Os artistas de blues mais conhecidos e alguns não tão famosos fora do meio representados com uma ou duas canções que se tornaram seus standartsOs Clássicos é um bloco de quatro volumes com o ABC do básico ao intermediário. Se você não conhece nada ou muito pouco de blues, comece por aqui.

Volume IV

Sem nove horas, começamos logo com o grandechavão do blues, seguido por uma canção que todo mundo acha que é do Bill Haley (ou doElvis), o delicado Jimmy Reed com seu blues de quem parece que acabou de chegar do campo, Elmore James fazendo o céu chorar, Bo Diddley fugindo de sua batida padrão, J.B. Lenoir com um pé no campo e outro na cidade grande, Billy Boy Arnold como o gaitista que brigou com a Chess e ficou um bom tempo na geladeira, J.B. Hutto representando o terceiro escalão do blues em Chicago sem perder o sorriso, Louis Jordan mostrando seu pioneirismo no jump blues e Howlin’ Wolf fechando o que Muddy abriu (ambosna capa) com uma canção de blues moderna para os padrões da época.

 

1. Muddy Waters – Hoochie Coochie Man

Enquanto houver uma banda de blues ou alguém que saiba tocar mais ou menos uma gaita, piano ou violão e queira tocar blues, o riff de “Hoochie Coochie Man” assombrará o gênero musical inspirando a falsa ideia de que “blues é tudo igual”. Outras responsáveis são as canções que se utilizam da mesma estrutura de doze compassos de “Sweet Home Chicago”, popularizada por Robert Johnson.

Reza a lenda que Willie Dixon apresentou essa música à Muddy Waters entre um set e outro de sua banda quando os dois se encontraram para tirar a água do joelho em um bar de Chicago. E  que, segundo Muddy, era para ser uma canção jocosa de efeito cômico.

O sucesso do lançamento em 1954 provocou em Bo Diddley uma inveja danada na certa (afinal, ele era o cara da Chess responsável por músicas errr… ‘mais primitivas’). Bo Diddley então gravou sua rendição “I’m a Man”, simplificando ainda mais a canção. “I’m a Man” estourou nas paradas provocando uma resposta de Dixon & Muddy na forma de uma versão minimalista também intitulada “Mannish Boy”. O estrago estava feito e reverbera até hoje em uma lista infindável de artistas e bandas que parecem não se importar de repetir o mesmo riff até o final dos tempos.

Entre os mais notáveis covers: Dion, Motörhead, Steven Seagal (sim, ele mesmo), Steppenwolf, Jimi Hendrix, Eric Burdon, Supertramp, Chuck Berry, The Allman Brothers, Eric Clapton, The New York Dolls e praticamente todos os bluesmen que tocaram depois de 1954.

 

2. Big Joe Turner – Shake, Rattle and Roll

Escrita por Jesse Stone em 1954, sob encomenda da Atlantic Records que desejava um blues up-tempo para Big Joe Turner, a canção atingiu o topo da parada R&B da Billboard no mesmo ano. Na mesma semana que “Shake, Rattle and Roll” despontava na Billboard, Bill Haley & His Comets’ lançaram sua versão com a letra mais sanitizada e com uma levada um pouco diferente, incluindo uma influência country (que era o gênero base de Bill Haley). Bill acabou ajudando a expôr a carreira de Big Joe Turner e os dois ficaram amigos (até excursionando juntos).

Em 1956 Elvis Presley gravou sua versão em um single pela RCA Victor utilizando a letra original de Big Joe Turner com a batida da versão de Bill Haley.

Outros artistas que regravaram a canção: Beatles, Sam Cooke, Jerry Lee Lewis, Fats Domino, Huey Lewis and The News, Johnny Horton e Arthur Conley.

“Shake, Rattle and Roll” é uma das 12 músicas dos anos 50 que disputam o título de “Primeira Gravação de Rock”. Pessoalmente essa não entraria nem na disputa apesar de ser uma canção clássica e bacana.

Nota: Jesse Stone também foi o co-autor de “Flip, Flop and Fly” que é extremamente similar à “Shake, Rattle and Roll” e Elvis costumava cantar as duas como um medley.

 

3. Jimmy Reed – Honest I Do

“Bright Lights, Big City” e “Baby What You Want Me To Do” poderiam facilmente ter entrado no lugar de “Honest I Do”. Ambas fizeram mais sucesso quando lançadas e foram mais regravadas por artistas famosos (apesar de que “Honest I Do” foi versionada no primeiro álbum dos Rolling Stones).

Escolhi esse clássico por algumas razões: sua estrutura possui uma levada que aponta para o R&B, exibindo uma importante ponte entre os dois gêneros musicais e porque com o passar dos anos ela se tornou um clássico entre os gaitistas. Tecnicamente ela é um “clássico de blues em gaita na primeira posição”. O que é “primeira posição” na gaita? Grosseiramente dizendo, é uma forma diferente de tocar escalas no instrumento. Jimmy Reed tocava não só violão/guitarra, mas também gaita ao mesmo tempo em muitas de suas canções.

Nota: A maioria dos gaitistas de blues tocam a gaita na segunda posição, mas não é incomum gravações em primeira posição (muito porcamente utilizada em rock e folk). A quinta e terceira posição são encontradas também, mas muito raras.

 

4. Elmore James – The Sky Is Crying

Blues slow tempo de Elmore James que atingiu o décimo quinto lugar na parada R&B da Billboard em 1960. Em teoria é um blues de doze compassos padrão. Tecnicamente não possui nenhuma característica marcante que o diferencie de outros blues de mesma estrutura. Só posso creditar à Elmore James uma gravação cheia de feeling para explicar porque essa canção se tornou um clássico do blues gerando diversas versões.

Sonny Boy Williamson II, The Yardbirds, Hound Dog Taylor, Albert King (que se transformou em um dos clássicos do seu repertório), Luther Allison, Earl Hooker, Allman Brothers, Eric Clapton, George Thorogood, Magic Slim, Gary Moore, Johnny Winter, Etta James e Stevie Ray Vaughan (que foi título do seu álbum póstumo de 1991)… toda essa gente não pode estar errada. Essa música tem alguma coisa especial.

Nota: meses depois de seu lançamento original o próprio Elmore James gravou uma nova versão com letra diferente intitulada “The Sun Is Shining” (que também foi regravada por Hound Dog Taylor).

 

5. Bo Diddley – Before You Accuse Me

Composta e lançada por Bo Diddley em seu álbum homônimo de estréia em 1957, essa canção ganhou status de clássico ao entrar no repertório de Eric Clapton que a gravou duas vezes (em seu álbum de 1989, Journeyman, e em 1992 no Unplugged). “Before You Accuse Me” se tornou o blues padrão do repertório de Clapton em shows a partir de 1990, reverberando entre os músicos fãs do artista uma enxurrada de covers em bares, pubs e saraus pelo mundo inteiro.

Creedence Clearwater Revival lançara sua versão no álbum Cosmo’s Factory de 1970, mas assim como a original, não foi um sucesso instantâneo.

“Before You Accuse Me” entra também nessa coletânea por ser uma música com estrutura completamente diferente do jungle beat padrão de Bo Diddley mostrando que ele poderia tocar outras coisas além de sua batida clássica.

Curiosidade: Em “Blues Power: Songs of Eric Clapton”, um álbum de tributo a Eric Clapton tocado por bluesmen, Bo Diddley regravou “Before You Accuse Me”… o que ao meu ver é um tributo à si mesmo.

 

6. J.B. Lenoir – Mama Talk To Your Daughter

Apesar de ter tocado durante quase toda a década de 40 com Sonny Boy Williamson II e Elmore James, J.B. Lenoir só começou a gravar em 1951.

Seu repertório incluindo canções com temas de protesto político (“Korea Blues”, “Vietnam”, “Eisenhower Blues”) ou racial (“Alabama Blues”) podem ser vistos como um diferencial entre outros bluesmen até certo ponto. Lenoir na verdade só carregou consigo a tradição do papel de menestrel, comum no cancioneiro rural, para as gravações urbanas na grande Chicago.

Em 1954, gravou o que seria seu maior hit “Mamma Talk To Your Daughter”, atingindo a décima primeira posição na parada R&B da Billboard. Apesar disso e de seu interesse pela música (especialmente por percussão africana), Lenoir deixou de tocar para ser “redescoberto” por Willie Dixon em 1963.

“Mamma Talk To Your Daughter” foi regravada por John Mayall, Johnny Winter com Dr. john (e com Muddy Waters e Carey Bell no album “Breakin’ it UP, Breakin’ it DOWN”), Robben Ford, Alvin Youngblood Hart, Magic Sam, entre outros.

Curiosidade: O “J.B.” de seu nome não significa nada. Ele foi batizado com essas duas letras como primeiro nome e seu sobre nome não tem a pronúncia francesa. Lê-se: “lenór”.

 

7. Billy Boy Arnold – I Wish You Would

Gravadas como singles pela Vee-Jay Records em maio de 1955, “I Wish You Would” e “I Ain’t Got You” são duas canções de assinatura de Billy Boy Arnold. A segunda foi regravada por muitos artistas de blues e de rock (principalmente gaitistas), mas apenas “I Wish You Would” teve a graça de ser regravada por David Bowie em 1973, no álbum “Pin Ups”.

Billy Boy gravava com Bo Diddley nos estúdios da Chess a canção “Diddy Diddy Dum Dum” quando Leonard Chess a ouviu e disse que Bo deveria gravá-la sozinho pela Chess. Leornard por alguma razão antipatizava com Billy. Ao descobrir isso, Billy Boy Arnold gravou “I Wish You Would” pela Vee-Jay com praticamente a mesma batida, mas letra diferente.

Em 1964 os Yardbirds regravaram a música sem sucesso, mas ela foi catapultada no álbum americano “For Your Love” que entrou nas paradas de Top LPs da Billboard no ano seguinte. Em 1979 a banda Canned Heat também gravou sua versão (lançada dois anos depois) no álbum “Live at Topanga Corral”.

 

8. J.B. Hutto – Hip Shakin’

J.B. Hutto assim como Hound Dog Taylor foi fortemente influenciado por Elmore James, trabalhou duro nos bares de Chicago, mas nunca conseguiu a fama do companheiro. Hutto está nessa coletânea para representar o terceiro escalão de blues de Chicago e mostrar que até os que normalmente possuem sua luz ofuscada pelos seus companheiros mais bem sucedidos, também podem gravar uma ou duas canções marcantes. Em 1995, dois anos após sua morte, ele foi incluído no Blues Hall Of Fame.

Depois da morte de Hound Dog Taylor, em 1975, Hutto o substituiu como líder dos Houserockers por alguns anos chegando a gravar um álbum. Seu sobrinho, Lil’ Ed mantém seu legado tocando em um estilo muito similar de guitarra (e chapeuzinho estranho) até hoje na banda Lil’ Ed & The Imperials.

“Hip Shakin’” mantém a tradição do blues do lado do sul de Chicago, de Elmore James e ainda faz uma ponte firme para o Rockabilly.

Curiosidade: J.B. Hutto tinha como marca registrada sua guitarra vermelha Res-O-Glass Airline, de fibra de vidro. Esse modelo ficou famoso anos depois nas mãos de Jack White, do duo White Stripes. Outros artistas que já utilizaram em shows esse modelo foram: Bowie, The Cure e P.J. Harvey. Ou seja, virou guitarra hipster.


Lil’ Ed

 

9. Louis Jordan – Caldonia

Jump blues gravado em 1945 por Louis Jordan and his Tympany Five, “Caldonia” ganhou uma versão no mesmo ano por Erskine Hawkins. A gravação de Erskine ganhou pela primeira vez o cunho impresso de ser uma canção de “rock and roll” (Billboard Magazine).

Louis Jordan influenciou inúmeros músicos e foi a grande força do jump blues (uma levada up-tempo de swing com forte base no blues que representa grande parte da receita para o rock’n'roll).

“Caldonia” foi regravada por B.B. King e Clarence ‘Gatemouth’ Brown em dois álbuns tributos à Louis Jordan, assim como por vários artistas como: Muddy Waters, Carl Perkins, James Brown, The Band, Van Morrison, Memphis Slim e Pinetop Perkins.

Curiosidade: Alguns acreditam que Louis Jordan com essa música pode ter sido a inspiração para a criação do RAP. Pessoalmente acho um exagero.

 

10. Howlin’ Wolf – Wang Dang Doodle

Diferente das composições antigas de Willie Dixon (com maior influência da estrutura de blues rural), “Wang Dang Doodle” foi gravada em 1960 levando em conta a popularidade das canções up-tempo de rock e o estilo de Howlin’ Wolf, que entre os medalhões da Chess Records era o que possuia um repertório mais versátil até então. Mesmo assim Howlin’ Wolf nunca gostou da composição.

Em 1964, com a recente inclusão de Koko Taylor na Chess, Dixon produziu uma nova versão de “Wang Dang Doodle” para a segunda gravação da cantora na casa nova com Buddy Guy na guitarra e o próprio Dixon cantando com ela. A versão foi lançada em 1966 e atingiu a quarta posição na parada R&B da Billboard e a 58ª posição na parada Hot 100.

“Wang Dang Doodle” ainda foi regravada por PJ Harvey, Ted Nugent, Booker T. & The MG’s, Charlie Watts, Pointer Sisters, Savoy Brown e Grateful Dead.

Notas: Howlin’ Wolf provavelmente não era o cara mais tranquilo para se trabalhar e odiava muita coisa que fugisse do seu repertório básico. Mesmo assim topava experimentar. Reclamando, mas topava. É possível que Freddy King tenha sido o guitarrista na gravação original da canção, mas não há como confirmar.

Curiosidade: Wang Dang Doodle significa festança.

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