seus olhos são como os meus.
JORGE
Sim.. e sua boca.
Os dois olham para os lados envergonhados e se afastam disfarçando o contrangimento, andando pela sala.
MIGUEL
Você disse que queria me ver hoje. Por que hoje? Por que agora?
JORGE
É complicado também.
MIGUEL
Mais complicado que isso? Eu acabo de descobrir que tenho um irmão tem dois minutos e há um minutos eu descubro que ele é gêmeo e está no meu apartamento!
JORGE
Infelizmente a razão que me traz aqui foi a mesma que me fez descobrir a sua existência. Diz respeito a nossa mãe.
MIGUEL
(preocupado)
Ela está bem?
JORGE
Oh! Sim, sim! Ela está ótima. Uma saúde impressionante. Não é isso. É sobre ela e meu trabalho.
MIGUEL
(se senta)
Estou ouvindo.
JORGE
Bem... eu espero que como um homem da ciência, nós possamos conversar de igual para igual.
MIGUEL
Nós já somos bem iguais.
JORGE
Sim, isso é verdade. Como eu havia lhe dito, sou um geneticista e trabalho em um projeto altamente secreto e controverso. Meses atrás comecei a trabalhar paralelamente em casa em um... digamos assim, projeto particular. Você já levou trabalho para casa, Miguel?
MIGUEL
Bem... algumas vezes. Durante um ano tentei aperfeiçoar uma teoria de super cordas que me permitiria viajar entre universos paralelos e...
JORGE
(interrompendo)
Sim, sim. Fascinante, mas vamos falar um pouco sobre a realidade se você não se importa.
MIGUEL faz menção de reclamar, mas JORGE o ignora e continua a falar
JORGE
Eu criei algo muito temido pela humanidade, irmão. Algo que era esperado que acontecesse. Eu... me clonei.
ACORDES DRAMÁTICOS.
MÚSICA dramática em crescendo.
MIGUEL
(incrédulo)
O que?
JORGE
Eu me clonei e mantive meu clone em segredo por semanas. Não sabia o que fazer com ele. Um dia mamãe entrou para limpar meu quarto... eu havia esquecido de trancar a porta e ela nos flagrou conversando.
MIGUEL
Você vive com a sua mãe?
JORGE
Não é hora para ficar com ciúme, Miguel! O caso é que ela achou que eu estivesse falando com você. Ela achou que nós haviamos descoberto sobre a adoção e foi assim que descobri a história toda.
MIGUEL
Meu Deus! E... e o que você disse para ela?
JORGE
Eu dei um copo de água com açúcar para ela, mas primeiro dissolvi uns tranquilizantes pesados na mistura e no dia seguinte fiz ela acreditar que havia sonhado com tudo aquilo.
MIGUEL
Certo... quer dizer, não tem nada certo nessa história toda, mas pelo menos agora eu sei como você descobriu sobre a adoção. O que eu não entendo é porque você teve de vir para cá hoje.
JORGE se encaminha até a porta.
JORGE
É o clone, Miguel. Ele não pode mais ficar lá em casa. Mataria mamãe do coração. Foi por isso que eu o trouxe aqui.
MÚSICA cessa.
JORGE abre a porta.
JORGE
Miguel, eu lhe apresento George!
ACORDES DRAMÁTICOS.
GEORGE entra. Ele é igual a JORGE com exceção das roupas, do queixo sem barba e de um bigode.
CLOSE em MIGUEL boquiaberto.
CLOSE em GEORGE.
GEORGE
(dando tchau)
Oi!
FADE OUT
.
Será que o Mateus Solano ficaria interessado no papel?

INT. LOFT – NOITE
MIGUEL e JORGE estão sentados no sofá. GEORGE está em pé em um canto jogando um videogame portátil com fones de ouvido.
MIGUEL
Meu Deus!
JORGE
Deus não tem nada a ver com isso, Miguel. George é fruto de pura engenharia genética. O primeiro clone humano funcional!
MIGUEL
Eu não acredito que você fez isso! As implicações éticas!
JORGE
Ah, Miguel! Por favor! Somos ambos homens da ciência! Eu esperava que você pudesse compreender a revolução que isso significa para a humanidade! Ou no mínimo meu gênio científico!
MIGUEL
Desculpa se minha primeira reação não foi bater palmas, chorar e lhe indicar para o Prêmio Nobel, mas se ponha em meu lugar. Agora eu tenho dois irmãos! É o dobro do que eu tinha há cinco minutos e antes disso eu... dois é quantas vezes mais do que zero?
JORGE
Isso não importa. O que importa é que preciso que você o hospede por uns dias até eu pensar no que fazer com ele.
MIGUEL
Olha, não é como se eu não quisesse ajudar, mas eu não sei se é uma boa idéia. Eu trabalho o tempo todo e...
JORGE
Não me venha com essa, Miguel. Eu sei muito bem que você foi demitido. Eu pesquisei a sua vida antes de chegar aqui.
JORGE aponta para o baralho em cima da mesa.
JORGE
(cont’d)
Você deve passar o dia inteiro jogando paciência e chorando por não ter conseguido realizar seus objetivos profissionais. Você pode muito bem cuidar do George por uns dias. Vai te fazer bem a companhia.
MIGUEL
Eu estava prestes a conseguir contactar outras dimensões, sabia? Universos paralelos... calma aí! Cuidar do George? Como assim “cuidar”?
JORGE
Bem... como posso dizer isso? É complicado...
MIGUEL
De novo? O quão complicado isso pode ficar?
JORGE
(olha para GEORGE)
Apesar de fisicamente aparentar nossa idade, George ainda não é intelectualmente um adulto. A experiência de uma vida não pode ser clonada ainda, irmão. George mentalmente tem cerca de catorze anos.
MIGUEL
Catorze? Como você determina...
Ambos olham para GEORGE, que percebe que está sendo observado e tira um dos fones do ouvido.
GEORGE
(para MIGUEL)
Oi. O senhor tem Cheetos?
JORGE
Fica óbvio com o tempo. Você tem Cheetos? Eu também não comi nada desde o almoço.
MIGUEL
Eu devo ter alguns biscoitos na cozinha. Fique a vontade.
JORGE
Vamos, George. Vamos procurar algo para comer.
JORGE e GEORGE se afastam para a área da cozinha.
MIGUEL está pensativo quando percebe que alguns objetos em cima da mesa e nas estantes começam a tremer. MÚSICA de suspense em crescendo.
Rapidamente um tremor envolve todo o apartamento. MIGUEL se segura na poltrona com medo olhando para todos os lados quando um pequeno raio azul passa perto da sua cabeça.
O raio é seguido por clarões de luzes e raios coloridos. MIGUEL cobre parcialmente os olhos com as mãos para se protejer da luz enquanto tenta olhar para o vórtex que se abre em sua sala.
De dentro do vórtex surge um homem idêntico à ele com exceção das roupas e de um par de costeletas enormes.
MÚSICA cessa com os ACORDES DRAMÁTICOS.
FADE OUT

INT. LOFT – NOITE
FADE IN
MIGUEL está aterrorizado no sofá olhando para RONALDO que está olhando em volta o apartamento e ainda não o viu.
RONALDO
Funcionou! É como se eu não estivesse deixado meu loft, mas as a arrumação da sala...
RONALDO finalmente percebe MIGUEL e dá um rápido grito de espanto. MIGUEL responde com um grito mais longo. JORGE e GEORGE entram em cena, vindos da cozinha. JORGE vê RONALDO e grita também. RONALDO grita em resposta. MIGUEL se levanta e grita também. GEORGE fica confuso e dá um longo grito, abanando as mãos e foge para a cozinha saindo de cena.
RONALDO para de gritar e fica constrangido.
RONALDO
(para MIGUEL e apontando para a cozinha)
Tá tudo bem com ele?
MIGUEL
Quem...
RONALDO
Sou uma versão sua de outra realidade!
MIGUEL
Você... você veio de outra dimensão paralela?
RONALDO
(triunfante)
Sim! Eu finalmente consegui! Atravessei um portal para uma outra dimensão.
JORGE
Ah, saco. Lá se vai o meu Nobel. Vou acalmar o GEORGE.
JORGE sai de cena para a cozinha.
MIGUEL
Então, funciona mesmo! Eu achava que estava ficando louco. Todo mundo no trabalho me ridicularizou! É realmente possível viajar através de universos semelhantes.
RONALDO
Sim, mas nunca pensei que existisse um universo que todos se parecessem comigo. De certa forma fico até lisonjeado.
MIGUEL
Não, aquele é o JORGE, meu irmão gêmeo.
RONALDO
Que interessante. Na minha realidade eu sou filho único aqui minha mãe teve trigêmeos!
JORGE e GEORGE entram em cena retornando da cozinha e comendo biscoitos.
MIGUEL
Na verdadade não somos trigêmeos. O George é um clone.
GEORGE se aproxima de RONALDO.
GEORGE
(estende o pacote)
Quer Cheetos?
RONALDO
(estudando o rosto de GEORGE)
Impressionante! Na sua dimensão a clonagem é uma coisa comum?
GEORGE
Cheetos?
RONALDO
Não, obrigado.
JORGE
A clonagem não é uma coisa comum! George é o primeiro clone do mundo.
RONALDO
Fascinante!
JORGE
(sorrindo sem jeito)
Fui eu que fiz!
MIGUEL
Esquece o clone! Me diz como você conseguiu resolver a Equação de Boring!
RONALDO
Ah, isso? É... complicado.
MIGUEL anda lentamente para a mesa e se senta em uma das cadeiras com uma expressão exausta. GEORGE imita o gesto se sentando ao seu lado e olhando todos com expressão abobada e maravilhada.
MIGUEL
Eu preciso de uma bebida.
GEORGE
(estende um copo de achocolatado)
Quer toddinho?
JORGE
(se dirigindo para a cozinha)
Eu vi uma garrafa de vinho paraguaio na geladeira. A safra é excelente.
RONALDO se senta à mesa.
MIGUEL
(em tom de desespero)
Eu quero fugir daqui! Eu quero ir para uma dimensão sem irmão gêmeo geneticista ou clone. Me diz como você resolveu a Equação de Boring!
RONALDO
Bem, pode-se dizer que eu tive uma ajuda externa ou mais ou menos isso. Eu não sei bem como explicar de uma maneira simples...
JORGE volta da cozinha com tulipas de choppe e uma garrafa de barro.
JORGE
Vinho para todo mundo!
GEORGE
(bate palmas)
Yey!
JORGE
(servindo o vinho nas tulipas)
Menos o clone.
GEORGE
(decepcionado)
Aahhn.
JORGE se senta a mesa.
JORGE
Muito bem.. agora que você chegou aqui. O que pretende fazer?
RONALDO
Eu preciso esperar o vórtex dimensional se abrir novamente. Eu programei para daqui a quatro horas.
JORGE
Eu tinha um vôo marcado para casa, mas com essa comoção toda já perdi a hora do check-in. Vou ter de pegar o próximo antes do almoço.
MIGUEL
E o que a gente faz enquanto isso?
JORGE, RONALDO e MIGUEL se entreolham constrangidos.
GEORGE
Partidinha de buraco?
Todos encolhem os ombros em sinal de aprovação.
JORGE
(começa a arrumar o baralho)
Eu corto.
FADE OUT.
.
.
.
.
Continuação em TAG FINAL
Todos estão jogando buraco.
RONALDO
Eu nunca teria jogado essa carta.
MIGUEL
Ora, cale-se! Sua dupla não tem um clone com idade mental de uma criança.
JORGE
Ele não é uma criança. É um jovenzinho muito esperto.
GEORGE sorri e faz uma jogada.
JORGE
Excelente, garoto!
Um clarão surge similar ao clarão do vórtex. Todos protegem a vista parcialmente com as mãos.
JORGE
É o seu vórtex dimensional?
RONALDO
Não, mas já vi isso antes!
Um vórtex se abre e dele surge MARCELO, um homem igual a todos os outros personagens com exceção de uma roupa prateada, óculos escuros, camisa com gola em “v” e uma barba curta e bem aparada.
MARCELO
Eu vim do futuro para ajudá-lo com a equação de...
MARCELO então vê todos jogando buraco.
MARCELO
(levantando os óculos dos olhos)
Que diabos?
RONALDO
Chegou tarde. Já expliquei para ele toda a equação.
MIGUEL
(sorrindo amarelo)
Xis é igual a zero.
pausa.
MARCELO
É buraco?
JORGE
(sem tirar os olhos das cartas)
Tesoura, papel e pedra com a dupla que perder.
MARCELO puxa uma cadeira e se senta junto à mesa e observa o jogo com interesse.
GEORGE
Bati!
MIGUEL
Merda.
FADE OUT
MIGUEL, RONALDO e MARCELO
(em off e em uníssono)
1, 2, 3 e...
ACORDES DRAMÁTICOS
MIGUEL, RONALDO e MARCELO
(em off e em uníssono)
Pedra!
MIGUEL
(em off)
Eu odeio vocês.
FIM!
.
.

INT. FLORICULTURA – TARDE
Loja repleta de arranjos e vasos com flores diversas. Atrás do balcão está o FLORISTA borrifando água em um cactus. Entra pela porta da rua o FREGUÊS.
FREGUÊS
Boa tarde!
FLORISTA
Boa tarde. Em que posso ajudá-lo?
FREGUÊS
Você poderia me ajudar a escolher um arranjo de flores?
FLORISTA
Será um prazer. Você tem alguma preferida?
FREGUÊS
Tenho, mas as flores não são para mim.
FLORISTA
Sim, eu quis dizer se o senhor sabe quais são as preferidas da presenteada.
FREGUÊS
(desconfiado)
Como o senhor sabe que é uma “presenteada” e não um “presenteado”?
FLORISTA
(sorrindo com tom paternal)
Bem... normalmente mulheres são as mais presenteadas com flores. O senhor costuma ver homens recebendo flores?
FREGUÊS
(pondera)
É... acho que você tem razão.
FLORISTA
Pois bem. O senhor sabe qual é flor preferida da presenteada?
FREGUÊS
Crisântemos!
FLORISTA
Crisântemos?
FREGUÊS
Sim! Meu pai é um homem e costuma receber crisântemos de aniversário! Arrá!
FLORISTA
(formal)
E ele gosta de crisântemos?
FREGUÊS
Bem... acho que sim.
FLORISTA
(suspira)
Entendo. Me perdôe por perguntar, mas seu pai está morto, não é?
FREGUÊS
Sim.
FLORISTA
Certo. Mas não é o caso da moça presenteada, correto?
FREGUÊS
Não! Minha noiva está bem viva!
FLORISTA
Uma noiva! Excelente! Então podemos riscar crisântemos, palmas, cravos de defunto, antúrios, alstroemérias, bocas-de-leão, molucelas, gérberas...
FREGUÊS
Eu lembro de uma flor. Não lembro o nome dela, mas tinha um cheiro muito bom, pétalas finas, brancas... eu acho que dessa ela gostaria.
FLORISTA
Jasmim?
FREGUÊS
Exatamente!
FLORISTA
Ótimo! Quantas?
FREGUÊS
Quantas? Ora, uma!
FLORISTA
Só uma?
FREGUÊS
Claro! Uma é mais do que suficiente.
FLORISTA
Pois bem. Mas o senhor sabe o que isso significa?
FREGUÊS
Bem, acho que no mínimo fidelidade ou amor incondicional.
FLORISTA
Pelo contrário. É volúpia!
FREGUÊS
Veja lá como o senhor fala da minha noiva!
FLORISTA
Mil perdões! A sua noiva se chama Jasmim? Eu estava falando da flor de jasmim. O significado da flor é volúpia!
FREGUÊS
Aaah! A flor! Eu achei que...
FLORISTA
Oh, não! Não! Ainda bem que esclarecemos isso antes de que eu falasse sobre seu perfume e delicadeza. Bem, provavelmente o senhor irá querer ver outra flor.
FREGUÊS
Jacinto.
FLORISTA
Jacintos?
FREGUÊS
Não. Meu nome é Jacinto. Achei melhor esclarecer logo antes de algum outro mal entendido.
FLORISTA
(ligeiramente incrédulo)
O senhor se chama Jacinto e sua noiva se chama Jasmim?
FREGUÊS
Exatamente.
FLORISTA
É uma bela coincidência.
FREGUÊS
(segurando um vaso de flores)
Sim. Ambos nomes começam com a letra jota. Que tal essas?
FLORISTA
Acácias? Representam elegância.
FREGUÊS
Eu gosto. Elegância! Mas elegância para quem presenteia ou para quem é presentrado?
FLORISTA
Para quem vende, creio.
FREGUÊS
Todas as flores representam algo?
FLORISTA
Exatamente. Cada uma tem um significado próprio. Carregam em si uma mensagem personalizada.
FREGUÊS
Até esses copos de leite?
FLORISTA
Que copos de leite?
FREGUÊS
(apontando para um arranjo de copos de leite)
Esses.
FLORISTA
“Indiferença”. Ignore-os por favor.
FREGUÊS
(cansado)
Eu não tinha idéia de que isso era tão importante. Eu só pensei em dar umas flores...
FLORISTA
Mas é para isso que eu estou aqui. Para ajudá-lo com a escolha da flor perfeita para ser presenteada.
FREGUÊS
(descrente)
Você tem uma flor perfeita?
FLORISTA
Bem, todas são perfeitas nos olhos de quem vê a beleza de cada uma delas.
FREGUÊS
(impaciente)
Então me vê esse buquê dessas acácias por favor.
FLORISTA
Ah! Um buquê de acácias! Acácias quando em buquê têm o significado de “prova de amor”.
FREGUÊS
Sério?
FLORISTA
Eu temo que sim, mas temos centenas de outras opções.
FREGUÊS
(em tom cansado)
Quem inventa esse tipo de coisa?
FLORISTA
Hum?
FREGUÊS
Quem inventa esses significados?
FLORISTA
(ignorando)
Eu poderia sugerir a flor de laranjeira? Ela representa noivado.
FREGUÊS
Não é o que quero saber.
longa pausa
FLORISTA finge estar distraido, ignorando a pergunta. FREGUÊS finge limpar a garganta. FLORISTA tira de trás do balcão um vaso de flores.
FLORISTA
(esnobe)
Brinco de princesa? Significa superioridade.
FREGUÊS
(sério)
Quero saber quem criou essa barbaridade.
FLORISTA
(tira de trás do balcão outro vaso de flores)
Cravo amarelo: “Desdém”
FREGUÊS
(levemente irritado)
Eu te fiz uma pergunta!
FLORISTA
(tira de trás do balcão um vaso de flores)
Cardo: “Desprazer”.
FREGUÊS
(pega o vaso de flores de cardo e o levanta sobre a cabeça)
Eu quebro esse vaso se você não me responder!
FLORISTA
(tira de trás do balcão um vaso de flores)
Alfazema: “Calma”.
FREGUÊS pega o vaso e espatifa no chão.
FREGUÊS
Eu estou falando sério. Quem é o monstro por trás disso?
FLORISTA
(tira de trás do balcão um vaso de flores)
Dormideira: “Me deixe” ou “Vá embora”
FREGUÊS
O próximo eu quebro na sua cabeça!
FLORISTA
(tira de trás do balcão um vaso de flores)
Açucena: “Tristeza e Angústia”
FREGUÊS joga o vaso e FLORISTA se esquiva.
FREGUÊS
Quem inventa essas merdas?
FLORISTA
(tira de trás do balcão um vaso de flores)
Mimosa! “Segurança”!
FREGUÊS dá um soco na cara do FLORISTA, que cai no chão. FREGUÊS sai da loja.
FLORISTA
(com a mão no olho atingido)
AAaah! A genciana! A genciana!
FADE OUT

EXT- Deserto ou ravina – Tarde
Doze homens reunidos em torno de JC.
JC
Chamei vocês hoje aqui para discutir a festa da noite passada.
TODOS murmuram entre si.
JC
Certos eventos ocorreram, a situação ficou meio fora de controle. Sei que bebi demais e, para que não seja a última festa, preciso esclarecer alguns pontos porque sinceramente, não lembro de mais da metade do que aconteceu.
PEDRO
(receoso)
Err... do que exatamente o senhor lembra?
JC
De muito pouco, Pedro. Sei que vocês querem seu lugar ao meu lado e que não esconderiam nada de mim, portanto quero a verdade. Eu fiz alguma bobagem?
PEDRO
Nããão! Imagina! O senhor foi um gentleman!
MATHEUS
Se você não falasse agora, eu nem saberia que o senhor tinha ficado bêbado.
JC
Sem puxar o saco, Matheus. Eu sei que bebi demais. André?
ANDRÉ
Hã?
JC
Você ficou encarregado dos convites. Você pode me explicar como é que tanta gente apareceu por lá? Devia ter umas três mil pessoas!
ANDRÉ
Bem... acho que a notícia se espalhou e...
JC
E você pode me explicar então porque essa notícia não foi junto com “Meninas trazem comida e meninos as bebidas?” Não tinha isso no convite? Como é que aquele monte de gente chega sem trazer nada?
ANDRÉ
Tinha... quer dizer... no começo tinha, mas eu tive um problema na gráfica.
JC
Que problema?
ANDRÉ
Eu tive que riscar essa parte porque ficou “Meninos tragam bebidas e meninas comidas”. Não ia pegar bem, sabe?
JC
É. Não ia. Tá certo. Isso eu posso perdoar, mas... nem umas coxinhas, pô? Mil pessoas! Precisei pedir a Madá pra fazer um PF improvisado. Sorte que ela é ótima na cozinha.
TODOS fazem uma expressão de nojo, mas tentam esconder.
JC
O que foi? Alguém discorda de mim?
Todos negam ao mesmo tempo e repetidamente sem convicção.
PEDRO
Imagina! Aquele peixe com pão tava delicioso.
JC
Também achei. E harmonizava maravilhosamente com o vinho que ela trouxe. Você provou o vinho, André?
ANDRÉ
Ma-ra-vi-lho-so! Néctar divino!
JC
Ela mesmo amassou aquelas uvas, como vocês sabem. Pedro?
PEDRO
Oh sim! Ambrosia dos céus!
JC
Matheus, você bebeu também, não é?
MATHEUS
Claro! Como não? O vinho da senhorita Madalena, a que o senhor tanto preza! Que todos nós prezamos imensamente! Vinho das uvas amassadas pelos celestiais e formosos...
TODOS concordam desconcertados. MATHEUS tapa rapidamente a boca, dá uma golfada e engole.
MATHEUS
(con’d)
Perdão, vomitei um pouco dentro da boca. Uhh... ufa... uh.. já passou. Desculpa. Como ia dizendo... amassada pelos celestiais e formosos pézinhos de Madalena! Nada poderia ser mais...
JC
Chega, Matheus! Deixa ver se eu entendi. Todos na festa beberam o vinho?
TODOS concordam.
JC
Todos, e digo todo mundo mesmo, comeram peixe e pão?
TODOS
(ao mesmo tempo)
Errr...
JC
Comeram?
TODOS concordam fingindo ainda mais.
JC
(pensativo)
Mas, espera! Se eram apenas um garrafão de vinho, uns cinco pães e dois peixes... um bando de gente esfomeada...
pausa
TODOS
(gritam e se ajoelham)
Milagre! É um milagre! Aleluia!
JC
É... só pode. Deve ter sido isso mesmo. Tá certo, mas da próxima vez quero uma reuniãozinha mais intimista. No máximo doze convidados e a gente vai manerar no pão e no vinho. Não quero ficar doidão de novo e fazer besteiras.
MATHEUS
Este é verdadeiramente o Profeta que há de vir ao mundo!
JC
Chega, Matheus!
FADE OUT

INT. RESTAURANTE – NOITE
Um TECLADISTA termina os últimos acordes de uma música e uma MOÇA se aproxima.
MOÇA
Com licença.
TECLADISTA
Sim? Você quer pedir uma música?
MOÇA
Não exatamente. Eu queria, se não fosse pedir muito, que você parasse de tocar enquanto eu como.
TECLADISTA
Olha, eu sinto muito se você não aprecia minha música, mas muita gente gosta e eu fui contratado para isso. Portanto me desculpe mas eu tenho de tocar.
MOÇA
Eu que peço desculpas. Não é que eu não goste. Você toca muito bem.
TECLADISTA
Então você não gosta dos estilos que eu toco? É isso? Bem... tem um restaurante tailandês no shopping aqui do lado e...
MOÇA
Não. A sua seleção musical é ótima. Me arrepiei toda quando você tocou “Saigon” do Emílio Santiago com o teclado fazendo som de banjo. Achei super corajoso.
TECLADISTA
Obrigado. Eu também uso som de teclado em algumas.
MOÇA
Eu notei... mas como ia dizendo, eu tenho um problema. Uma condição médica que me impede de comer quando estou ouvindo música.
TECLADISTA
O que?
MOÇA
O senhor já ouviu falar em sinestesia?
TECLADISTA
É alguma coisa a ver com adenóide? Tratamento nasal?
MOÇA
Não. É uma condição rara onde pessoas associam involuntariamente números ou letras com cores, ou sons com formas ou cores. Uma pessoa ao ouvir, por exemplo, a nota ré pode ter a visão de uma onda amarela seguindo na sua direção.
TECLADISTA
Que loucura.
MOÇA
Não chega a tanto, mas é uma condição neurológica mesmo.
TECLADISTA
Ou coisa do capeta. Você sofre mesmo disso?
MOÇA
Desde que nasci.
TECLADISTA
E vê cores no lugar dos números?
MOÇA
Não.
TECLADISTA
Vê o capeta?
MOÇA
Não! Eu não vejo nada. Quer dizer... eu não sou cega. Eu vejo as coisas normalmente.
TECLADISTA
Para que os óculos então?
MOÇA
Tá. Tirando um pouco de miopia eu vejo tudo bem. Meu problema é que tenho uma sinestesia mais rara ainda. Eu sinto gostos diferentes quando escuto músicas.
TECLADISTA
Como é?
MOÇA
Eu estava jantando ali e o senhor começou a tocar “Que Sera, Sera” agora a pouco, lembra?
TECLADISTA
Lembro. Toco toda semana. Uso sons de helicóptero no fim para dar uma idéia de partida ou chegada... depende da interpretação de quem ouve, claro.
MOÇA
Pois é. A minha interpretação foi experimentar o frango e sentir gosto de sabão.
TECLADISTA
Por que você não vai falar com o chef então? Ou o garçom. Pede para trocar por um medalhão.
MOÇA
Não. Eu te juro que foi a música. Logo em seguida você tocou “Guantanamera”...
TECLADISTA
Exatamente.
MOÇA
Então... aí passou para côco.
TECLADISTA
Côco não é tão ruim. Podia ter raspas de côco no seu prato.
MOÇA
Não é isso. Passou de sabão neutro para sabão de côco. Mas ainda era gosto de sabão.
TECLADISTA
(começa a arrumar as partituras em cima do teclado)
Olha, eu sinto muito pelo seu problema, mas tenho de voltar a tocar agora se não vão me mandar embora. Espero que compreenda.
MOÇA
Espera. O que você vai tocar?
TECLADISTA
(consultando suas partituras)
Deixa eu ver aqui... “Ìndia”, do Roberto.
MOÇA
Não, por favor! Eu tô morrendo de fome e essa música tem gosto de fronha usada.
TECLADISTA
Fronha usada?
MOÇA
É. Com uma semana de uso e alguns dias sem lavar a cabeça.
TECLADISTA
Tá bom, eu pulo essa. Que tal “Oceano”, do Djavan?
MOÇA
Tampa de caneta.
TECLADISTA
Tampa de caneta?
MOÇA
Bic.
TECLADISTA
Sei.
MOÇA
A cor eu não vejo, como disse, mas tenho impressão que é verde.
TECLADISTA
Tá. Tem essa do Jorge Vercilo...
MOÇA
Não! Todas tem gosto de Novalgina.
TECLADISTA
Argh!
MOÇA
Pois é.
TECLADISTA
Bem, mocinha... você conhece alguma música que harmonize bem com seu frango?
beat
A MOÇA volta para a mesa enquanto o TECLADISTA faz uma introdução ao piano
TECLADISTA
(com voz empolgada)
Essa é em homenagem à todos vocês que pediram Frango Kiev!
O TECLADISTA começa a tocar Titãs.
TECLADISTA
Peste bubônica, câncer, pneumonia, raiva, rubéola, tuberculose e anemia. Rancor, cisticircose, caxumba, difteria, encefalite, faringite, gripe e leucemia... e o pulso ainda pulsa...
Corta para plano fechado da MOÇA se deliciando com seu prato.
FADE OUT

INT. BANCO / FILA DOS CAIXAS -- TARDE
Uma fila em forma de zigue e zague. Caixas trabalhando ao fundo e pessoas esperando sua vez. O MOÇO é o último da fila até a chegada do HOMEM que ao tomar seu lugar percebe no chão uma nota dobrada de cem reais. Rapidamente pisa nela com força, esticando a perna exageradamente e provocando barulho. O MOÇO à sua frente se assusta e olha para o HOMEM.
HOMEM
(fingindo alongar-se)
Opa! Alongamento, sabe? Eu tenho circulação ruim nas pernas e essas filas...
MOÇO
(se virando novamente)
Sei.
O HOMEM faz menção de se agachar para pegar a nota, mas uma MULHER chega na fila e ele se apruma.
HOMEM
Oi. Pode passar. Não estou com pressa não.
MULHER
Que gentileza!
HOMEM
O que não é a gentileza se não um dever natural de todo o ser humano, não é verdade?
MULHER
Agradecida.
A MULHER toma o lugar na fila, ficando de costas para ele. O HOMEM novamente tenta alcançar a nota, agachando-se e posicionando a cabeça muito próximo da bunda da MULHER, quando ela se vira subitamente.
MULHER
Sabe que... ué? Que isso?
HOMEM
(se levantando assustado)
O que? Não. Eu... só parei para...para... amarrar o sapato.
MULHER
Mas o seu sapato não tem cadarço.
HOMEM
É mesmo? É mesmo!
MULHER
Por acaso o senhor é um pervertido desses que ficam filmando as calcinhas das moças com o celular e depois coloca na internet? Olha que eu chamo a polícia!
HOMEM
Existe esse tipo de coisa na internet?
MULHER
Não se faça de inocente! O que o senhor estava fazendo aí agachado atrás de mim?
HOMEM
A senhorita entendeu errado. É apenas um mal entendido. Eu abaixei porque tenho má circulação nas pernas. Só isso. É que na hora que a senhora virou eu fiquei nervoso.
MULHER
Má circulação?
HOMEM
Justamente. Quando venho pra fila do banco faço até uns alongamentos. Pode perguntar pro moço aí da frente. Antes da senhorita chegar eu estava me alongando.
MULHER
Não. Não precisa não. Deixa quieto. Mas vê lá, heim?
A MULHER se vira novamente.
HOMEM
A senhorita ia dizer alguma coisa?
MULHER
O que?
HOMEM
Quando a senhora se virou. A senhorita ia me dizer alguma coisa.
MULHER
Ah... ia comentar sobre esse senhor na minha frente. Acho que ele perdeu alguma coisa.
Os dois olham para o MOÇO da frente procurando algo no chão.
HOMEM
Ih. Acho que perdeu mesmo.
MULHER
Será que foi dinheiro?
HOMEM
Nããão! Se fosse, alguém já teria achado.
MULHER
Isso é. De repente é uma caneta.
HOMEM
(Tirando uma caneta do bolso)
Uma caneta! Deve ser isso mesmo. Eu tenho uma aqui. Oferece para ele emprestado se ele tiver perdido.
MULHER
Eu acho que te julguei mal. É a segunda vez que o senhor faz uma gentileza desde que eu cheguei na fila. Me desculpe.
HOMEM
Imagina. Quem não vive para servir não serve para viver.
MULHER
Profundo isso. Espera um minutinho que eu vou falar com ele.
MULHER pega a caneta e vai falar com o MOÇO da frente (em off / segundo plano).
HOMEM olha para os lados para se certificar que ninguém o observa quando nota o SEGURANÇA do banco passando por perto.
HOMEM
Ai meu ca...
MULHER surge do outro lado do zigue e zague da fila, supreendendo o HOMEM.
MULHER
Tá aqui a caneta!
HOMEM
(assustado)
O que? Ah! Obrigado. Ele já terminou de usar?
MULHER
Não. Ele disse que não precisa. Deve ter perdido outra coisa.
HOMEM
Ah!
MULHER
A fila andou finalmente.
HOMEM
É mesmo? É mesmo!
MULHER
(gracejando)
O senhor vai ficar parado aí que nem um dois de paus?
HOMEM
Eu? Ah, hahaha.. sabe o que é? Me deu uma dormência na perna...
MULHER
Ah que chato! Mas é só andar que passa. Se ainda fosse câimbra...
HOMEM
Aaai!
MULHER
O que foi?
HOMEM
Câimbra!
MULHER
(saindo de cena)
Nossa! Deixa eu chamar alguém para te ajudar!
HOMEM
Não precisa!
O MOÇO percebe novamente o HOMEM, desconfia do que está acontecendo e se aproxima.
MOÇO
Está tudo bem com o senhor?
HOMEM
Ah. Sim sim... é só uma câimbra. Dói horrores.
MOÇO
Sei. Na perna direita, né?
HOMEM
É. Dizem que é falta de potássio.
MOÇO
Dizem que se levantar a perna, melhora.
HOMEM
Não. Não dizem não!
MOÇO
Sempre ouvi dizer.
HOMEM
É tudo boato! Crendice popular sem fundamento.
MOÇO
Eu tenho quase certeza que se o senhor levantar a perna, seu problema termina.
HOMEM
Bobagem. Ainda corro o risco de me apoiar na perna esquerda e ela ficar também com câimbra.
MOÇO
Segurança!
HOMEM
O que é isso? Segurança para que?
MOÇO
Para... auxiliar o senhor. Ele vai saber lidar com o seu caso. Assim é capaz do senhor até ir para a fila do atendimento especial. Pode deixar que quando ele chegar eu explico tudinho.
HOMEM
Não é preciso tanto também. Olha! A fila andou. Você vai ficar parado aí que nem um dois de paus?
MOÇO
Agora estou preocupado com o senhor.
HOMEM
É muita gentileza sua.
MOÇO
(fingindo amabilidade)
Culpamos as pessoas das quais não gostamos pelas gentilezas que nos demonstram... Friedrich Nietzsche.
HOMEM
(resmungando)
Ai, cacete...
Entram a MULHER e o SEGURANÇA. Ele empurra uma cadeira de rodas.
MULHER
(apontando para o HOMEM)
Está aí! Não consegue nem andar.
HOMEM
Também não é para tanto, minha gente.
SEGURANÇA
O senhor não se preocupe. É só sentar aqui. Eu te ajudo.
HOMEM
Não devo.
SEGURANÇA
Não deve?
MOÇO
Deve sim.
HOMEM
O senhor é enfermeiro treinado?
SEGURANÇA
Bem...não, mas eu posso ajudar...
HOMEM
Sem querer lhe faltar com o respeito, mas dá para ver que o senhor é forte e sem conhecimento técnico em enfermagem ou medicina é capaz do senhor me machucar. Pode acabar deslocando meu ombro, quebrando meu braço, rompendo uma artéria...
MOÇO
Imagina. Ele é pago para isso.
MULHER
Pago para machucar os clientes?
MOÇO
Não. Para ajudar clientes que se recusam a andar na fila.
MULHER
Ai meu deus! A fila! O senhor guardou o meu lugar?
MOÇO
Infelizmente agora é tarde. Vim em socorro desse senhor e só saio daqui quando ele voltar a andar.
MULHER
(se senta na cadeira de rodas)
Ah, cansei! Vou esperar a fila terminar sentada aqui mesmo.
SEGURANÇA
Na verdade não.
HOMEM
O que?
SEGURANÇA
Na verdade eu não sou pago para isso.
HOMEM
Exato! E aposto que ainda assim não te dão o merecido valor pelo seu serviço aqui, não é mesmo?
SEGURANÇA
O sindicato está até discutindo salário com os donos do banco...
HOMEM
Não é momento de discussão. É momento de ação!
MOÇO
Exatamente. Se move aí.
HOMEM
Não me interrompa. Meu colega segurança... é o momento das massas se levantarem e defenderem seu lugar.
SEGURANÇA
É?
MOÇO
O que diabos você tá dizendo?
HOMEM
O que eu estou dizendo é que o nosso colega aqui não é pago para ser enfermeiro e que poderia me machucar se resolvesse me sentar nessa cadeira. Isso causaria uma ação na justiça da minha pessoa, o cliente, para com essa instituição, o banco, que acarretaria no mínimo a demissão desse funcionário modelo. Imagine vocês. Mesmo munido das melhores intenções, o simples ato de me auxiliar a sentar na cadeira de rodas faria com que... o senhor é casado?
SEGURANÇA
Sou.
HOMEM
Tem filhos?
MULHER (em segundo plano) apóia a cabeça na mão e começa a dormir na cadeira.
SEGURANÇA
Duas meninas.
HOMEM
(cont’d)
... faria com que suas meninas e sua mulher não tivessem mais comida na mesa ou até um teto sob suas cabeças. Uma desgraça!
SEGURANÇA
Vendo por esse ângulo...
MOÇO (em segundo plano) aponta a câmera do celular para as pernas da MULHER.
HOMEM
Leve essa cadeira daqui, meu bom homem! Não é necessário o senhor colocar em jogo seu futuro, o futuro da sua esposa e o futuro das suas filhas.
SEGURANÇA
(saindo de cena com a cadeira e a MULHER sentada nela)
Eu agradeço muito o senhor por ter me informado disso tudo. Obrigado pela gentileza...
HOMEM
Gentileza gera gente ilesa.
MOÇO, indignado, vai atrás do SEGURANÇA tentando impedí-lo de abandonar a cena.
O HOMEM abaixa para pegar o dinheiro e percebe que confundiu-se. A nota é de dois reais.
HOMEM
(Faz menção de andar, mas sente a perna doendo)
Ai, cacete! E dois reais não cobre nem meu couvert artístico.
EXT. Pátio / Dia
A cena ocorre quase completamente em PLANO AMERICANO ou PLANO MÉDIO. Os três personagens conversam enquanto uma série de EXTRAS caminham de um lado para o outro em segundo plano.
A CORRETORA carrega uma prancheta com uma folha de papel.
CORRETORA
(verifica rapidamente a prancheta)
A construção é antiga, de 1931, mas já passou por três obras. Em 2000 foi refeita toda a parte elétrica e em 2003 foram instalados os elevadores.
HOMEM
(olhando para os lados)
É, mas ainda assim tem muita escada aqui e ali.
MULHER
Mas tem até escada rolante. Eu acho chique morar em um lugar que tem escada rolante.
CORRETORA
Sem contar que a parte exterior é toda coberta por mármore negro.
HOMEM
Pois é. Meio sinistro isso, né? Parece coisa de cemitério.
MULHER
Eu gostei do teto pintado de azul como se fosse o céu. Muito bonito com aquelas nuvenzinhas.
CORRETORA
É um imóvel único. Vocês não terão vizinhos nem em cima nem embaixo de vocês. Muita privacidade...
HOMEM
Tirando esse pátio. Pelo que eu entendi é de acesso público, certo?
CORRETORA
O pátio é coletivo e de acesso público, mas compensa pela vista. Não existe vista melhor na cidade.
HOMEM
É... isso eu tenho de concordar.
CORRETORA
(lendo a descrição em sua prancheta)
Uma vista de trezentos e sessenta graus você consegue vislumbrar bairros da Zonal Sul, Norte e Centro da cidade. Setecentos e nove metros acima do mar.
MULHER
(apontando para longe)
Até dá pra ver a nossa casa! Olha lá, môr.
PLANO ABERTO exibindo os três descendo um lance de escadas com a estátua do Cristo Redentor logo acima do lance, ao fundo.
HOMEM
Bem, acho que já vimos o que´tinhamos de ver. Eu não estou bem certo se queremos alugar o local. O preço está um pouco salgado. Principalmente o condomínio...
FADE OUT
Continuação em TAG FINAL (de preferência para ser inserido entre outros sketches de um mesmo programa).
INT. Ambiente cercado de janelas e pessoas – DIA
MULHER
Pena que o condomínio estava muito caro. Eu adorei ter a vista de lá.
HOMEM
A nossa vista não é tão ruim assim e eu nem podia utilizar aquele pátio para construir uma cozinha mineira...
MULHER
Acho chato voltar para casa sem ter encontrado nada hoje.
HOMEM
Assim que a gente chegar eu vou procurar na internet outra corretora, benzinho.
LONG SHOT dos dois subindo de bondinho o Pão de Açúcar.
INT. APARTAMENTO -- Indiferente
PROFESSOR
(abrindo a porta)
Quem é?
ASSASSINO entra com duas mulheres sob a mira de um revólver.
ASSASSINO
Professor Pasquale! Boa tarde!
PROFESSOR
O que é isso?
ASSASSINO
Não se preocupe, professor. Vocês duas! Fiquem juntas com o Professor Pasquale!
PROFESSOR
Olha, está aqui minha carteira...
ASSASSINO
Não quero o seu dinheiro! Eu quero saber qual das duas irá morrer primeiro. Só isso.
PROFESSOR
Elas estão doentes? Eu não sou médico...
ASSASSINO
Não é nada disso. Quero saber qual das duas mato primeiro.
PROFESSOR
Deve haver algum engano! Eu nem conheço essas moças!
ASSASSINO
Kelly e Letícia: Professor Pasquale. Professor Pasquale: Kelly e Letícia.
KELLY E LETÍCIA
Prazer. Muito prazer.
PROFESSOR
Oi. E quem é você?
ASSASSINO
Eu sou... o Assassino do Alfabeto.
PROFESSOR
Aquele que escolhe a vítima pela sequência alfabética dos nomes?
ASSASSINO
Exatamente. O que o senhor esperava? Que eu matasse letrinhas?
PROFESSOR
Não, mas...
ASSASSINO
Chega de papo. Então? Qual das duas morre primeiro?
PROFESSOR
Eu não estou entendendo.
ASSASSINO
Se o senhor não está, imagine eu! Vim aqui para confirmar com um especialista as novas regras da língua portuguesa. É verdade que incluíram K, W e Y no alfabeto português? Isso já está em vigor?
PROFESSOR
Sim. Está, mas...
ASSASSINO
Então é a Kelly!
KELLY
AAaaahhh! Não me mata!
PROFESSOR
(corrigindo)
Não me “mate”!
ASSASSINO
Não importa, professor! Essa inculta nunca mais cometerá esse erro.
ASSASSINO mira na cabeça de KELLY.
PROFESSOR
Não! Espera! Ainda não é obrigatório!
ASSASSINO
Como é?
PROFESSOR
Ainda não é obrigatória a mudança. O Brasil tem até 2012 para efetuar a transição das novas regras da língua.
ASSASSINO
Até 2012? Assim não dá. E agora?
PROFESSOR
Não sei! Por que você não esquece isso e se entrega para a polícia?
ASSASSINO
Mas eu seria preso! Não seria muito prático para mim. Imagine ter de continuar meu trabalho na cadeia para chegar na letra ípsolon e não encontrar nenhum detento chamado Yuri. Não, não... nada prático.
PROFESSOR
Então volta para sua casa e esquece a gente aqui. Em 2012 você pode retornar às suas atividade. Tire umas férias prolongadas...
ASSASSINO
(pondera por um momento)
Hummm... não, não. Tem toda essa história do mundo acabar em 2012. Não sou homem de deixar serviço por fazer. Tem de haver outra maneira.
PROFESSOR
Bem... não dá para matar as duas ao mesmo tempo!
ASSASSINO
Genial, professor! O senhor é um gênio. Como posso fazer isso?
PROFESSOR
Eu disse que não dá par...Eu não sei. Eu estou nervoso. Por favor não me mate!
ASSASSINO
Não vou matá-lo.
PROFESSOR
Não?
ASSASSINO
Quer dizer... ainda não. Em algumas semanas talvez. O seu nome começa com a letra “P”... eu costumo matar uma pessoa por semana (com exceção as duas de hoje, que será serviço dobrado)... o senhor tem aí mais umas cinco semanas de vida! Até lá a gente resolve toda essa questão antes que eu chegue no “w”.
PROFESSOR
Você é louco!
ASSASSINO
Não vou te matar, mas posso atirar nas suas duas pernas. Não crie um ambiente hostil, professor! Estamos todos aqui para colaborar com um problema em comum, entendeu?
PROFESSOR
Sim. Perdão.
ASSASSINO
Então? Como matar as duas ao mesmo tempo? Se eu enfileirar as duas e atirar, uma vai receber a bala antes da outra. Poderia ser tanto a Kelly quanto a Letícia.
ASSASSINO aproxima o revólver da cabeça de LETÍCIA.
LETÍCIA
Não! Por favor! Não me mata!
ASSASSINO
(olha para PROFESSOR)
Não é irritante? O senhor acabou de explicar...
PROFESSOR
Olha... se você atirar nas duas não significa que as elas morrerão ao mesmo tempo. Uma pode sobreviver por mais um segundo ou dois.
ASSASSINO
É verdade... não posso deixar esse furo. Já sei! Coloco as duas em uma banheira cheia d´água e jogo uma televisão em cima delas. O choque vai matar as duas ao mesmo tempo.
PROFESSOR
Mas eu não tenho uma banheira.
ASSASSINO
Uma bacia serve.
PROFESSOR
Eu também não tenho televisão.
ASSASSINO
Por que todo intelectual cisma Com essa mania? Água pelo menos você tem?
PROFESSOR
Com o salário de professor...
ASSASSINO
Eu poderia jogar as duas ao mesmo tempo pela janela... a velocidade de queda é sempre constante.
PROFESSOR
Não funcionaria.
ASSASSINO
Você tem razão. Uma está de vestido e a outra de calça jeans. Perderiam a sincronia durante a queda por causa da aerodinâmica e...
PROFESSOR
Eu moro no segundo andar.
ASSASSINO
Ah é.
ASSASSINO
(cont’d)
Bem... não tem outro jeito. Coloco uma bala na cabeça das duas e sequestro o senhor até que se passe cinco semanas. Aí te mato e ninguém saberá o que aconteceu exatamente aqui. Minha reputação como Assassino do Alfabeto continuará intacta. Resolvido.
ASSASSINO aponta o revólver para KELLY e LETÍCIA, que se desesperam ainda mais.
KELLY
(aos prantos)
Eu não quero morrer!
PROFESSOR
(se coloca na frente da arma, junto às moças)
Não faça isso, meu amigo! Elas são jovens! Possuem toda uma vida pela frente!
PROFESSOR
(cont’d)
Essa é praticamente uma criança. Qual é o seu nome mesmo?
KELLY
(enxugando as lágrimas)
Kelly... Kelly Luisa.
PROFESSOR
(saindo rapidamente da frente de KELLY)
Odeio nome composto. Paciência...
FADE OUT com som de tiro disparado.
COLD TAG
INT. Quarto -- Noite
Sentado em uma mesa iluminada por uma luminária, ASSASSINO consulta a lista telefônica ao som de “ABC” dos Jacksons Five.
ASSASSINO
Wellington Vaz... Wellington Vieira... Wellington Xavier!
FADE OUT
INT. BAR/RESTAURANTE -- DIA
FADE IN
Duas amigas sentadas a mesa terminando de comer a sobremesa, quando uma repara nos óculos da outra. Ela aproxima uma das mãos da lente do óculos da amiga, que levemente se retrai assustada.
MULHER 1
Calma aí que tem um cílio nos seus óculos.
MULHER 2
Ai... tira.
MULHER 1
Aperta ele com o seu dedo no meu e a gente faz um pedido.
As duas unem um de seus polegares em torno do cílio e o pressionam.
MULHER 2
Pronta?
MULHER 1
Pronta.
MULHER 2
Tira!
Elas afastam as mãos e examinam os polegares à procura do cílio. Ele está no polegar da MULHER 1.
MULHER 1
Iêii! O desejo é meu!
MULHER 2
(fingindo tristeza)
Ah... nem meu cílio me ajuda. Que sorriso é esse?
MULHER 1
Estou pensando no meu desejo.
MULHER 2
Huummm... não pode contar né? Se não, não se realiza.
MULHER 1
Pois é. Hihihi
MULHER 2
Olha! Caiu outro cílio meu!
MULHER 1
Oba!
MULHER 2
Poxa! Dessa vez tem de ser meu o pedido!
Elas repetem o ritual.
MULHER 1
Pronta?
MULHER 2
Pronta! E você?
MULHER 1
Tira!
MULHER 2
Iêi! Outro pedido! Vivaaaa!
MULHER 1
Sacanagem! Isso é injusto!
MULHER 2
E o melhor é que o primeiro pedido se realizou.
MULHER 1
Como assim?
MULHER 2
Pedi que todos os seus cílios caíssem. Olha outro ali! Peguei.
MULHER 1
Como é?
MULHER 2
Pedi que todos os seus cílios caíssem. Assim a gente teria um monte de desejos para gente!
MULHER 1
Cacete! Caiu outro! Como você me faz um pedido desse?
MULHER 2
Não esquenta não! Quando cair o último a gente pede pra todos crescerem de novo bem rapidinho, ok? Tá pronta?
FADE OUT
Sobre
O Flaming Circus é meu repositório de roteiros, vídeos, textos e outras produções envolvendo comédia. Uma espécie de portfolio online com criações em sub-gênero de humor e algumas homenagens. Sei lá... é o que eu mais gosto de fazer, sabe?
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- RT @juliana_cunha: John Cusack fará o escritor Edgar Allan Poe no cinema http://ow.ly/2w1rl // :0 medo (por razões erradas) 1 week ago
- @ronaldrios E aí? Decidiu em que cidade vai residir? Já estou montando as coisas no apê. 1 week ago
- @FabioPorchat Eu estava e fiz a fina de não tietar ninguém e só protestar mesmo. :) 2 weeks ago
- @ronaldrios Se tivesse avisado antes eu teria dado um pulo aí pra fazer merda pela cidade com vocês. 2 weeks ago
- Sério que tem um candidato do PT do B chamado Cláudio Henrique Barack Obama? Porra... não tem Colbert Report melhor do que horário eleitoral 3 weeks ago
- E a bolha imobiliária em São Paulo começa a estourar. http://bit.ly/b6Ck2e Já era tempo. 3 weeks ago
- @ReneFraga Pois é... mas as pessoas curtem um lance ruim. Ruim é pop. Eu curtia o Pownce, mas ninguém queria usar. 3 weeks ago
- Tu achas que só a propaganda política no Brasil é constrangedora? Saca os vídeos do Basil Marceaux. http://bit.ly/abHyIF 1 month ago
- @ReneFraga Sim... eu te falei isso em 2007 e você tá repetindo agora. 1 month ago
- @danidias heh Eu já sabia. ;) 1 month ago


