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EXT. Restaurante ao ar livre – Noite

FADE IN

As mesas estão vazias com exceção de uma, onde o ARTISTA distraidamente observa uma garrafa de bebida vazia em sua mesa e bebe de uma lata de refrigerante. Dobrado, no encosto da cadeira ao seu lado, há um casaco longo e espalhafatoso. Após um gole de refrigerante, ele repousa a lata sobre a mesa.

ENTRA em cena a CATADORA.

CATADORA

(apontando para a lata de refrigerante)

Tá vazia?

ARTISTA

(volta a si bruscamente)

O que foi?

CATADORA

O senhor terminou de beber?

ARTISTA

Que interessante!

pausa

CATADORA

A latinha tá vazia, moço? Posso pegar?

ARTISTA

Claro, claro.

ARTISTA pega a latinha para dar para a CATADORA, mas se refreia e a coloca de volta na mesa.

ARTISTA

Me desculpe. Pode pegar.

CATADORA

(ligeiramente desconfiada)

Pode?

ARTISTA

Oh sim, sim. Por favor. Eu quase a interrompi. Perdão.

CATADORA pega a latinha, a coloca no seu saco e começa a se afastar dali.

CATADORA

Obrigada moço, que Deus lhe ajude.

ARTISTA bate palmas e CATADORA para e o observa.

ARTISTA

Maravilhoso isso! Eu gostei muito de você.

CATADORA

O que foi, moço? É comigo?

ARTISTA

Me diz... há quanto tempo você faz isso?

CATADORA

Ah, moço. Não tem muito tempo não. Comecei tem dois dias.

ARTISTA

Magnífico! Você tem representação?

CATADORA

Ah. Não sei, seu moço. O que que é isso? Documento?

ARTISTA

(bate palmas)

Olha que coisa! E as falas são improviso?

CATADORA

Moço... eu vou me indo porque o preciso...

ARTISTA

(pegando o casaco da cadeira)

Não, não! Espera. Toma esse casaco!

CATADORA

O senhor tá me dando esse casaco?

ARTISTA

Sim, sim. Vista ele por favor.

CATADORA

É de graça?

ARTISTA

Você pode ficar com ele.

CATADORA

(pegando o casaco e vestindo)

O senhor é muito bondoso. Deus vai te ajudar muito nessa vida. Nem todo mundo tem a consideração pelos menos afortunados.

ARTISTA

(exaltado)

Sim.. sim! Ficou perfeito!

CATADORA

(distraída com o casaco)

Cor diferente, né?

ARTISTA

(pensativo)

Eu tenho uma apresentação hoje e gostaria que você viesse comigo.

CATADORA

(ainda observando os detalhes do casaco)

Olha moço, eu agradeço muito o senhor, mas daqui eu tenho que catar mais latinhas e...

ARTISTA pega uma garrafa da mesa e a quebra violentamente na cabeça da CATADORA. Ela fica zonza e tenta não tombar. Sangue começa a verter acima de sua têmpora. ARTISTA lhe tira um sapato e a segura momentaneamente para que ela não caia. Depois ARTISTA sai de cena com o sapato da CATADORA.

CATADORA larga o saco e coloca as mãos na ferida

CATADORA

(desnorteada)

Aaaahh... o que?

ARTISTA volta à cena com um copo d’água, oferece para a CATADORA e segura o saco de latas para ela.

ARTISTA

(tirando uma pílula do bolso)

Toma esse remédio com a água. Vai ajudar a dor.

CATADORA

Ai minha cabeça! O que aconteceu?

ARTISTA

Já vai passar. Toma o remédio. Você vai se sentir melhor.

CATADORA toma o remédio e bebe a água e deixa o copo cair. O copo se estilhaça no chão.

CATADORA

Meu sapato...

ARTISTA

(entusiasmado)

Sim... sem ele você ficará perfeita. Você será especial hoje.

CATADORA

O que? Minha cabeça... sangue...

ARTISTA

(amparando)

Sim. É importante também. Venha comigo... por aqui. Vou te ajudar.

CATADORA

(pisa nos cacos de vidro com o pé descalço)

Aaaii! Meu sapato. Cadê meu...

ARTISTA

Está no carro. Vem. Eu te levo.

CATADORA se apóia no ARTISTA durante a SAÍDA de cena.

FADE OUT

FADE IN.

INT. SALÃO DE EXPOSIÇÃO – Noite

Um salão de gala com pinturas na paredes, estátuas e dezenas de convidados vestidos à rigor. No meio do salão, sobre um pequeno pedestal, está a CATADORA aparentemente dopada e presa à uma coluna de mármore. Ela veste o casaco espalhafatoso, possui uma bandagem na cabeça em forma de chapéu côco, uma mancha de sangue lhe cobre metade do rosto e é possível ver outra escorrendo pelo pedestal na altura do seu pé descalço. Ao lado do pedestal está o ARTISTA sorrindo polidamente segurando o saco de latas atrás do corpo.

Um SENHOR se aproxima dos dois.

SENHOR

(observando a CATADORA)

A obra é... sublime.

ARTISTA

De nada.

SENHOR

Materialização desfragmentada... e tão equilibrada com rompimento das propostas conceituais e operacionais.

ARTISTA

É claro.

CATADORA geme de dor.

ARTISTA

Com licença.

ARTISTA alcança o saco e leva até os convidados. Cada um pega uma latinha de dentro dele. Ele retorna à sua posição ao lado do pedestal. Agora todos os convidados observam a CATADORA.

pausa

CATADORA começa a recobrar a consciência.

CATADORA

Onde...

ARTISTA dá um pequeno salto de pés juntos rodopiando 360º no ar e para no mesmo lugar. Imediatamente todos os convidados arremessam suas latas na CATADORA que começa a chorar com as latas atingindo seu corpo.

SENHOR

Magnífico.

ARTISTA

Foi também minha opinião.

SENHOR

Possui título?

ARTISTA coloca a mão dentro do saco, retira o sapato da CATADORA, e o exibe sobre as palmas da mão.

SENHOR murmura algo incompreensível enquanto enxuga com a mão uma lágrima que escorre sob sua face.

FADE OUT

Nota: Acho importante exercitar o nonsense. Só isso.

INT. SALA – INDIFERENTE

Reunião em uma sala com 5 pessoas, SENHOR X está de pé. Os outros sentados, olham para ele. Um dos homens em uma cadeira a parte é o COORDENADOR de orientação do grupo e tem um bloco e uma caneta na mão.

SENHOR X

Oi, Eu sou o Senhor X e faz seis meses que eu...

COORDENADOR

Espera!

SENHOR X

O que foi?

COORDENADOR

Como assim, “Senhor X”?

SENHOR X

“Senhor X”, oras. Sou eu.

COORDENADOR

Mas seu nome é X?

SENHOR X

Claro que não, mas não é para revelar minha identidade, correto?

COORDENADOR

É importante para criar um clima de confiança que cada um compartilhe...

SENHOR X

Olha... é minha primeira vez aqui. Eu não sei bem as regras. Eu achei que cada um escolhia o pseudônimo.

COORDENADOR

Não é assim que funciona.

SENHOR X

Você que escolhe então? Por que se for, eu prefiro ter um nome legal. “Senhor X” eu achei que causava um certo respeito. Passa uma noção de mistério também...

COORDENADOR

Ninguém escolhe pseudônimos. Você tem dizer seu nome real. É importante para o grupo e para você que cada um possa compartilhar de maneira honesta...

SENHOR X

Eu não vou dizer meu nome. Espera aí. Aqui não é a reunião dos Alcoólicos Anônimos?

COORDENADOR

É, mas...

SENHOR X

Então não faz muito sentido eu dizer meu nome, não é? Afinal não vim aqui para autopromoção ou para fazer contatos. Estou aqui por causa da bebida.

COORDENADOR

Sim. Você está no lugar certo, mas o anonimato...

SENHOR X

Perdão! Quando disse que estou aqui por causa da bebida, não quis dizer que vim aqui para beber. Não é como se vocês tivessem um open-bar por aqui... vocês tem?

COORDENADOR

Não.

SENHOR X

Claro que não! É bom que isso fique esclarecido. Pois bem, eu sou o Senhor X e...

COORDENADOR

Espera... o anonimato que temos aqui é da porta para fora. Aqui dentro não somos anônimos um para o outro.

SENHOR X

Mas tem uma placa na porta dizendo “Alcoólicos Anônimos”. Eu entrei e o jornaleiro ali na calçada ficou me olhando como quem pensa “Mais um bebum!”. Não acho que é muito anônimo todo esse negócio se você coloca uma placa na porta dizendo o que se passa por aqui.

COORDENADOR

Bem... pode ser, mas mesmo assim não é nenhuma vergonha ser alcoólatra. Todos aqui somos..

SENHOR X

Você também?

COORDENADOR

Sim.

SENHOR X se senta pensativo.

COORDENADOR

De qualquer forma aqui não usamos pseudônimos, codinomes, apelidos ou qualquer outro tipo de...

CORONEL MOSTARDA

E o Zé?

COORDENADOR

O que?

CORONEL MOSTARDA

O Zé sempre usou apelido. Nunca soube o nome dele. Só chamo ele de “Zé”

É verdade.

SENHOR X

Se vale para um, tem de valer para todos. Prazer, Zé.

Prazer, Sr. X!

COORDENADOR

Mas todo mundo sabe que Zé é apelido para..

SENHOR X

Pode parar! Não quero saber! Zé pode ser apelido para Ezequiel, Josevaldo, Zeferino, Zerbini, Zeus... ninguém deve tirar conclusões apressadas.

COORDENADOR

Zerbini?

SENHOR X

Sem especulações. Para mim Zé é o suficiente.

MISTER BLACK

Mister Black!

COORDENADOR

Quem disse isso?

MISTER BLACK

Eu quero ser o Mr. Black. Falei logo para ninguém pegar o apelido antes.

CORONEL MOSTARDA

Droga! Então eu sou o Coronel Mostarda!

Muito prazer, Coronel!

COORDENADOR

Gente, isso é ridículo. Vocês sabem o nome de cada um.

MISTER BLACK

Na verdade eu vivo esquecendo.

CORONEL MOSTARDA

Eu também. Andei tendo umas recaídas e, sabe como é...

COORDENADOR

Não importa. Eu sei o nome de cada um de vocês e é importante...

SENHOR X

Não ouse abrir a boca e revelar nossas identidades!

COORDENADOR

O que?

SENHOR X

Peguem ele! Ele sabe demais!

CORONEL MOSTARDA e MISTER BLACK agarram o COORDENADOR pelos braços.

SENHOR X

Você pensou que poderia nos trair, não é mesmo?

Ele pensou sim, Senhor X!

SENHOR X

Vamos ter de nos livrar dele!

COORDENADOR

Isso é loucura!

MISTER BLACK

Não é loucura! É a bebida!

CORONEL MOSTARDA

Ninguém irá desconfiar. E para parecer que foi um acidente atearemos fogo em você. Alguém tem álcool?

PAUSA

MISTER BLACK

Bem... isso é um bom sinal, não é?

CORONEL

Acho que sim. Essas reuniões estão me fazendo bem. Faz 5 meses que não toco em uma gota de álcool.

Eu também. Morro de medo de pegar a nova gripe inclusive.

SENHOR X

Nesse caso é melhor continuarmos com as reuniões. Quando é a próxima?

COORDENADOR

Eu... eu não sei.

SENHOR X

Arrá! Escondendo segredos agora? O que aconteceu com a importância de se manter o grupo unido revelando suas informações secretas, heim? Não importa! Zé!

Sim, Senhor X!

SENHOR X

(dá um bolo de dinheiro na mão de ZÉ)

Tome esse dinheiro, alugue uma sala comercial para o nosso novo encontro. Procure algum lugar pouco movimentado. Seja discreto. Chegando lá aguarde novas instruções!

Entendido!

ZÉ sai de cena.

SENHOR X

Mister Black, siga o Zé sem que ele perceba. Precisamos descobrir o local secreto da próxima reunião. Retorne para reportar tudo imediatamente.

MISTER BLACK

Sim, Senhor X!

MISTER BLACK sai de cena.

SENHOR X

Coronel Mostarda, corra de encontro com Zé e o informe que ele está sendo seguido! Corra como o vento!

CORONEL MOSTARDA

É para já, senhor!

CORONEL MOSTARDA sai de cena.

SENHOR X

E você, fique por aqui para interceptar o retorno de Mister Black e mate o traidor antes que ele revele a localização secreta do encontro!

COORDENADOR

Mas...

SENHOR X

Nada de “mas”! É uma ordem! Enquanto isso vou para casa e ligar para o CVV. Eles serão os únicos que poderão impedir meu suicídio! O futuro do nosso grupo depende de você!

SENHOR X sai de cena.

FADE OUT

INT. BANCO / FILA DOS CAIXAS -- TARDE

Uma fila em forma de zigue e zague. Caixas trabalhando ao fundo e pessoas esperando sua vez. O MOÇO é o último da fila até a chegada do HOMEM que ao tomar seu lugar percebe no chão uma nota dobrada de cem reais. Rapidamente pisa nela com força, esticando a perna exageradamente e provocando barulho. O MOÇO à sua frente se assusta e olha para o HOMEM.

HOMEM

(fingindo alongar-se)

Opa! Alongamento, sabe? Eu tenho circulação ruim nas pernas e essas filas...

MOÇO

(se virando novamente)

Sei.

O HOMEM faz menção de se agachar para pegar a nota, mas uma MULHER chega na fila e ele se apruma.

HOMEM

Oi. Pode passar. Não estou com pressa não.

MULHER

Que gentileza!

HOMEM

O que não é a gentileza se não um dever natural de todo o ser humano, não é verdade?

MULHER

Agradecida.

A MULHER toma o lugar na fila, ficando de costas para ele. O HOMEM novamente tenta alcançar a nota, agachando-se e posicionando a cabeça muito próximo da bunda da MULHER, quando ela se vira subitamente.

MULHER

Sabe que... ué? Que isso?

HOMEM

(se levantando assustado)

O que? Não. Eu... só parei para...para... amarrar o sapato.

MULHER

Mas o seu sapato não tem cadarço.

HOMEM

É mesmo? É mesmo!

MULHER

Por acaso o senhor é um pervertido desses que ficam filmando as calcinhas das moças com o celular e depois coloca na internet? Olha que eu chamo a polícia!

HOMEM

Existe esse tipo de coisa na internet?

MULHER

Não se faça de inocente! O que o senhor estava fazendo aí agachado atrás de mim?

HOMEM

A senhorita entendeu errado. É apenas um mal entendido. Eu abaixei porque tenho má circulação nas pernas. Só isso. É que na hora que a senhora virou eu fiquei nervoso.

MULHER

Má circulação?

HOMEM

Justamente. Quando venho pra fila do banco faço até uns alongamentos. Pode perguntar pro moço aí da frente. Antes da senhorita chegar eu estava me alongando.

MULHER

Não. Não precisa não. Deixa quieto. Mas vê lá, heim?

A MULHER se vira novamente.

HOMEM

A senhorita ia dizer alguma coisa?

MULHER

O que?

HOMEM

Quando a senhora se virou. A senhorita ia me dizer alguma coisa.

MULHER

Ah... ia comentar sobre esse senhor na minha frente. Acho que ele perdeu alguma coisa.

Os dois olham para o MOÇO da frente procurando algo no chão.

HOMEM

Ih. Acho que perdeu mesmo.

MULHER

Será que foi dinheiro?

HOMEM

Nããão! Se fosse, alguém já teria achado.

MULHER

Isso é. De repente é uma caneta.

HOMEM

(Tirando uma caneta do bolso)

Uma caneta! Deve ser isso mesmo. Eu tenho uma aqui. Oferece para ele emprestado se ele tiver perdido.

MULHER

Eu acho que te julguei mal. É a segunda vez que o senhor faz uma gentileza desde que eu cheguei na fila. Me desculpe.

HOMEM

Imagina. Quem não vive para servir não serve para viver.

MULHER

Profundo isso. Espera um minutinho que eu vou falar com ele.

MULHER pega a caneta e vai falar com o MOÇO da frente (em off / segundo plano).

HOMEM olha para os lados para se certificar que ninguém o observa quando nota o SEGURANÇA do banco passando por perto.

HOMEM

Ai meu ca...

MULHER surge do outro lado do zigue e zague da fila, supreendendo o HOMEM.

MULHER

Tá aqui a caneta!

HOMEM

(assustado)

O que? Ah! Obrigado. Ele já terminou de usar?

MULHER

Não. Ele disse que não precisa. Deve ter perdido outra coisa.

HOMEM

Ah!

MULHER

A fila andou finalmente.

HOMEM

É mesmo? É mesmo!

MULHER

(gracejando)

O senhor vai ficar parado aí que nem um dois de paus?

HOMEM

Eu? Ah, hahaha.. sabe o que é? Me deu uma dormência na perna...

MULHER

Ah que chato! Mas é só andar que passa. Se ainda fosse câimbra...

HOMEM

Aaai!

MULHER

O que foi?

HOMEM

Câimbra!

MULHER

(saindo de cena)

Nossa! Deixa eu chamar alguém para te ajudar!

HOMEM

Não precisa!

O MOÇO percebe novamente o HOMEM, desconfia do que está acontecendo e se aproxima.

MOÇO

Está tudo bem com o senhor?

HOMEM

Ah. Sim sim... é só uma câimbra. Dói horrores.

MOÇO

Sei. Na perna direita, né?

HOMEM

É. Dizem que é falta de potássio.

MOÇO

Dizem que se levantar a perna, melhora.

HOMEM

Não. Não dizem não!

MOÇO

Sempre ouvi dizer.

HOMEM

É tudo boato! Crendice popular sem fundamento.

MOÇO

Eu tenho quase certeza que se o senhor levantar a perna, seu problema termina.

HOMEM

Bobagem. Ainda corro o risco de me apoiar na perna esquerda e ela ficar também com câimbra.

MOÇO

Segurança!

HOMEM

O que é isso? Segurança para que?

MOÇO

Para... auxiliar o senhor. Ele vai saber lidar com o seu caso. Assim é capaz do senhor até ir para a fila do atendimento especial. Pode deixar que quando ele chegar eu explico tudinho.

HOMEM

Não é preciso tanto também. Olha! A fila andou. Você vai ficar parado aí que nem um dois de paus?

MOÇO

Agora estou preocupado com o senhor.

HOMEM

É muita gentileza sua.

MOÇO

(fingindo amabilidade)

Culpamos as pessoas das quais não gostamos pelas gentilezas que nos demonstram... Friedrich Nietzsche.

HOMEM

(resmungando)

Ai, cacete...

Entram a MULHER e o SEGURANÇA. Ele empurra uma cadeira de rodas.

MULHER

(apontando para o HOMEM)

Está aí! Não consegue nem andar.

HOMEM

Também não é para tanto, minha gente.

SEGURANÇA

O senhor não se preocupe. É só sentar aqui. Eu te ajudo.

HOMEM

Não devo.

SEGURANÇA

Não deve?

MOÇO

Deve sim.

HOMEM

O senhor é enfermeiro treinado?

SEGURANÇA

Bem...não, mas eu posso ajudar...

HOMEM

Sem querer lhe faltar com o respeito, mas dá para ver que o senhor é forte e sem conhecimento técnico em enfermagem ou medicina é capaz do senhor me machucar. Pode acabar deslocando meu ombro, quebrando meu braço, rompendo uma artéria...

MOÇO

Imagina. Ele é pago para isso.

MULHER

Pago para machucar os clientes?

MOÇO

Não. Para ajudar clientes que se recusam a andar na fila.

MULHER

Ai meu deus! A fila! O senhor guardou o meu lugar?

MOÇO

Infelizmente agora é tarde. Vim em socorro desse senhor e só saio daqui quando ele voltar a andar.

MULHER

(se senta na cadeira de rodas)

Ah, cansei! Vou esperar a fila terminar sentada aqui mesmo.

SEGURANÇA

Na verdade não.

HOMEM

O que?

SEGURANÇA

Na verdade eu não sou pago para isso.

HOMEM

Exato! E aposto que ainda assim não te dão o merecido valor pelo seu serviço aqui, não é mesmo?

SEGURANÇA

O sindicato está até discutindo salário com os donos do banco...

HOMEM

Não é momento de discussão. É momento de ação!

MOÇO

Exatamente. Se move aí.

HOMEM

Não me interrompa. Meu colega segurança... é o momento das massas se levantarem e defenderem seu lugar.

SEGURANÇA

É?

MOÇO

O que diabos você tá dizendo?

HOMEM

O que eu estou dizendo é que o nosso colega aqui não é pago para ser enfermeiro e que poderia me machucar se resolvesse me sentar nessa cadeira. Isso causaria uma ação na justiça da minha pessoa, o cliente, para com essa instituição, o banco, que acarretaria no mínimo a demissão desse funcionário modelo. Imagine vocês. Mesmo munido das melhores intenções, o simples ato de me auxiliar a sentar na cadeira de rodas faria com que... o senhor é casado?

SEGURANÇA

Sou.

HOMEM

Tem filhos?

MULHER (em segundo plano) apóia a cabeça na mão e começa a dormir na cadeira.

SEGURANÇA

Duas meninas.

HOMEM

(cont’d)

... faria com que suas meninas e sua mulher não tivessem mais comida na mesa ou até um teto sob suas cabeças. Uma desgraça!

SEGURANÇA

Vendo por esse ângulo...

MOÇO (em segundo plano) aponta a câmera do celular para as pernas da MULHER.

HOMEM

Leve essa cadeira daqui, meu bom homem! Não é necessário o senhor colocar em jogo seu futuro, o futuro da sua esposa e o futuro das suas filhas.

SEGURANÇA

(saindo de cena com a cadeira e a MULHER sentada nela)

Eu agradeço muito o senhor por ter me informado disso tudo. Obrigado pela gentileza...

HOMEM

Gentileza gera gente ilesa.

MOÇO, indignado, vai atrás do SEGURANÇA tentando impedí-lo de abandonar a cena.

O HOMEM abaixa para pegar o dinheiro e percebe que confundiu-se. A nota é de dois reais.

HOMEM

(Faz menção de andar, mas sente a perna doendo)

Ai, cacete! E dois reais não cobre nem meu couvert artístico.

EXT. Pátio / Dia

A cena ocorre quase completamente em PLANO AMERICANO ou PLANO MÉDIO. Os três personagens conversam enquanto uma série de EXTRAS caminham de um lado para o outro em segundo plano.

A CORRETORA carrega uma prancheta com uma folha de papel.

CORRETORA

(verifica rapidamente a prancheta)

A construção é antiga, de 1931, mas já passou por três obras. Em 2000 foi refeita toda a parte elétrica e em 2003 foram instalados os elevadores.

HOMEM

(olhando para os lados)

É, mas ainda assim tem muita escada aqui e ali.

MULHER

Mas tem até escada rolante. Eu acho chique morar em um lugar que tem escada rolante.

CORRETORA

Sem contar que a parte exterior é toda coberta por mármore negro.

HOMEM

Pois é. Meio sinistro isso, né? Parece coisa de cemitério.

MULHER

Eu gostei do teto pintado de azul como se fosse o céu. Muito bonito com aquelas nuvenzinhas.

CORRETORA

É um imóvel único. Vocês não terão vizinhos nem em cima nem embaixo de vocês. Muita privacidade...

HOMEM

Tirando esse pátio. Pelo que eu entendi é de acesso público, certo?

CORRETORA

O pátio é coletivo e de acesso público, mas compensa pela vista. Não existe vista melhor na cidade.

HOMEM

É... isso eu tenho de concordar.

CORRETORA

(lendo a descrição em sua prancheta)

Uma vista de trezentos e sessenta graus você consegue vislumbrar bairros da Zonal Sul, Norte e Centro da cidade. Setecentos e nove metros acima do mar.

MULHER

(apontando para longe)

Até dá pra ver a nossa casa! Olha lá, môr.

PLANO ABERTO exibindo os três descendo um lance de escadas com a estátua do Cristo Redentor logo acima do lance, ao fundo.

HOMEM

Bem, acho que já vimos o que´tinhamos de ver. Eu não estou bem certo se queremos alugar o local. O preço está um pouco salgado. Principalmente o condomínio...

FADE OUT

Continuação em TAG FINAL (de preferência para ser inserido entre outros sketches de um mesmo programa).

INT. Ambiente cercado de janelas e pessoas – DIA

MULHER

Pena que o condomínio estava muito caro. Eu adorei ter a vista de lá.

HOMEM

A nossa vista não é tão ruim assim e eu nem podia utilizar aquele pátio para construir uma cozinha mineira...

MULHER

Acho chato voltar para casa sem ter encontrado nada hoje.

HOMEM

Assim que a gente chegar eu vou procurar na internet outra corretora, benzinho.

LONG SHOT dos dois subindo de bondinho o Pão de Açúcar.

INT. BAR/RESTAURANTE -- DIA

FADE IN

Duas amigas sentadas a mesa terminando de comer a sobremesa, quando uma repara nos óculos da outra. Ela aproxima uma das mãos da lente do óculos da amiga, que levemente se retrai assustada.

MULHER 1

Calma aí que tem um cílio nos seus óculos.

MULHER 2

Ai... tira.

MULHER 1

Aperta ele com o seu dedo no meu e a gente faz um pedido.

As duas unem um de seus polegares em torno do cílio e o pressionam.

MULHER 2

Pronta?

MULHER 1

Pronta.

MULHER 2

Tira!

Elas afastam as mãos e examinam os polegares à procura do cílio. Ele está no polegar da MULHER 1.

MULHER 1

Iêii! O desejo é meu!

MULHER 2

(fingindo tristeza)

Ah... nem meu cílio me ajuda. Que sorriso é esse?

MULHER 1

Estou pensando no meu desejo.

MULHER 2

Huummm... não pode contar né? Se não, não se realiza.

MULHER 1

Pois é. Hihihi

MULHER 2

Olha! Caiu outro cílio meu!

MULHER 1

Oba!

MULHER 2

Poxa! Dessa vez tem de ser meu o pedido!

Elas repetem o ritual.

MULHER 1

Pronta?

MULHER 2

Pronta! E você?

MULHER 1

Tira!

MULHER 2

Iêi! Outro pedido! Vivaaaa!

MULHER 1

Sacanagem! Isso é injusto!

MULHER 2

E o melhor é que o primeiro pedido se realizou.

MULHER 1

Como assim?

MULHER 2

Pedi que todos os seus cílios caíssem. Olha outro ali! Peguei.

MULHER 1

Como é?

MULHER 2

Pedi que todos os seus cílios caíssem. Assim a gente teria um monte de desejos para gente!

MULHER 1

Cacete! Caiu outro! Como você me faz um pedido desse?

MULHER 2

Não esquenta não! Quando cair o último a gente pede pra todos crescerem de novo bem rapidinho, ok? Tá pronta?

FADE OUT

Depois de um longo hiato, resolvi voltar a blogar constantemente. Foram 7 anos escrevendo bobagens quase diariamente e depois de umas férias, mexi de novo no Flaming Circus e removi a pretensão de ser um anexo ao meu currículo para publicidade.

Não quero mais uma carreira em publicidade. É muito bacana, é muito legal, mas não é o que eu quero para a vida. Ainda quero trabalhos freela. Gosto deles, mas resolvi tentar uma coisa muito doida: tentar trabalhar em algo que amo. Sei que não será fácil, mas não é por isso que não vou tentar ao máximo.

Quero ser roteirista. TV, Teatro ou Cinema… de preferência TV. De preferência humor. De preferência trabalhando com o Guel Arraes na Globo. De preferência ganhando somas astronômicas e completamente irreais. De preferência trabalhando de onde eu quiser.

É claro que estou aberto à contra-proportas.

Então vou publicar aqui roteiros. Atrás desse post tem algumas coisas sortidas que fiz que acho divertidas e não vejo porque apagar. Depois desse post, virão roteiros e outros textos. Uma parte de mim sofre em jogar tudo isso ao vento de graça, mas outra parte de mim entende que é preciso que isso seja interessante o suficiente para chegar aos olhos dos que possam me ajudar com meu sonho… isso me conforta até certo ponto. Pode ser que seja um bom investimento. Verei e se você acompanhar, verá comigo no que diabos isso vai dar.

Roteiro e storyboard para micro curta de animação pornô para o canal SexyHot.

Sério. Já fiz isso e foi uma experiência excelente trabalhar com esse roteiro. Primeiro porque pagaram bem, segundo porque o contato e o processo foi todo feito através de ICQ e email, terceiro porque foi desafiador e quarto porque sempre me dá uma boa história para contar. :)

O desafio foi pegar um argumento fechado de como a história seria e adaptá-lo para caber em menos de quatro minutos… já estava bem complexo e tive de encontrar soluções engenhosas para compactar aquele monte de informações no roteiro. Uma parte curti foi uma sequência em que uma personagem fala ao telefone enquanto distraidamente enrosca o fio do aparelho pelo braço ou perna e um travelling com o ponto de vista de fora do prédio durante a conversa vai da sua janela para a de outra personagem no andar de cima, ao lado. Foram apenas quatro segundos para explicar que ela está falando com a vizinha do mesmo prédio, mas não a vizinha do lado e insinuar uma tendência da personagem a curtir sadomasoquismo.

No storyboard teve momentos em que me empolguei e realmente desenhei algumas tomadas com capricho. Um desses desenhos foi utilizado posteriormente como “inspiração” no cartaz (e acho que no filme também).

No final a edição cortou uma parte que achava fundamental no roteiro (mas isso é o problema de todo roteirista). Não posso reclamar na realidade. Esse corte desengatilhou em outro projeto que depois comento por aqui. De qualquer forma estive presente para a apreciação dele no 1º Festival de Animação Erótica do Mundo. :)

Sobre

O Flaming Circus é meu repositório de roteiros, vídeos, textos e outras produções envolvendo comédia. Uma espécie de portfolio online com criações em sub-gênero de humor e algumas homenagens. Sei lá... é o que eu mais gosto de fazer, sabe?

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