
Os artistas de blues mais conhecidos e alguns não tão famosos fora do meio representados com uma ou duas canções que se tornaram seus standarts. Os Clássicos é um bloco de quatro volumes com o ABC do básico ao intermediário. Se você não conhece nada ou muito pouco de blues, comece por aqui.
Volume II
Esse volume contempla o surgimento da guitarra elétrica com T.Bone Walker, a influência dela sob músicos como B.B. King e a completa rejeição desse estilo com Bo Diddley (capa). Ainda temos também os sidekicks da Chess Records: Buddy Guy, Lowell Fulson e Jimmy Rogers e o terceiro escalão do blues de Chicago representado por Big Mama Thorton e John Brim em seus raros momentos de glória. De quebra o volume ainda traz o surgimento do primeiro hit de John Lee Hooker.
1. T. Bone Walker – Call It Stormy Monday
Alguns biógrafos acreditam que T.Bone Walker foi o primeiro músico a se apresentar com uma guitarra elétrica. Se isso é verdade ou não, é difícil determinar. O mais correto seria dizer que foi o primeiro artista conhecido a tocar guitarra sem tratá-la como um violão. Imagine isso… nunca ter visto alguém tocar uma guitarra elétrica antes e depois ver todo mundo tocar do jeito que você toca. Deve ter sido algo impressionante de se vivenciar.
Registrada como “Call It Stormy Monday (But Tuesday Is Just As Bad)” em 1947 para não haver conflitos com a canção “Stormy Monday Blues” de 1942 (por Earl Hines e Billy Eckstine), a gravação chegou ao quinto lugar na parada R&B da Billboard em 1948 e foi a inspiração de B.B. King para que ele começasse a tocar guitarra.
A canção foi regravada por vários artistas como: Allman Brothers, Bobby Bland, B.B. King, Jethro Tull, Eric Clapton, Albert King entre outros.
2. Otis Rush – Double Trouble
Considerada uma “obra prima em tom menor”, essa canção foi a inspiração para o nome da banda de Stevie Ray Vaughan. Com a produção (e baixo) de Willie Dixon e a guitarra de Ike Tuner, “Double Trouble” transformou-se em um clássico do blues de doze compassos em 1958, sendo regravada por diversos bluesmen.
Em 2008 ela entrou para o Blues Foundation Hall of Fame.
Nota: Outro clássico de Otis Rush, a canção “All Your Love (I Miss Loving)”, poderá ser ouvida no álbum “Não É Nada Igual – Vol. II” dessa coletânea. Por possuir uma sessão rítmica afro-cubana, decidi incluí-la entre os blues fora do padrão conhecido por quem não conhece muito blues.
3. Buddy Guy – The First Time I Met The Blues
Buddy Guy passou alguns anos amargando como músico de estúdio da Chess sem poder gravar do jeito que queria. Phil Chess dizia que a forma que tocava em seus shows era “ruído”. Buddy continuou por muito tempo revolucionando o blues e o rock nos palcos e gravando seus blues tradicionais de uma forma relativamente tradicional. Como a fórmula deu certo, provavelmente essa deve ter sido a razão de tantas décadas sem que ele gravasse suas experimentações no blues. Analisando sua discografia cronologicamente é possível perceber essa gradual liberdade sendo tomada até seus álbuns produzidos depois da virada do século.
Lançada pela primeira vez em 1936 pelo pianista Little Brother Montgomery, “The First Time I Met The Blues” tornou-se uma das ‘canções de trabalho’ do repertório de Buddy que a gravou diversas vezes com acompanhamento de metais. Escolhi para essa coletânea uma gravação minimalista com Jimmy Lee Robinson no baixo e Fred Below na bateria.
Buddy Guy é considerado como sendo a maior influência de Jimi Hendrix. Eric Clapton o considera o maior guitarrista vivo hoje e Stevie Ray Vaughan possuía a mesma opinião até sua morte prematura. Seus shows são completamente diferentes de acordo com suas turnês e bem diferente do estilo e do esmero dos álbuns. Na última década produziu um punhado de álbuns excepcionais com experimentações variadas sem nunca sair do blues. Recomendo sua discografia completa.
Nota: Nos anos 80, Buddy Guy assinaria seus shows com a sua versão de “Mustang Sally”, que também está presente nessa coletânea.
4. John Lee Hooker – Boogie Chillum
Também conhecida como “Boogie Chillen’” foi lançada em 3 de novembro de 1948 como o primeiro single oficial de John Lee Hooker e atingiu o primeiro lugar da parada R&B da Billboard em janeiro do ano seguinte, permanecendo ao todo nas paradas por 18 semanas. A canção é considerada por muitos como um dos marcos mais influentes da criação do Rock’n'Roll.
“Boogie Chillum’” foi regravada por White Stripes, Buddy Guy e Junior Wells, Canned Heat, George Thorogood, Van Morrison entre outros.
John Lee Hooker possui excelentes álbuns, mas é impossível recomendar toda sua discografia, pois você passaria a vida inteira tentando completá-la sem sucesso. Ele gravou mais álbuns que você pode imaginar com mais pseudônimos que ele mesmo poderia lembrar.
Nota: “Chilum’” e “Chillen’” são contrações para a palavra Children (“criança”).
5. Lowell Fulson – Reconsider Baby
Top Ten R&B hit de 1954, a canção ficou quinze semanas nas paradas da Billboard. Em 1993 foi incluída no Blues Foundation Hall of Fame na categoria “Classics of Blues Recordings”, mas sem dúvida alguma teve seu maior momento de popularidade no começo dos anos 60 quando foi regravada por Elvis Presley.
Alguns artistas que incluíram em seus álbuns esse clássico do blues em mid-tempo: Carl Perkins, Jerry Lee Lewis, Bobby Bland, Magic Sam, Ike e Tina Turner, Freddy King, Eric Clapton e Joe Bonamassa.
6. Jimmy Rogers – Walking By Myself
Membro da Muddy Waters Band durante os anos 50, Jimmy resolveu encarar sua carreira como líder da própria banda se unindo aos músicos da gravadora Chess. Em 1957 fez sua única marca nas paradas de R&B da Billboard com “Walking By Myself”. Infelizmente havia na época a lucrativa novidade chamada Rock’n'Roll e o dono da gravadora Chess decidiu focar seus esforços de produção e divulgação em outro artista: Chuck Berry.
Dois anos depois Jimmy abandonaria a carreira de músico para voltar apenas em 1968 depois que sua loja de roupas fora incendiada durante os tumultos nas ruas provocados pela notícia do assassinato de Martin Luther King.
“Walking By Myself” entra nessa coletânea não só como um clássico de Rogers, mas também como um clássico de Big Walter Horton que teve um papel fundamental no sucesso da gravação com seu excelente trabalho de gaita. A canção ganhou nova popularidade décadas depois graças à versão de Gary Moore em 1990. Freddy King e Johnny Winter foram outros guitarristas que gravaram esse blues peralta.
7. B.B. King – The Thrill Is Gone
Composta por Rick Darnell e Roy Hawkins em 1951 (e lançada pelo último sem muito sucesso no mesmo ano), “The Thrill Is Gone” se tornou uma das canções de blues mais famosas na versão de 1969 por B.B. King, atingindo o terceiro lugar da parada R&B e a 15ª posição na parada pop da Billboard.
“The Thrill Is Gone” foi um dos primeiros blues gravados com um arranjo de cordas, o que possivelmente ajudou muito na sua popularidade no começo dos anos 70. A canção se tornou a “música de trabalho” de B.B. King e lhe proporcionou um Grammy em 1971 na categoria Melhor Vocalista de R&B.
Hoje em dia essa canção é um dos poucos blues no repertório de shows de B.B. King que com o passar dos anos foi de certa forma se distanciando um pouco do gênero para aquilo que ele mesmo batizou de “B.B. King Music”. Assim como eu, o próprio músico afirma que o título de “Rei do Blues” não é devidamente merecido.
8. Big Mama Thorton – Hound Dog
Composta por Jerry Leiber and Mike Stoller (os mesmos de “Stand By Me“, “Searchin’”, “Yakety Yak” entre outros hits de R&B) e gravada por Big Mama Thorton em 1952.
Alcançou o topo das paradas R&B da Billboard em 1953, permanecendo na listagem por sete semanas. Até 1964 foi regravada por pelo menos 26 artistas, mas sem dúvida alguma a versão mais popular estourou em 1956 pela voz de Elvis Presley.
Sem desmerecer o trabalho de Big Mama Thorton como vocalista, baterista ou gaitista, não tenho pudores em dizer que ela deu muita sorte e que sem esse hit, provavelmente nunca teria feito nome nem no segundo escalão do blues de Chicago durante os anos 60. Sua maior contribuição para a canção foi a linha vocal com micro-inflexões e estilo sincopado (coisas que ficariam ótimas na voz de Elvis, se ele não tivesse usado a versão de outro artista, Freddie Bell and the Bellboys, para se basear na criação da sua).
De qualquer forma imagino que Leiber e Stoller devem ter feito uma grana poderosa com royalties. Cada um tem o Sullivan e Massadas que merece, creio.
Sortuda até dizer chega, Big Mama se mudou para San Francisco nos anos 60, onde topou com Janis Joplin que resolveu gravar também uma de suas canções: “Ball and Chains”.
9. John Brim – Ice Cream Man
Gravada em 1953, a canção amargou mais de dez anos na geladeira da gravadora até ser lançada em 1969 no último single de Brim pela Chess Records. A banda contava com o onipresente baixista Willie Dixon, o guitarrista Robert Lockwood Jr., Fred Below nas baquetas e a gaita de Little Walter.
A versão mais popular de “Ice Cream Man” foi a gravada pela banda Van Halen em seu álbum de estréia homônimo de 1978.
Nota: John Brim recebeu um processo por lançar um plágio de “Hound Dog” intitulado “Rattlesnake” e teve sua ‘versão’ presa nas prateleiras da Chess Records por muitos anos.
10. Bo Diddley – Hey, Bo Diddley
Gravada em 1957 e produzida pelos irmãos Leonard e Phil Chess com a ajuda do backing vocal de Peggy Jones and the Flamingos.
Como várias músicas de Bo Diddley, essa canção se caracteriza pela batida que ficou conhecida como “Bo Diddley Beat” ou “Jungle Beat”.
“Hey! Bo Diddley” tem basicamente ritmo como ponto principal. Uma música animada em um blues de apenas um acorde. Não é preciso mais do que um para se fazer uma boa canção.
Versões notáveis: John P. Hammond, Kenny Rogers, Grateful Dead e The Temptations.
Curiosidade: os personagens de Super Mario Bros. chamados Boos eram originalmente chamados de “Boo Diddleys” em homenagem ao bluesman.
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BLUES MECOPONE COLLECTION – Os Clássicos Vol.II (47Mb)












