Os artistas de blues mais conhecidos e alguns não tão famosos fora do meio representados com uma ou duas canções que se tornaram seus standartsOs Clássicos é um bloco de quatro volumes com o ABC do básico ao intermediário. Se você não conhece nada ou muito pouco de blues, comece por aqui.

Volume III

(O volume pianinho)

Selecionei a primeira metade desse álbum com canções de pianistas em ordem crescente de tempo (musical). O ritmo vai acelerando com o passar das faixas. Alguns de meus artistas preferidos de blues se encontram aqui: John Lee Hooker, Stevie Ray Vaughan, Professor Longhair, Luther Allison e Hound Dog Taylor (capa) são seis bluesmen que provavelmente estariam no meu Top 20 de todos os tempos. Para compensar um pouco a balança, há também o rocambolesco Junior Wells com seu clássico tantas vezes tocado com o grande parceiro Buddy Guy.

 

1. Charles Brown – Driftin’

Antes da carreira solo, Charles Brown era um dos três Blazers da banda Johnny Moore’s Three Blazers. Em 1945 ele compôs “Driftin’ Blues”“fora a primeira canção que escrevi e tentei cantar” – que atingiu o segundo lugar e permaneceu por vinte três semanas nas paradas R&B da Billboard naquele ano.

A popularidade de “Driftin’” elevou o nome de Charles Brown e influenciou vários músicos. Ray Charles no ano seguinte já a tocava regularmente em seus shows.

Eric Clapton se mostrou ao longo de sua carreira um fã da canção, tocando-a com diversos arranjos e a gravando no álbum de 1975 “E.C. Was Here” e no “From The Cradle” de 1994.

Nota pessoal: Em 1996, Charles Brown fez sua única visita ao Brasil e tocou ao lado do pianista Johnny Johnson (compositor de “Johnny B. Goode e membro da banda de Chuck Berry) em uma jam session espetacular no Hotel Méridien, no Rio de Janeiro. Foi uma madrugada mágica.

 

2. Eddie Boyd – Third Degree

Slow blues padrão de 1953, composto com a parceria de Willie Dixon. Assim como sua outra composição “Five Long Years”, foi regravada por vários artistas como Johnny Winter (em álbum homônimo), Jeff Healey, Rod Piazza e Eric Clapton. Eddie nunca teve um repertório de blues muito extenso. Saiu dos EUA para fugir do preconceito racial e se estabeleceu na Finlândia em 1970 onde passou a gravar apenas gospels.

“Third Degree” se sustenta como uma  relativamente famosa canção de blues graças às regravações de Eric Clapton que identificou uma belíssima atmosfera melancólica na interpretação de Eddie Boyd.

 

3. Memphis Slim –Everyday I Have The Blues (Nobody Loves Me)

Lançada em 1949 com o título de “Nobody Loves Me” (depois rebatizada como “Everyday I Have the Blues” e “Every Day I Have the Blues”). No mesmo ano Lowell Fulson gravou sua versão que virou um hit passando vinte e três semanas nas paradas R&B da Billboard e atingindo o terceiro lugar em 1950. Sucessos similares ocorreram nos anos seguintes nas versões de Joe Williams, Count Basie e B.B. King (que meio que se “apoderou” da canção, tornando-a uma de suas ‘músicas de trabalho’).

 

4. Professor Longhair – Mardi Gras in New Orleans

Professor Longhair representa a quintessência do blues de New Orleans. Tuts Washington foi o verdadeiro precursor do subgênero, criando uma linguagem nova para o piano de blues, mas Longhair foi quem popularizou o estilo polindo arestas e transformando a linguagem musical de Tuts em algo mais palatável para o público geral. Isso fica mais evidente nas versões das músicas de Tuts gravadas por Longhair (especialmente no caso de “Tipitina”) com acompanhamento de banda e organização da parte rítmica das canções.

Em 1949 “Mardi Gras in New Orleans” foi gravada e creditada como sendo de autoria de Longhair, mas meses antes uma canção muito similar de Joe Lutcher intitulada “Mardi Gras” fora lançada. É difícil apontar com certeza que plagiou quem, já que a gravação de Longhair ficou presa na gravadora por um ano por questões legais. Longhair não se utilizou de músicos sindicalizados e uma boa dose de burocracia foi necessária para que o lançamento da canção ocorresse. Suspeito que a razão disso seja a provável dificuldade dele de encontrar músicos que pudessem acompanhar seu estilo rítmico ‘rumba-blues-proto-funk’.

“Mardi Gras in New Orleans” nunca atingiu as paradas ou fez muito sucesso fora do sul dos EUA, mas se transformou no primeiro hit local e na música de assinatura de Professor Longhair e da identidade musical de New Orleans.

 

5. Pinetop Perkins – Pinetop’s Boogie Woogie

Pinetop Smith foi um pianista de blues que gravou em 1928 o “Pine Top’s Boogie Woogie”, um dos primeiros boogies que virara um hit e que popularizou o nome do subgênero de blues e fez sucesso durante e depois da Segunda Guerra Mundial, vendendo cinco milhões e cópias. Ele infelizmente não gozou muito desse sucesso, porque morreu três meses depois. Ray Charles adaptou essa canção na criação de “Mess Around” (e creditou a autoria a Ahmet Ertegun, presidente da Atlantic Records até então).

Joe Willie Perkins ficou conhecido nos anos 50 como “Pinetop Perkins” pela sua gravação de “Pinetop’s Boogie Woogie”, futuramente se tornou o pianista da Muddy Waters Band, está vivo, vivendo no Texas e lançou um novo áçbum ano passado. A versão de nossa coletânea foi gravada em 1992 no álbum homônimo.

Se a cantora Angela Strehli (The Fabulous Thunderbirds) tivesse feito seu dever de casa não teria composto uma canção intitulada “Hey, Mr. Pinetop Perkins” onde em sua letra pergunta para Perkins como foi compôr o primeiro boogie woogie. Pinetop ficou quieto e gravou a canção junto a Angela em seu álbum “Ladies Man”.

 

6. John Lee Hooker – One Bourbon, One Scotch, One Beer

A segunda canção de John Lee Hooker no bloco clássico dessa coletânea não é “Boom Boom” simplesmente porque já existe uma versão dessa canção em outro volume da coleção. No entanto acredito que “One Bourbon, One Scotch, One Beer” representa um clássico tão bom quanto outros da longa carreira do artista. Hits não faltam: “House Rent Blues”, “Crawlin’ Kingsnake”, “I’m In The Mood”, “The Healer”, “Dimples”, “Tupelo”… o que não dava para fazer era deixar apenas uma canção de Hooker, Muddy, Elmore James ou Howlin’ Wolf entre os clássicos.

“One Bourbon, One Scotch, One Beer” nasceu com o título um pouco diferente: “One Scotch, One Bourbon, One Beer” quando foi composta por Rudy Toombs e gravada por Amos Milburn in 1953. A versão de John Lee Hooker e a que deu mais sucesso à composição foi gravada em 1966 e inclui versos adicionais.

Nota: A versão de George Thorogood de 1977 traz ainda enxertos de outro hit de Hooker: “House Rent Boogie”. A mistura das duas letras criou uma história mais complexa “explicando” porque o sujeito deseja as três bebidas.

 

7. Junior Wells – Messin’ With The Kid

Canção do compositor e produtor Mel London lançada por ele em 1960 e regravada por Junior Wells em 1962, tornando-se a sua ‘música de trabalho’ até o fim de sua carreira.

“Messin’ With The Kid” foi regravada por artistas de rock e blues como: Blues Brothers, Johnny Winter, AC/DC, Rory Gallagher e Freddy King.

Nota pessoal: por pouco Junior Wells não entra nessa coletânea. Ele me causa certa antipatia pelo seu estilo rocambolesco, sua falta de respeito pelos músicos com que toca e pelo blues. Preferia muito mais colocar um gaitista mais digno aqui. James Cotton e Carey Bell, por exemplo, apesar de serem excepcionais músicos e terem trabalhado muito duro, nunca tiveram a sorte de emplacar com um hit que tenha se tornado um clássico do blues.

 

8. Hound Dog Taylor – Give Me Back My Wig

Lançada em 1971 em seu álbum de estréia (e o primeiro álbum da Alligator Records), “Hound Dog Taylor & The Houserockers”, a canção “Give Me Back My Wig” se tornou o carro chefe do repertório de Hound Dog Taylor, sendo versionada por guitarristas como Stevie Ray Vaughan, George Thorogood, Luther Allison, Omar & the Howlers e Magic Slim.

Esse boogie tocado com slide em uma guitarra extremamente distorcida para os padrões da época com certeza estava à frente do movimento punk. Uma levada frenética em uma letra sem a menor identificação com acontecimentos gerais na vida de seu público.

Como em quase todas as músicas da banda é sempre notável a habilidade do baterista Ted Harvey de “encher” o som do trio formado por sua bateria e duas guitarras.

 

9. Stevie Ray Vaughan – Pride And Joy

Lançada em 1983, mesmo ano em que gravava sua guitarra no épico “Let’s Dance” de David Bowie, “Pride and Joy” foi uma das faixas do primeiro álbum de Stevie Ray Vaughan and Double Trouble: “Texas Flood” e um dos dois singles lançados no mesmo ano. O álbum ganhou platina no Canadá e platina dupla nos EUA, vendendo mais de meio milhão de unidades.

A melodia de “Pride and Joy” provavelmente nasceu de outra música de Stevie, “Live Another Day”, lançada postumamente no álbum “In The Beginning” que possui a mesma estrutura e tema similar.

Stevie Ray Vaughan é um clássico desde seu álbum de estréia e é um dos melhores guitarristas de blues (se não o melhor) segundo seus colegas e outros proclamados “deuses da guitarra”. Quase toda a sua discografia é recomendada (Eu poderia pular o álbum “Family Style”).

Nota:“Pride and Joy” foi escrita para Lenora, esposa de Stevie na época. Lenora no entanto acreditara que a canção era uma homenagem para uma ex-namorada de Stevie, que se viu na obrigação de gravar outra música para ela: “Lenny”.

 

10. Luther Allison – Watching You (Cherry Red Wine)

Luther Allison foi o primeiro e um dos únicos bluesmen contratados pela Motown Records (em 1972), cinco anos depois de lançar seu primeiro disco pela Delmark. Infelizmente Luther nunca teve um verdadeiro hit. Talvez pelo fato de ter se auto-exilado na Europa durante a maior parte da sua carreira, ele não teve a projeção merecida por suas composições. Sua capacidade como arranjador, vocalista, guitarrista e performer estiveram sempre acima da média e por essas razões ele ingressa nessa coletânea como um penetra muito bem-vindo.

“Cherry Red Wine” (ou “Watching You”) é uma das canções marcantes de seu repertório que podem ser consideradas como uma de suas assinaturas em shows.

Nota pessoal: Considero “Reckless” um dos seus melhores trabalhos e um dos melhores álbuns de blues já produzidos até hoje. Uma de suas canções dessa pérola constará em outro bloco dessa coletânea.

 

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BLUES MECOPONE COLLECTION – Os Clássicos Vol.III (47Mb)

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